Amando os Amish: “Porque o Liberalismo faliu”

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15 Fevereiro 2018

Patrick Deneen é um cientista político da Universidade de Notre Dame adepto de uma forma de conservadorismo que está em guerra com a modernidade em todas as suas formas. Só para ficar claro o que isso significa, o conservadorismo de Deneen tem pouco em comum com as versões adotadas pelo Partido Republicano atual, como, suponho, o de Trump. Para Dennen, muito do conservadorismo atual — não apenas o interesse de Paul Ryan por Ayn Rand, mas também os anseios de "grandeza americana" de William Kristol e David Brooks — é uma determinada forma de liberalismo. Infelizmente, Deneen nunca diz o significado do conservadorismo genuíno, embora haja dicas que vão desde concepções de direito natural do século XII até escritos agrários do contemporâneo neo-Rousseauiano Wendell Berry. Teria sido útil a este leitor se Deneen tivesse falado mais explicitamente sobre o conservadorismo contra o qual o liberalismo foi reação.

A resenha do livro “Why Liberalism Failed”, de Patrick J. Deenen é de Alan Wolfe, cientista político e sociólogo e atua no Boston College, diretor do Boisi Center for Religion and American Public Life, publicada por Commonweal, 12-02-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Why Liberalism Failed
Patrick J. Deneen
Yale University Press, US $30, 248 pp.

Apesar desta negligência conceitual, fiquei surpreso pelo número de aspectos em que Deneen e eu concordamos. Ele afirma, contra tanto libertários como defensores do Estado de bem-estar social, que o "liberalismo clássico" dos livres mercados encontra-se ao longo do mesmo caminho do liberalismo "moderno" de participação ativa do governo. Isso vai ao encontro do meu posicionamento de que Adam Smith e John Maynard Keynes pertencem ao mesmo campo político. Ambos consideramos que John Stuart Mill é liberal por excelência.

Deneen argumenta, novamente de forma acertada, acredito, que as artes liberais na maioria das faculdades e universidades têm seguido seu caminho e que poucos estudantes contemporâneos foram ensinados sobre as glórias das humanidades. O liberalismo, na sua opinião, prioriza a cultura sobre a natureza. Eu concordo. O objetivo do liberalismo é libertar os seres humanos das restrições artificiais que os impedem de realizar seu pleno potencial. Também concordo com isso.

Ao colocar seu ponto de vista, Deneen tem uma vantagem: sem qualquer amarra que lembre o cuidado acadêmico, ele escreve no estilo panfletário do século XVIII, fazendo declarações dramáticas na esperança que sua prosa eloquente resolva a questão. Mesmo em relação a esta abordagem retórica, não somos tão diferentes.

Também tento escrever em um estilo que seja apropriado não apenas para acadêmicos, e sei que isso é um tanto polêmico. Lendo Deneen, me envolvi completamente, e gostaria que mais livros como este saíssem dos escritórios de editoras universitárias.

A única grande diferença entre nós, infelizmente uma diferença muito significativa, é que para Deneen o liberalismo é um dos grandes horrores da história mundial. Seu fracasso é tanto que em breve deve perder (se ainda não perdeu) todos os seus adeptos, gerando um desastre após o outro. Eu acredito que o liberalismo, apesar do nativismo de direita que atualmente está na moda em uma democracia liberal após a outra, ainda tem muito a alcançar antes de seguir o seu rumo, e não há nenhuma filosofia política alternativa capaz de rivalizar com seu poder de permanência.

Além disso, Why Liberalism Failed também tem sua parcela de problemas. Para um fenômeno que se alega ser tão destrutivo, não sei precisamente o que Deneen quer dizer por liberalismo. Às vezes, refere-se às ideias de grandes pensadores liberais. Tudo bem, mas as ideias dos pensadores têm apenas uma relação tangencial, na melhor das hipóteses, com o que os ‘decisores’ fazem em seu nome. Por si só, os liberais não causaram tanto estrago, e eu não acredito, embora Deneen defenda o oposto, que o divórcio é comum porque John Locke argumentou que o casamento é uma forma de contrato ou que "a nossa condição padrão é de sem-teto", porque os liberais imaginaram um estado de natureza. Só consigo pensar em duas exceções, dois liberais que impactaram diretamente a história. Um é Keynes, que Deneen ignora. O outro é John Dewey e seus escritos em pedagogia e, apesar de Deneen discutir suas ideias, presta pouca ou nenhuma atenção para seus pontos de vista sobre a educação.

Ao contrário dos liberais, Deneen é fã dos escritores que condenam o tipo de vida da maioria de nós, pessoas modernas. O raciocínio de Deneen funciona da seguinte maneira: o liberalismo em teoria venera a ciência, a tecnologia e o lucro; em busca de todos os três, as empresas químicas desenvolveram novas formas de cultivo; o uso de tais tecnologias artificiais destruiu tanto a própria lavoura como todo o ambiente da agricultura familiar e holística que já os acompanhou; e, se não pararmos em breve, todos os seres humanos serão organismos geneticamente modificados no futuro. Assim, há uma ligação direta entre escritores liberais dos séculos XVIII e XIX e a clonagem de seres humanos.

