Do palácio à tenda, o cristianismo a caminho no papado de Francisco. Artigo de Andrea Riccardi

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20 Fevereiro 2018

O cristianismo no tempo do Papa Francisco” [Il cristianesimo al tempo di Papa Francesco] (Ed. Laterza, 392 páginas) será publicado na Itália no dia 22 de fevereiro, às vésperas do quinto aniversário da eleição de Bergoglio ao sólio pontifício.

O livro é organizado pelo historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano. O Corriere della Sera, 18-02-2018, publicou um trecho do prefácio escrito por ele. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Talvez não foram totalmente captados os contornos da figura do Papa Francisco. Não foram captadas as dinâmicas do seu pontificado, embora abundem os textos biográficos sobre sua pessoa e muitos de seus escritos sejam publicados.

Quem é o Papa Francisco? Ainda não é fácil dizer. Como é óbvio para um contemporâneo na plenitude de sua ação. Mas há um segredo nele, mesmo sendo uma personalidade cordial e acessível. É o segredo de uma história que está longe de estar concluída, mas também de um personagem original de dimensões complexas.

Sua personalidade é muito conhecida e explorada, mas conserva aspectos de discrição. O segredo não diz respeito apenas às surpresas que ele irá reservar no futuro com suas decisões, mas também às metas para onde ele está conduzindo a Igreja Católica, qual papel ele poderá desempenhar entre os cristãos e as religiões, qual obra internacional poderá realizar. (...)

Francisco não tem um modelo único de governo ou de pastoral, nem busca uma forma perfeita de Igreja. Várias vezes ele reiterou que seu modelo de figura geométrica é o poliedro, e não a esfera.

Esse texto sobre o cristianismo, no tempo do Papa Bergoglio, quer ser justamente um livro “poliédrico”, com abordagens diferentes à realidade cristã da segunda década do século XXI, mas também ao papa e ao seu governo. (...)

A Igreja é uma realidade complexa, que vem de uma grande história, da qual ela mesma vive. Ela também se defronta e se confronta com religiões (de inspiração cristã ou não cristã) que realizaram operações de profunda deculturação, reconectando-se apenas aos textos fundadores, pulando muita história com operações de significativos sucessos de consenso. Essas “novas religiões” pressionam as Igrejas históricas, como o catolicismo, representando um verdadeiro desafio nas mecânicas de um mundo global feito todo de mercado.

Francisco, à frente de uma antiquíssima instituição histórico-religiosa, soube dar à sua presença e à sua mensagem uma nota de simplicidade comunicativa, em um tempo em que as “religiões da emoção”, todas deculturadas e muito no mercado, parecem levar a melhor em comparação com as Igrejas históricas.

Entender o Papa Francisco significa compreender também como mudou a dimensão religiosa dos nossos contemporâneos, que habitam em um mundo global. No entanto, a dimensão histórica continua sendo decisiva, não só para entender o catolicismo, mas também para considerar na luz certa as escolhas de um papa.

Jorge Bergoglio, arcebispo argentino no limiar da aposentadoria e ex-candidato (derrotado) no conclave de 2005 em que Bento XVI foi eleito, foi escolhido não para implementar um programa detalhado (exceto a reforma da Cúria vaticana), mas sim para fazer com que a Igreja saísse do impasse em que se encontrava.

O papa respondeu a essa expectativa com sua iniciativa, que acabou sendo inesperado para vários de seus eleitores ou pareceu perturbadora para uma parte dos católicos.

Agostino Giovagnoli representou justamente assim o movimento inaugurado por Bergoglio (que não é um projeto de reforma do tipo do de Paulo VI): a Igreja “tornou-se cada vez menos semelhante a um palácio esplêndido (...) e cada vez mais inclinada a se assemelhar a uma tenda plantada no meio dos povos, que se move seguindo seu caminho”. Em suma, “do palácio à tenda”: esse parece ser o itinerário do catolicismo bergogliano.

Como reagiram os vários segmentos da Igreja? É uma pergunta cuja resposta é tão importante quanto difícil. Qual foi o impacto na vida cotidiana dos católicos, com todas as diversas gradações de relação com a Igreja? E como reagiram as outras Igrejas cristãs e os mundos religiosos? Qual o impacto no cenário internacional?

Responder a essas perguntas leva a reconstruir muitos atores, sujeitos e segmentos que se cruzaram com o pontificado de Bergoglio, que vêm de longe, mas também vão longe com uma dinâmica própria.

O “poliedro” também quer sugerir o método plural para responder às muitas perguntas em aberto e reconstruir o pontificado de Francisco e o cristianismo do seu tempo. Esse método plural ajuda a conhecer mais o mundo da globalização, a tentar reconstruir uma história global, tão necessária e difícil de escrever.

Além disso, o Papa Francisco já é uma figura que se impôs ao seu tempo, até mesmo fora dos confins da Igreja Católica, como um líder particular entre os líderes do mundo.

Não se trata somente do perímetro dos grandes líderes do Ocidente ou dos países históricos que têm uma relação com a Igreja de Roma. Com suas visitas a vários Estados “periféricos” e não católicos, Bergoglio tornou-se um interlocutor relevante para povos e governos fora do círculo tradicional do catolicismo.

Talvez se possa dizer que, pelas suas escolhas, mas também pelas dinâmicas da realidade contemporânea, ele é o primeiro “papa global”. A sua história está longe de se concluir. Porém, restar saber se os anos do Papa Francisco não levarão a uma configuração nova da antiga Igreja Católica. Isso também faz parte do segredo do Papa Bergoglio.

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