Michel Onfray, o filósofo best-seller que irrita e fascina a França

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02 Março 2018

Michel Onfray — o filósofo mais popular, o mais midiático, também o mais detestado e o mais prolífico na França do século XXI — deixa escapar no meio da conversa, como se fosse a coisa mais natural do mundo: “Neste ano publicarei meu centésimo livro”.

A reportagem é de Marc Bassets, publicada por El País, 01-03-2018.

Você leu direito: centésimo. Já são 100 volumes desde o primeiro, em 1989, na bibliografia do autor de Tratado de Ateologia, um autodidata de 59 anos afastado dos cenáculos intelectuais de Paris, mas que segue essa tradição tão francesa do intelectual comprometido com o debate público. Define-se como “socialista libertário, mas não liberal”, com ideias afastadas do centro político, mas tem mais leitores e seguidores que qualquer outro intelectual vivo na França. Parece capaz de escrever sobre tudo, e a uma velocidade e com um sucesso — talvez nem sempre de crítica, mas sim de público — que muitos de seus colegas invejam.

Décadence, o segundo volume da ainda inconclusa trilogia Breve Enciclopédia do Mundo, já vendeu mais de 100.000 exemplares. Seus cursos na Universidade Popular de Caen — um centro educacional gratuito fundado há 16 anos para levar a alta cultura aos franceses comuns – reúnem enormes plateias.

A popularidade de Onfray é tão intensa quanto a rejeição que provoca. O presidente Emmanuel Macron, segundo contou ao romancista Philippe Besson, o inclui na categoria dos autores que não lhe interessam, porque “vivem encerrados em velhos esquemas” e “olham o mundo de ontem com os olhos de ontem”. Polemista, grafômano, populista e reacionário são alguns dos adjetivos que seus crítico costumam lhe dedicar.

A historiadora e especialista em psicanálise Elisabeth Roudinesco publicou em 2010 um livro, intitulado Mais Pourquoi Tant de Haine? (“mas por que tanto ódio?”), dedicado a rebater o “panfleto salpicado de erros e infestado de rumores” que Onfray havia dedicado a Freud. Em 2016, o filósofo esquerdista Alain Jugnon publicou Contre Onfray (“contra Onfray”), em que argumentava que esse intelectual, com quem há anos simpatizava, já não era mais um pensador de esquerda, e sim de direita, e o definia como “um puritano hedonizante, um revolucionário dandizante, um banqueiro anarquizante”, encarnação do filósofo que “decide não saber nada, não ler nada, não escrever nada, não viver nada: vende livros, aparece na mídia”.

Neste ano, o centro de convenções desta elegante cidadezinha na costa da Normandia abriga os cursos da Universidade Popular de Caen. É domingo, e Onfray acaba de dissertar durante uma hora — mais 45 minutos da sessão de perguntas e respostas — para um público de mil pessoas sobre são Paulo e a origem da civilização judaico-cristã. Poderia parecer um pregador norte-americano, pela magnitude do local e a devoção da plateia, mas, quando se sentar à mesa colocada sobre o palco e começa a proferir a palestra, recorda mais um professor republicano que um guru.

Onfray sente uma conexão particular com a França popular, que considera a sua França. “Vi meus pais humilhados, e não suporto a humilhação. Lembro-me que me prometi lavar a ofensa”, conta.

Populista? “O que é um populista? É alguém que fala com povo, que se preocupa com o povo, e cujos livros o povo compra”, responde.

Midiático? “Sim, apareço na mídia. Mas qual filósofo, quando convidado, não aparece na mídia? Qual é o problema de me verem na televisão? Gostariam de não me ver, de não me ouvir, que eu não falasse? Que bom seria se eu não escrevesse meus livros e artigos. Quando dizem isso, me pedem que não eu exista.”

Reacionário? “Não virei reacionário, mas deixei de ser de esquerda como o era antes. Quando vejo que a esquerda hoje defende o aluguel do útero das mulheres para fazer crianças, digo para mim mesmo: ‘Não sou desta esquerda’. Quando a esquerda diz que não precisamos aprender a ler, a escrever, a contar e a pensar na escola, já não pertenço mais a esta esquerda. Quando a esquerda consiste em elogiar os méritos de Bernard Tapie como empresário, já não sou mais desta esquerda.”

Assim transcritas, as palavras de Onfray parecem as de um homem irado e desafiador, mas ele as pronuncia com calma, e de perto transmite uma bonomia que poderia passar por humildade. Talvez seja este um dos motivos do seu sucesso: a capacidade de fazer o seu público sentir que fala de questões profundas e sérias, mas numa linguagem clara e compreensível, que fala não de um pedestal, e sim de igual para igual.

“Gosto que ele se baseie numa cultura e em conhecimentos enciclopédicos, e que saiba colocar isso tudo em perspectiva”, diz Francine Danin, uma professora aposentada, após escutar a conferência de Onfray em Deauville. “E é um excelente pedagogo. Sabe se colocar ao alcance da plateia, se fazer entender por todo mundo.”

É um enigma como acha tempo para ditar conferências, gravar videoblogs comentando a atualidade e escrever no ritmo que escreve. Certa vez calculou que era capaz de escrever 40.000 caracteres por dia. Só em 2017 publicou nove livros, de gêneros tão díspares como a literatura de viagens, a crônica política, o ensaio (sobre filósofos e escritores como Tocqueville, Thoreau e Houellebecq), uma defesa da descentralização da França e ainda as 600 páginas de prosa filosófica de Décadence. Sabe que em 2018 lançará seu livro de número cem, mas por enquanto ignora qual será. Não é estranho, em se tratando de Onfray. “Tenho seis ou sete preparados este ano”, adianta. “Será um deles.”

“A civilização judaico-cristã europeia se encontra em fase terminal”, proclama Michel Onfray em Décadence, o segundo (e até agora último) volume da sua Breve Enciclopédia do Mundo — os outros dois são Cosmos e Sagesse (“sabedoria”), este ainda inédito. “A potência de uma civilização casa sempre com a potência da religião que a legitima. Quando a religião está em fase ascendente, a civilização está igualmente em ascensão; quando se encontra em fase descendente, a civilização decai; quando a religião morre, a civilização falece com ela. O ateu que sou nem se choca nem se alegra por isso: só constato, como faria um médico com uma escamação ou uma fratura, um enfarte ou um câncer.”

Um edifício, segundo Onfray, simboliza a doença terminal desta civilização: a basílica da Sagrada Família, que descobriu no final dos anos oitenta, durante uma visita a Barcelona, após sofrer um enfarte. “Não fomos capazes de construir esta catedral”, explica o autor ao EL PAÍS. “Começou-se no século XIX. Houve todo o século XX para que se fosse construída. Estamos no século XXI e ainda não ficou pronta. Há um Papa [Bento XVI] que foi lá consagrá-la, e esse Papa renuncia. Pode-se acrescentar ainda outro elemento que não está no livro. E é que os terroristas islâmicos tinham previsto um atentado contra a Sagrada Família. Ou seja, o projeto era fazer explodir uma igreja inacabada. Toda a história da nossa civilização está concentrada nesse edifício.”

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