Três anúncios para um crime

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06 Março 2018

"Surpreendente" e "original": estes são os termos que ocorrem mais frequentemente quando se fala de Três anúncios para um crime.

A opinião é de Gabriele Gimmelli, estudante de doutorado na Universidade de Bergamo e editor da revista Doppiozero, em artigo publicado por Aggiornamenti Sociali, 03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Surpreendente" e "original": estes são os termos que ocorrem mais frequentemente quando se fala de Três anúncios para um crime. Apesar do título minimalista, o filme escrito e dirigido pelo inglês Martin McDonagh tem reunido desde a sua estreia, um amplo consenso por parte da crítica e do público, também evidenciado pelos prêmios recebidos: Osella de Ouro pelo Melhor Roteiro na última edição do Festival de Cinema de Veneza; quatro Globos de Ouro (incluindo dois para os protagonistas); sete indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Filme.

Um sucesso merecido? Em grande parte, sim. Embora, como veremos, nem todas as contas fecham, dificilmente pode ser negada ao diretor uma boa dose de ousadia, a seu modo corajosa: não é nada fácil contar, "de fora" e na forma de comédia (embora de humor negro), a América da era pós-Obama, onde o empobrecimento da classe média favoreceu por um lado o ressurgimento de tendências racistas e segregacionistas (aliás, nunca silenciadas) e, por outro lado, deu origem a uma espécie de "far west moral", segundo o qual às vezes a melhor maneira de obter justiça é fazê-la com as próprias mãos.

É justamente a partir de um profundo, extremo e excessivo desejo para a justiça que Três anúncios se inicia. Mildred Hayes (interpretada por Frances McDormand - (Nota de IHU on-Line: Oscar 2018 de melhor atriz) é balconista em uma loja de souvenires e bugigangas; tem na bagagem um casamento fracassado com um ex-policial violento e dois filhos, Robbie (Lucas Hedges, já visto em Manchester by the Sea) e Angela (Kathryn Newton). Os três vivem nos arredores da imaginária cidade do título original, Ebbing, um típico centro do vasto interior estadunidense. Uma noite Angela, cuja mãe se recusou a emprestar o carro, decide ir até a cidade a pé. Mas no caminho é vítima de um misterioso agressor: é estuprada e queimada viva. Um ano mais tarde, o culpado ainda não foi encontrado. É neste ponto que Mildred decide alugar três grandes outdoors abandonados ao longo da estrada para Ebbing, para exibir três frases em letras garrafais: "Estuprada enquanto morria", "E ainda não houve nenhuma prisão" e "Como pode, xerife Willoughby?".

Enquanto toda a comunidade, aparentemente atingida pela dureza da acusação, se reúne em volta do xerife (Woody Harrelson), o público não pode, pelo menos para o momento, não se solidarizar com Mildred, especialmente quando, entrevistada por uma emissora de televisão local diz que "a polícia está muito ocupada torturando os negros" para investigar seriamente o terrível fim de sua filha. A referência é a Jason Dixon (Sam Rockwell), um policial bronco e violento, bem conhecido na comunidade por sua tendência em usar a violência e pelo desprezo pelas pessoas de cor.

Até a este momento, Três anúncios coloca o espectador diante da mais clássica divisão entre os bons e os maus; uma visão maniqueísta a que Hollywood já amplamente nos acostumou: uma mulher com sede de justiça, sozinha e determinada, contra as forças da ordem tão arrogantes quanto covardes. As certezas do público, no entanto, começam a trincar quando o xerife Willoughby - aparentemente o arquétipo do "bom americano": honesto, forte, o retrato da saúde - procura Mildred para induzi-la a retirar os outdoors. O homem lhe confessa que está tomado por um câncer de pulmão e um caso como esse só iria tornar mais amargos os poucos meses de vida que lhe restam. No entanto, convicta de suas razões, Mildred é inflexível. E os outdoors permanecem em seu lugar.