Esta linha de raciocínio não é convincente, pelo menos para mim. O liberalismo é realmente compatível com a ciência e a tecnologia. Todo o resto é problemático: o liberalismo geralmente tem alguma simpatia pelo livre mercado, mas não ao monopólio, como as empresas químicas que regulam o mercado; alguns liberais podem defender as culturas geneticamente modificadas, mas quase todos as abominam; pode-se encontrar a mesma quantidade de liberais e conservadores ativos em nome das comunidades locais, se não mais liberais; e ir da manipulação da lavoura à manipulação de DNA é um passo gigantesco que grande parte dos liberais jamais daria.

O argumento de Deneen de que o que matou o liberalismo foi, de tudo, o próprio liberalismo só confunde ainda mais. Se isso soa vagamente hegeliano, é porque é. Assim como o aluno de Hegel, Karl Marx, Deneen acredita na dialética. Mas ao contrário de Marx, que considerava o capitalismo um prelúdio para denunciar isso, ele só denuncia o liberalismo sem nunca elogiá-lo. Devo qualificar essa afirmação. Depois de contar uma história de horror atrás da outra, ele escreve no final do livro que, "como todos os projetos humanos, o liberalismo também tem realizações".

A abolição da escravatura, além do avanço das mulheres, são bem longe de comuns.

Apesar da crítica velada — elogiando o liberalismo no negativo — fiquei feliz, finalmente, de ver esta concessão. Fiquei me perguntando o que seriam essas "conquistas": a abolição da escravatura, os direitos das mulheres, maior regulamentação do capitalismo irresponsável? Os princípios liberais, afinal de contas, nos levaram à linguagem da declaração da independência, sobre a qual basearam-se os argumentos de Lincoln contra a escravidão. O liberalismo fracassou porque o presidente Andrew Johnson, possivelmente liberal na ampla conceituação de Deneen, ficou contra os ideais de Lincoln de dar aos antigos proprietários de escravos do sul o que eles queriam? Não faz sentido, porque o liberalismo não pode ser pró-abolição e pró-escravidão ao mesmo tempo. A abolição da escravatura, além do avanço das mulheres, são bem longe de comuns. Na história da humanidade em geral, o liberalismo, na verdade, é responsável por um milagre político atrás do outro.

Em vez de expressar admiração genuína à realização liberal como Marx elogiou o capitalismo, Deneen retorna ao conservadorismo habitual. O liberalismo, argumenta, em vez de contribuir para grandes conquistas liberais, seguiu firme o seu caminho. Mas não faz sentido. Embora tenha mudado de opinião ao longo da vida, nosso maior pensador conservador, John C. Calhoun não tinha qualquer resquício de liberalismo; a escravidão era simplesmente muito importante para ele defender qualquer ideia que pudesse levar a sua abolição. (Calhoun não aparece no livro do Deneen.) Quem, com exceção de Roy Moore e Joe Arpaio, duvidaria que nosso país melhorou porque as ideias de Lincoln venceram em relação às de Calhoun?

Vivemos em um momento em que o populismo e o nacionalismo estão atacando o liberalismo com vigor renovado. Nessas condições, existem muitas críticas ao liberalismo.

Será que Deneen ficaria feliz de ver seu livro sendo abraçado por quasi-fascistas da extrema-direita ou populistas como Sanders da extrema-esquerda? Espero que não. Mas não vejo este livro tomando qualquer caminho que permita sérios pensadores políticos a encontrarem problemas com Marine Le Pen, Geert Wilders ou, devemos acrescentar, Donald Trump. Algo me diz que se Trump decidisse ler um livro (ideia sobre a qual não precisamos nos preocupar), talvez ele gostasse deste.

A tomada do Partido Republicano por Trump e seus defensores deu destaque público a todo um grupo de conservadores anti-Trump, como Jennifer Rubin, Bret Stephens e Michael Gerson, e eles estão escrevendo os melhores comentários políticos que se vê hoje. Espero que, quando os ânimos se acalmarem, se é que esse dia vai chegar, um deles fique tentado a explicar o caminho que os levou a denunciar a imoralidade demagógica da extrema-direita enquanto conservadores.

De forma similar, será preciso um caso passional em nome da mistura entre religião e política, porque o que se tem como o caso evangélico, se é que isso existe, é cheio de lacunas. Enquanto o Partido Republicano continua deixando a moralidade ir ralo abaixo, o campo permanece aberto para que um conservador nos diga qual o próximo passo para tornar a nossa sociedade um pouquinho mais ética. Na era Trump, sabemos o que é liberalismo, mas não fazemos ideia do que é - ou será - o conservadorismo.

O conservadorismo de Deneen nunca pode servir a um propósito tão crucial. Ele rejeita a política como um todo, e não apenas a política liberal. Sua arcádia de uma economia de pequenos produtores tem mais em comum com Woodstock do que Washington. Para ele, tudo está indo ladeira abaixo e tudo é ruim. Ele ama os Amish, mesmo não entendendo bem. Fico feliz que haja tão poucos.

A última vez que escrevi algo com tanta raiva quanto Why Liberalism Failed foi quando eu era um esquerdista radical em oposição à guerra do Vietnã e estava ouvindo a sátira clássica de Phil Och, “Love Me, I’m a Liberal”. Felizmente, superei essa fase e virei um democrata razoavelmente mainstream em meu pensamento político. É inquietante, confesso, ouvir uma defesa tão contracultural vinda da direita. Se a direita estadunidense quiser copiar todas as falhas da Nova Esquerda, acho que a república vai sobreviver. Mas certamente seria bom ter um conservadorismo que leva a realidade a sério.

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