Relações de Cuba com a Igreja Católica mostram melhoria

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28 Fevereiro 2018

"A ilha mais bonita do mundo", dizem que exclamou Colombo, em 27 de outubro de 1492, durante suas primeiras incursões às praias de areias negras da maior massa de terra do Caribe.

"Cuba" significa "terra fértil", contou Luís, meu guia local, em dois dias de percursos a pé e de ônibus turísticos na capital cubana de Havana, nos dias 5 e 6 de fevereiro. Os moradores locais pronunciam "Koo-bah", disse ele, enquanto uma frota de Buicks, Chevrolets e Pontiacs coloridos dos anos 50 passavam zunindo.

A reportagem é de Patricia Lefevere, publicada por National Catholic Reporter, 26-02-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Sem acesso a peças de reposição para os carros, os cubanos têm orgulho de serem os melhores mecânicos do mundo. Eles arrumaram os motores e por $50 levam em uma volta de uma hora a um dos "nossos monumentos nacionais". A livre iniciativa está viva em Havana e precisa dos 4,1 milhões de turistas que visitaram Cuba no ano passado.

Juntei-me à Irmã Beneditina Joan Chittister e outros 117 turistas que há muito tempo queriam ver essa terra e descobrir por que foi tão difícil visitá-la durante quase toda a nossa vida. Nosso grupo tinha discussões sobre questões cubanas como direitos humanos, censura à imprensa, cuidados de saúde, educação e religião.

Embora grande parte dos meus companheiros da Educational Opportunities, a bordo do navio da Greek Line Celestyal Crystal eram estadunidenses aposentados, vários eram irlandeses, britânicos, canadenses, australianos e neozelandeses cujos governos tinham tido relações menos controversas com a Cuba marxista.

Muitos pareciam em choque com a pobreza e a escassez evidentes enfrentadas pela maioria dos cubanos. "Ninguém vive com US$30 por mês", observaram nossos guias, referindo-se ao salário médio mensal oficial do governo. Eles rapidamente apontaram uma economia quase "underground", em que até os médicos e os professores universitários complementam o salário trabalhando como guias turísticos, baristas, empregadas domésticas e motoristas. Vários proprietários oferecem hospedagem aos turistas, uma versão cubana do modelo de negócios do Airbnb. Também há muitos cobiçados empregos nas construções.

Muitos cubanos agradeceram ao Presidente Barack Obama e ao Papa Francisco por normalizar as relações entre Washington e Havana, depois de quase 60 anos de hostilidade enraizada. Eles nos mostraram o Teatro Nacional, onde Obama fez um discurso ao povo cubano em 2016.

Eles esperavam que o presidente Donald Trump não freasse o fluxo de turistas, já que o turismo atualmente supera a coluna do produto interno bruto de Cuba. Um pouco atrás, embora não haja números oficiais publicados, estão os cerca de US$ 3,1 bilhões repatriados por exilados cubanos para a família e os negócios na ilha no ano passado.

Cuba — que é do tamanho de Vermont e New Hampshire, de costas um para o outro — continua sendo a joia do Caribe. Bem no meio do mar, parece um crocodilo sonolento. A cabeça aponta a oeste, a cauda curvada ameaça quem queira invadir pelo leste. No meio, há portos, estuários, florestas, cordilheiras, um filão de minas — cobre, níquel, manganês, cobalto e cromo — e milhões de hectares de cana de açúcar, tabaco e café.

Por cinco séculos essas culturas têm sido o pilar econômico de colonizadores espanhóis e estadunidenses e dos latifundiários cubanos. A Espanha importou 1 milhão de africanos para trabalhar nos campos, submetendo-os a condições de escravidão. A presença da África em Cuba ainda é visível na arte, na música, na dança e em rituais religiosos da metade dos 11 milhões de habitantes da ilha.

Em Cienfuegos, uma cidade portuária histórica no centro-sul de Cuba, Hilda, nossa guia, apontou para uma avenida que, antes da revolução liderada por Castro, em 1959, era uma avenida segregada, com brancos de um lado e negros do outro.

Já nos anos 30, observou-se que as crianças negras dos trabalhadores de cana-de-açúcar sobreviviam aos meses fora do período de colheita à base da guarapa extraída da cana esmagada, quase sempre sem proteína para nutrir o corpo e a mente.

Propaganda? Notícias falsas? Ou simplesmente um comentário escrito por Ernesto Che Guevara, grandemente influenciado por Fidel Castro durante a época de estudante no Colégio Jesuíta de Dolores, onde teria lido. Fidel e seus irmãos, Ramón e Raúl, chegaram como internos do colégio Dolores em Santiago de Cuba, depois de estudar por um breve período com os Irmãos Cristãos que coordenavam o Lasalle, também em Santiago, a segunda maior cidade de Cuba.