A posição de Mildred dentro da comunidade começa a oscilar. O diretor é particularmente eficaz em mostrar como o mundo solidário e acolhedor, onde vive a protagonista aos poucos revele o seu perfil hostil e inimigo. Imperceptível mas inexoravelmente Mildred fica cada vez mais isolada (também o filho Robbie não compartilha mais a sua teimosia), é feita alvo de pequenas recriminações e ressentimentos. No entanto, não desiste, não se esquiva do confronto físico com seus concidadãos: durante uma visita odontológica agride o dentista, quando suspeita que este queira usar seus instrumentos de ofício para machucá-la...

Se, neste momento, o público já está suficientemente confuso sobre as reais "boas" razões da protagonista, tudo piora ainda mais quando o xerife, já debilitado pela doença terminal, depois de passar um dia de folga com sua esposa e filhos, elabora de próprio punho três cartas de despedida (para a mulher, para Mildred e para o agente Dixon) e se mata com um tiro. É um momento de grande teatralidade: tanto pela linguagem, entre o cortês e o afetuoso, adotada pelo xerife (McDonagh escolhe acompanhar a sequência do suicídio e a descoberta do cadáver pela narrativa na voz do próprio personagem), como porque representa a definitiva mudança de direção do filme. Daqui em diante, na verdade, Três anúncios embrenha-se mais decisivamente no caminho do grotesco, inclusive através de imagens de forte apelo visual.

Vamos tomar a cena em que o agente de Dixon - que, enquanto isso, por ordem do novo xerife foi expulso da força policial depois de mais uma surra - lê a carta enviada a ele pelo falecido Willoughby. Está sozinho; entrou escondido, à noite, na delegacia de polícia com a ajuda dos ex-colegas, com o único propósito de ler aquela carta tão importante. Ele agora está isolado de tudo e todos, inclusive acusticamente: escuta música de um iPod com fones de ouvido. Mais uma vez, ouvimos a voz de Willoughby: apesar de seus excessos e seus defeitos macroscópicos, chama Dixon de "um bom detetive," e um bom homem ("a decent man" no original: o da common decency que é um conceito intraduzível da cultura anglófona que combina o bom senso e a retidão moral). Enquanto Dixon está mergulhado na leitura, Mildred está preparando coquetéis molotov para lançar contra a delegacia, como ato de contestação. O homem não escuta o telefone tocar quando Mildred quer certificar-se de que o edifício está vazio, nem a explosão do primeiro coquetel molotov contra as janelas. Assim, enquanto a voz Willoughby continua a tecer louvores ao ex-policial e a música dos fones de ouvido toca a todo volume, vemos Dixon ler alheio, enquanto tudo está em chamas ao seu redor. Uma sequência de grande intensidade, de verdadeiro cinema, como diria o diretor Truffaut, mas ao mesmo tempo carregada de ironia, como outras espalhadas ao longo do filme: basta pensar na figura recorrente do anão jogador de sinuca, apaixonado pela protagonista.

A contínua intenção de valorizar McDonagh, determinado a decepcionar as expectativas do público, nem sempre se sustenta no longo curso. Não se trata apenas de um defeito estrutural.

O mecanismo para inverter a retórica maniqueísta de Hollywood é uma faca de dois gumes que pode correr o risco de deixar o lugar para outra retórica, não menos enfadonha: aquela segundo a qual, no final, "todos têm suas razões”. Uma visão que, no cômputo geral, justifica no melhor estilo Pilatos todos os personagens: se todo mundo é culpado, então ninguém é culpado. Mas uma coisa é suspender o juízo e convidar para superar as aparências, mesmo quando elas parecem incontestáveis, como no caso de Dixon e Mildred; outro é se comprazer um tanto cinicamente com destino tragicômico da América contemporânea. Melhor em descrever os sintomas de uma doença social do que para fornecer um diagnóstico, McDonagh parece por vezes sucumbir ao mesmo vazio (de valores, perspectivas e empatia) que caracteriza seus personagens.

Pois, este talvez seja o único aspecto vulnerável de Três anúncios. Uma obra que, além das incertezas e eventuais notas falsas, permanece como um dos mais significativos, problemáticos e "fortes" retratos da América profunda que Hollywood nos propiciou nos últimos anos.

Martin McDonagh

20th Century Fox Distribution

EUA 2017, Comédia/drama, 115 min.

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