As religiões também são parte da globalização

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08 Março 2018

Os mais fiéis aos dogmas nos últimos anos foram os muçulmanos, fanáticos até se tornarem terroristas "contra a corrupção da modernidade"; no entanto exibiram tais capacidades tecnológicas, financeiras e publicitárias para nos fazer entender que, querendo ou não, eles também são parte da história e nenhum ISIS será capaz de purificá-los do consumo de celulares ou proibir o rock, as redes sociais ou a ficção.

O comentário é de Giancarla Codrignani, escritora e jornalista italiana, publicado por In Dialogo, n. 1/2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

De fato, sob o disfarce de um retorno ao "sagrado", todas as religiões estão em crise porque, engessadas em tradições remotas, não suportam o impacto de uma transformação do mundo realmente abrangente e de uma globalização que angustia quem viveu confiando na continuidade de um bem-estar destinado a crescer apenas para nós, mas que também leva as igrejas a perceber com medo esse direcionamento para um futuro incerto.

Para os cristãos, o novo mundo abre um desafio desorientador, o de poder dissolver a cristalização da doutrina, ainda influenciada pelo Concílio de Trento. Aqueles que acreditam, nunca deveriam ser pessimistas: basicamente, também estivemos numa crise no final do século XIV, quando as comunidades estavam em declínio e as pessoas viam escurecerem-se os Efeitos do Bom Governo pintados no Palácio Público de Siena: não havia como acompanhar o crescimento do mercado, lamentava a desordem e havia uma desconfiança nos jovens que inventaram um humanismo secular em contraste com as "boas tradições cristãs". Foi uma grande depressão, mas ninguém imaginava que estavam prestes a nascer Michelangelo e Cristóvão Colombo.

Naquele tempo, o cristianismo era tanto indiferente como rebelde, enquanto os Príncipes da Igreja, à vontade em qualquer modernidade, não aceitavam reformar a doutrina, embora movimentos julgados subversivos durante décadas assim o exigissem; mas Roma não relia mais o Evangelho, não colocava em primeiro lugar a irmã pobreza e não renovava os sacramentos definidos por dogma; em vez disso, favorecia superstições absolutamente pagãs, o culto das relíquias, a veneração de santos e as peregrinações.

John Wyclif em pleno século XIV havia escrito um texto pedindo a separação da Igreja do Estado, a reforma pastoral do clero e um esclarecimento sobre a transubstanciação: a Inglaterra estava longe e ele escapou às condenações. Não teve tanta sorte, quase um século mais tarde, Jan Hus em Praga que, repropondo uma necessidade análoga de reformas, terminou na fogueira. Precisaram chegar Lutero e a Reforma para forçar a Igreja; que respondeu, infelizmente, com a Contrarreforma. Mais do que o escândalo das indulgências foi o imobilismo que condicionou o futuro de um povo de Deus que apelava para o Evangelho já no tempo de Francisco de Assis.

Na verdade, ainda estamos presos ali. O atraso é uma loucura: apesar de João XXIII, anos cruciais foram perdidos, e apesar da falta de discernimento consciente dos "sete sacramentos" (confissão? crisma? ordenação exclusivamente masculina?) nós não conseguimos ainda nem recompor em unidade as confissões cristãs ou perceber que, em países onde até poucos anos atrás os homossexuais podiam ser condenados à morte, torna-se inadmissível aquele moderado "quem sou eu para julgar?" do Papa Francisco.

Agora estamos na obrigação de nos aceitarmos uns aos outros – crentes, crentes de outros credos e não crentes – estabelecendo também como doutrina a manutenção de uma fé renovada, sim, mas na aceitação de diferenças que hoje inspiram o medo de perder a identidade, de despencar no caos, de destruir em vez de construir.

Enquanto isso, os jovens - que conhecem pelo menos os nomes de Einstein, Marx e Freud e modelam suas vidas sobre as novas tecnologias - percebem que, se o trabalho não é mais aquele de seus pais, nem mesmo Deus é o mesmo. Enquanto isso, o mundo secular não ficou amarrado no poste e, inclusive por conhecimento dos princípios evangélicos, a ONU tornou universais os direitos humanos, na esteira de princípios cristãos, mas também de políticos e pensadores seculares que legitimaram a efetiva igualdade dos homens e o resgate dos explorados. Por outro lado, o julgamento sobre a justiça não distingue os crentes dos não-crentes. E se a Igreja não encontra respostas "isso significa que existe um problema dentro da Igreja", como afirma D. Matteo Zuppi, entrevistado pelo Espresso.

