A participação dos fiéis nas discussões doutrinais do cristianismo na antiguidade tardia

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01 Março 2018

"O que é certo é que o confronto entre diferentes opiniões e as capacidades de administrar o dissenso é um dado estrutural do mundo cristão da antiguidade tardia e um dos elementos que contribuíram a definir a sua identidade ao longo do tempo", escreve Giovanni Cerro, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 27-28 de fevereiro 2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

“Homens nascidos ontem e no dia anterior, pessoas dedicadas a atividades vis, teólogos improvisados que ficam dogmatizando, talvez até escravos que conheceram o chicote e que fugiram do trabalho servil, todos eles se vangloriam de filosofar sobre coisas das quais nada entendem. Vocês certamente não ignoram de quem estou falando. Em todos os lugares, a cidade borbulha de pessoas desse tipo: elas lotam as ruas, as praças, as avenidas, os bairros, as oficinas dos alfaiates, dos cambistas e vendedores de especiarias. Tentem trocar um dinheiro e eles irão lhes entreter sobre os feitos da criação e da geração. Perguntem o preço do pão e eles irão responder que o Pai é maior e que o Filho é inferior. Procurem saber se o banho está pronto e eles lhes demonstrarão que o Filho foi criado do nada”.

Estas palavras, tiradas de uma homilia proferida em Constantinopla por Gregório de Nissa, em 383, trouxeram desde a época de Edward Gibbon, e da sua História e decadência do Império Romano um problema historiográfico bastante significativo: as disputas teológicas internas ao cristianismo tardio-antigo foram apenas uma discussão entre doutos ou tiveram um reflexo na vida cotidiana da comunidade? É a esta pergunta que procura responder Michel-Yves Perrin, directeur d'études na École Pratique des Hautes Etudes em Paris e especialista em história cristã antiga, em seu livro Civitas confusionis. De la participation des fidèles aux controverses doctrinales dans l'Antiquité tardive (Paris, Nuvis, 2017, 405 páginas, € 27). A análise centra-se no período compreendido entre o início do III século e as três primeiras décadas do V, através da leitura aprofundada de um número verdadeiramente impressionante de documentos e a relação constante, de um ponto de vista metodológico, com a tradição historiográfica italiana (Cantimori, Mazzarino e Simonetti) e francesa (Febvre, Le Roy Ladurie e Veyne).

Uma das hipóteses da indagação de Perrin é que as disputas doutrinais não podem ser compreendidas totalmente se for ignorada a dimensão eminentemente oral que elas tiveram. Dimensão cujo tamanho muitas vezes escapa até mesmo aos próprios estudiosos, que prestam pouca atenção ao exame de algumas fontes, consideradas marginais, ou subestimam as estreitas relações existentes no mundo tardio-antigo entre oralidade e escrita. É por isso que o interesse do autor está voltado principalmente para as diferentes estratégias discursivas (a "arte da persuasão", conforme a define), a partir da produção das homílias, das quais uma parte significativa era dedicada a questões doutrinárias. Do ponto de vista puramente quantitativo, pode-se calcular que isto seja verdade para, no mínimo, um quarto dos sermões de Agostinho que chegaram até nós, que não apresentam argumentações diferentes daquelas usadas nos tratados contra os donatistas e pelagianos.

Também é curioso notar que Pelágio acabe sendo nomeado explicitamente, pela primeira vez, precisamente durante um sermão apresentado em Hipona, no final de maio e início de junho de 416. Até então, nos textos De peccatorum meritis et remissão e De natura et gratia, Agostinho só tinha evocado as doutrinas de seu adversário sem nunca citá-lo. O contexto em que os sermões, e não apenas os agostinianos, foram proferidos hoje é praticamente desconhecido, mas as indicações presentes nos textos ou nos títulos ainda permitem que o historiador possa supor que muitos deles estivessem associados a celebrações em honra de santos e mártires (durante as quais também eram lidos textos hagiográficos, que não raramente faziam referência a polêmicas teológicas) ou cerimônias fúnebres. Tratava-se de reunião que aconteciam em igrejas ou espaços sagrados de vários tipos e nas quais podiam participar segmentos da população tradicionalmente excluídos do acesso à cultura.

Ao lado das pregações, devem ser levadas em consideração também as disputas públicas, que ocorriam concomitantemente a assembleias e sínodos. No III século, as fontes falam de fiéis que assistem às deliberações conciliares e que podem assim cumprir o papel de testemunhas na desaprovação expressa em relação a posições julgadas pouco ortodoxas. Um documento valioso neste sentido é representado pelo resumo taquigráfico de uma disputa que aconteceu entre 244 e 249 e que acompanhou um embate entre Orígenes e o bispo Heráclides a propósito da relação entre o Pai e o Filho: um papiro no qual é transmitido o texto, descoberto em 1941 em Tura no Egito, relata que o debate teve lugar na presença não só de bispos, mas de "toda a Igreja que escuta". A expressão sugere, portanto, um grande envolvimento de fiéis.

Não deve ser esquecido que os numerosos textos redigidos no período tomado em exame por Perrin muitas vezes foram objeto de sessões de leitura privadas, às quais podiam participar servos e escravos. Não se trata de uma mera suposição, já que Agostinho, em uma de suas famosas epístolas tem o cuidado de avisar a nobre Juliana, viúva de um senador, para que o tratado pelagiano dirigido à sua filha Demetriade não insinue "sentimentos perigosos" não só em suas almas, mas também nas de seus empregados e serviçais. À leitura pública, ou pelo menos de circulação mais ampla, eram destinadas as cartas dos bispos, de acordo com uma tradição já atestada nos escritos paulinos. Em uma carta dirigida ao tribuno e notário Marcellino, Agostinho recomenda que os atos da conferência de Cartago de 411, durante a qual foram refutadas as teses donatistas, fossem afixados na igreja local de Theoprepia ou no lugar mais frequentado da cidade para que todos pudessem ter conhecimento. Da mesma forma, em uma carta festiva de 338, o bispo Atanásio de Alexandria refere-se à crise ariana e as dificuldades decorrentes. Comunicações desse tipo, cujo principal objetivo era anunciar a data definida a cada ano para a Páscoa, eram dirigidas a todas as igrejas do Egito. A sua difusão, portanto, era bastante ampla.

Provavelmente nunca saberemos se as palavras de Gregório de Nissa citadas no início respondessem a um modelo retórico ou descrevessem de maneira pontual a realidade contemporânea, mas as fontes de que dispomos sugerem que entre o III e o V séculos as controvérsias doutrinárias não eram prerrogativa exclusiva do clero. Nelas participavam também aqueles que chamaríamos hoje com o termo impróprio de "laicos", aos quais às vezes era reconhecida uma competência equivalente ou mesmo superior à dos religiosos. Da leitura do livro de Perrin fica claro o quanto é complexo afirmar quais estratos sociais estavam realmente envolvidos nas disputas. Igualmente problemático é estabelecer os mecanismos e as formas em que se expressava tal participação.

O que é certo é que o confronto entre diferentes opiniões e as capacidades de administrar o dissenso é um dado estrutural do mundo cristão da antiguidade tardia e um dos elementos que contribuíram a definir a sua identidade ao longo do tempo.

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