Os três irmãos eram filhos ilegítimos de Angel Castro, um dos maiores proprietários de terra de Cuba, e Lina Ruz González, cozinheira e criada com quem Angel casou-se depois do nascimento de seu terceiro filho.

Os três irmãos Castro frequentaram a prestigiada escola em Santiago, cuja equipe era composta por cerca de 80 padres e irmãos jesuítas, alguns homens de outra ordem religiosa e alguns professores leigos. Grande parte do clero que educou e formou os 238 rapazes — quase todos de famílias brancas de classe alta — advinham da Espanha e apoiavam abertamente seu líder, Francisco Franco.

Em 1942, Fidel foi convidado a sair de Dolores depois de uma briga com outro aluno. Ele passou a estudar em Belém, outra grande escola secundária jesuíta, em Havana, onde se formou antes de estudar Direito na Universidade de Havana.

Mais tarde, em uma de suas raras entrevistas, Castro disse ao teólogo brasileiro Frei Betto que os jesuítas tinham ensinado a escalar as montanhas nas excursões escolares — lições que usou para atingir as forças de Fulgencio Batista.

Apesar de rejeitar toda a educação cristã, nacionalizando escolas católicas e outras escolas particulares e exilando 3.500 padres e freiras logo depois de ocupar o poder, Castro mais tarde deu crédito aos jesuítas por terem o influenciado com sua organização, disciplina e valores rígidos. "Eles contribuíram para meu desenvolvimento, eles influenciaram meu senso de justiça", escreveu em My Early Years.

Castro perdeu tanto as alterações do Concílio Vaticano II como da teologia da libertação, disse Chittister durante uma série de quatro palestras realizada enquanto o navio circulava a ilha. Tinha pouca compreensão do impacto da religião sobre ele ou sobre Cuba, acrescentou, apontando para a perseguição aos seguidores da religião afro-cubana de Santeria. Mas como a cultura, a arte, a literatura e a religião afro-cubanas são fundamentais para a identidade da ilha, é difícil - se não impossível - extingui-las, observou.

Foi preciso remover o requisito do ateísmo da constituição de Cuba em 1991, alterando-a para proclamar o país secular, em vez de ateu. Em uma palestra de 1998, Castro comparou o ensinamento de Jesus à sua própria ideologia revolucionária.

Chittister questionava se essa nova "abertura" à religião era realmente por ganhos políticos, constatando a assistência econômica que advinha de igrejas dos EUA. Uma enorme multidão apareceu para a visita do Papa João Paulo II a Cuba em 1998, e 1,1 milhão assistiu à missa do Papa Bento XVI em 2012. Ninguém que visita a Praça da Revolução sai sem ouvir sobre esses eventos, que modificaram a nação.

Chittister destacou a abertura de um seminário católico em Havana em 2010, o primeiro desde 1959. O presidente Raúl Castro compareceu ao evento, juntamente com o arcebispo de Havana Jaime Ortega e o arcebispo de Miami Thomas Wenski. Ela chamou os três de "a nova trindade da unidade em Cuba".

Outro sinal de melhoria nas relações de Havana com a Igreja é o trabalho de ajuda humanitária realizado pela Caritas, a organização de ajuda humanitária global da Igreja. O presidente Raúl Castro declarou a Sexta-feira Santa feriado nacional, e o Papa Francisco tornou-se seu aliado no pedido a Washington para suspender o embargo comercial de 57 anos. Acima de tudo, apontou Chittister, o Vaticano nunca rompeu relações com Havana, mantendo contato com ambos os governantes Castro. "Isso significa muito”, disse ela.

Durante a visita do grupo da Educational Opportunities, inaugurou uma nova igreja em Sandino, Cuba, a primeira em 60 anos, financiada por uma paróquia de Tampa, na Flórida. A Igreja Católica também está oferecendo aulas de liderança, oferecendo uma estrutura moral para várias das cerca de meio milhão de start-ups que constituem um quarto da economia cubana e um terço de sua força de trabalho.

Seriam todos esses esforços prova de que o papel da Igreja está bem mais importante no futuro de Cuba depois do processo de aquecimento das relações entre Havana e Washington iniciado por Obama e Francisco? Como os latinos gostam de dizer, abertos às surpresas que possam chegar: "tudo é possível; nada é certo".

Outro antigo Buick passa rapidamente, com turistas felizes, os que estão nas calçadas perguntam-se o que o futuro trará para o povo lutador dessa bela nação, sem dinheiro e carente de tantos bens que os estadunidenses nem se apercebem.

Um segundo conversível estaciona — esse pintado de branco com todas as marcas pretas de um dálmata trabalhadas na carroceria. Um turista escala lá dentro, esperando que o país — assim como o carro — possa ser restaurado e o motor do Estado continue roncando no pavimento esburacado adiante.

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