A transmissão da fé, de fato, torna-se agora impossível se for confiada somente a um clero numericamente em queda livre, ordenada por bispos que removeram o Concílio por considerá-lo "pastoral", e, exceto pelos clergyman e subordinação ao Facebook, não sabem o que é atualização. Muitos estão lutando para entender um Papa, que talvez seja até mesmo conservador, mas que também é o jesuíta que se sente mais de perto a instituição e reclama não só o braço do Francisco pintado por Giotto, mas aquele de todas as pessoas de boa vontade em todos os lugares, para que ajudem a converter uma instituição pouco capaz de se autorreformar (é "como limpar a Esfinge com uma escova de dentes", disse ele na reunião com a Cúria, em 21 de dezembro de 2017).

Mesmo ele sabe que não é culpa da secularização, mas é o evangelho que se tornou mais e mais desconfortável: por isso a investigação teológica foi constantemente removida - a partir da teologia da libertação - e colocada sob controle. Sem massivas injeções de sentido (até mesmo de senso comum) as religiões deixariam que se esgotasse a mensagem porque ainda não foi – e nunca será - explorada e equipada para as mudanças históricas. Especialmente porque as sociedades ocidentais cedem à indiferença e, no máximo, se contentam com uma religiosidade formal, talvez cheia de boas intenções demasiado radicais.

Não vamos entrar em pânico: fizemos inclusive "guerras religiosas" e ainda ocorrem. É preciso, no entanto, equipar-se, também para não sucumbir ao "não há mais religião" e permanecer inertes e desesperados; ou até seguir aqueles que denunciam o papa por heresia. Foi permitida muita ignorância em matéria de fé, enquanto é necessário pescar novamente e corajosamente as leituras que anteciparam o Vaticano II e os livros de teólogos censurados, mas também enfrentar novos autores que estimulem com análises nem sempre reconfortantes.

Nenhum escândalo, então, se John Spong, teólogo episcopal norte-americano, elimina aspectos mitológicos da crença comum como a virgindade de Maria, o nascimento de Jesus em Belém (onde nenhum homem sensato teria arrastado por 94 milhas a mulher prestes a dar à luz, mas o nome reportava a Davi) ou o valor literal da expressão "filho de Deus". Na verdade, é necessário que a religião se reaproprie do autêntico espírito de seu Mestre, não de narrativas simbólicas. Inclusive o jesuíta Roger Laenars, autor de Jesus de Nazaré, um homem como nós? defende que "Jesus nunca pensou ser o Filho unigênito de Deus", mas reinterpreta o dilema da primeira epístola aos Coríntios: "se não tiver ressurgido, não há ressurreição nem mesmo para nós e se não há ressurreição para nós, não há ressurreição nem mesmo para ele", concluindo que "cada um de nós vai ressurgir em maior ou menor plenitude .... não no Dia do Juízo, mas no momento da morte". Os sacerdotes sempre chamaram de "novíssimos" os "questionamentos extremos” (morte, juízo, paraíso e inferno), mas não basta nomeá-los sem nos questionarmos sobre o significado, uma vez que o amor em qualquer de sua forma, humana e divina, por princípio não coloca limites a si mesmo.

Não é religião ir à missa ao domingo ou levar os filhos e os netos para o catecismo quando já se sabe que aos doze anos não frequentarão mais a igreja. Nem mesmo o afã em atuar entre os mais necessitados é necessariamente cristão, se permanece sociológico. É mais próxima da fé, na verdade, a sugestão não só poética, mas espiritual do imaginário introjetado desde a infância que permanece indelével pela percepção simbólica do mistério, embora ainda estejamos conceitualmente dependentes da imagem organizada de igreja que sobrevive até mesmo nas comunidades de base, onde, apesar de renovados e personalizados, são mantidos ritos totalmente compatíveis com a sacralidade tradicional. Se a fé for, em vez disso, apenas compatível com o Amor que permanece "mistério", porque também a razão humana tem consciência de suas próprias limitações em concebê-lo, não é com a indiferença ou a banalidade de suas jornadas que vai encontrar satisfação a pretensão de ter direito a "algo a mais".

Por essa razão, a Igreja - que também somos nós - deve fazer a sua parte. Se Francisco usa os meios ao seu alcance para cruzar as passagens e galgar os degraus de uma conversão global da instituição, ainda incapaz de ler de forma autônoma o mundo (e a Escritura) sem óculos coloridos e viseiras pagãs, é preciso defendê-lo, argumentando contra as contraposições fundamentalistas, mas também demonstrando discernimento cognitivo do já vetusto Vaticano II. São os açoites, incompreendido já à sua época pelos mercadores e sacerdotes do Templo, com quem o Mestre tentou superar os erros e pecados que contrastavam a sua voz de paz. Mas sem a gente, Francisco sozinho não conseguirá fazer isso.

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