Os mistérios do legado inca

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15 Fevereiro 2018

Os incas tinham um domínio da natureza sem paralelo, um conhecimento fantástico em hidráulica, agricultura (cultivavam 100 variedades de milho e batatas), pedra e arquitetura (com a impressionante Machu Picchu à cabeça). Cultivavam uma relação quase perfeita com os Andes, a partir de uma virtuosa facilidade para transitar e sobreviver na altura. Foram grandes matemáticos e astrônomos. Mesclavam saberes empíricos com fortes doses de religiosidade, baseados no princípio de reciprocidade e nos sacrifícios.

“A forma como estruturaram sua sociedade e conseguiram governar um território tão extenso é digna de admiração. Seu legado é único, sem ir muito longe, palavras como cancha e locro são de origem quéchua”, descreve o pesquisador adjunto do CONICET, Marco Antonio Giovannetti, doutor em Ciências Naturais e licenciado em Antropologia (pela Universidade Nacional de La Plata), e especialista no estudo arqueológico da Shincal de Quimivil (Catamarca), a capital mais ao sul do império inca. Sua proposta é suspender a visão ocidental, revisar a história a partir de uma perspectiva andina e “desenterrar o passado para interpretar o presente”.

A entrevista é de Pablo Esteban, publicada por Página/12, 14-02-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Que particularidades o império inca possuía em relação a outros como o romano?

A noção de império implica o emprego de uma categoria que engloba sociedades bem distintas. Não é o mesmo estudar Roma, que conta com uma grande quantidade de dados disponíveis graças aos escritos que sobreviveram, que pesquisar aos incas que não possuíam um registro da forma como nós o conhecemos. Roma tinha um poder militarista incrível, contava com estrategistas brilhantes e um ordenamento hierárquico muito preciso, ao passo que as sociedades andinas eram diferentes.

Em que sentido?

Os incas contavam com um exército não profissionalizado, exceto alguns poucos indivíduos que atuavam como generais responsáveis por conduzir os exércitos - e se encontravam muito próximos da figura de seu máximo governante, O Inca -. Os soldados, por sua parte, eram camponeses que cumpriam um turno - “mita” - como tributo ao estado. Então, dividiam suas obrigações entre a milícia e o campo.

Em seu apogeu, o império era formado por quase 30 milhões de pessoas...

Em suas origens, os incas representavam um pequeno grupo que em 1000 d. C. estava instalado no vale de Cusco. A partir desse momento, cresceram de uma maneira fantástica, em uma velocidade assombrosa, em parte por conquistas guerreiras de outras populações originárias e também por suas capacidades de negociação. As alianças através de pactos e casamentos entre líderes grupais permitiram a emergência de governantes incas que se expandiam para diferentes áreas. Em apenas 300 anos, conquistaram uma expansão que nenhum outro povo andino havia conseguido. Esse espaço que ocuparam recebeu o nome de Tahuantinsuyo, dividido em quatro grandes regiões.

Tahuantinsuyo abarcava do sul da Colômbia a Mendoza e cruzava a cordilheira ao Chile. Como se organizava um território desta grandeza?

Existiam centros político-administrativos e lugares menores chamados tambos, conectados pelo Caminho do Inca, com seu eixo em Cusco. O Inca era o maior governante; depois, havia pessoas encarregadas de dirigir cada uma das quatro regiões; depois havia governadores; e, por último, os curacas (caciques) de cada uma das comunidades conquistadas. O quéchua era o idioma de Cusco, mas não o de todo o império, já que os incas respeitavam os costumes dos povos que anexavam (a não ser que estes se rebelassem, é claro). Haviam punições e leis que eram registradas nos quipus (sistema de fios e cordas).

Como era o dia normal de um camponês?

Os runas (assim eram chamados os habitantes sem hierarquia) podiam começar o dia se dedicando ao cultivo de milho, depois à colheita e por último ao armazenamento. O mais surpreendente é que as crônicas espanholas relatam que enquanto realizavam seus deveres, divertiam-se com música, dançavam e tomavam chicha (bebida fermentada a base de milho). O trabalho era oferecido ao estado e se dividia em turnos. Como contrapartida, o governo se comprometia a lhes dar de comer e beber, e assegurava os elementos de trabalho. Algo similar ocorria com os artesãos de cerâmicas, os lavradores e os construtores de edifícios.

O que há de religião? Muitos autores afirmam que os incas formavam um estado teocrático.

Eu preferiria dizer que se trata de um estado que carregava sobre a espiritualidade múltiplos fatores sociais. Inclusive, é interessante ver como as sociedades andinas atuais agem em relação aos ritos de aproximação à Pachamama (Mãe Terra). Na cosmovisão inca, a natureza é um ser vivo, tem consciência, memória e poder de ação sobre os humanos. Os rios, as pedras, as árvores e os animais são waka, ou seja, podem chegar a se tornar seres sagrados e modificar a realidade. Por isso, quando os incas queriam anexar um novo lugar a seu império negociavam com os chefes, mas também com os wakas, porque consideravam que protegiam aqueles lugares. Seus conhecimentos astronômicos acerca dos movimentos solares e dos corpos celestes não podiam se separar de sua concepção acerca do Inti, nome com o qual identificavam o sol, a deidade mais significativa do império.

Por este motivo são comuns os sacrifícios de altura?

Os incas acreditavam que a natureza era muita poderosa, entregavam-lhe oferendas de privilégio. Muitas vezes, os sacrificados eram os filhos dos governantes e de indivíduos com cargos hierárquicos. No Museu de Arqueologia de Alta Montanha (Salta) é possível observar as crianças mumificadas. Foram localizadas em 1999. Acredita-se que vinham peregrinando durante meses, do Peru, e morreram congelados após ser drogadas e embriagadas nas alturas. Aqueles que morriam nestas circunstâncias se tornavam deidades.

Suas mortes eram consideradas oferendas. Como eram suas festividades?

Segundo as crônicas dos espanhóis, é possível advertir que os incas celebravam (ao menos) uma festa por mês. Estes eventos serviam de exemplo para compreender a reciprocidade da população em relação ao estado, já que aquilo que era obtido pelo trabalho dos runas era devolvido em construção de infraestrutura (caminho do inca, terreiros agrícolas em canais de irrigação), mas sobretudo no financiamento das celebrações. No Shincal, um dos últimos centros cerimoniais do sul, há uma praça de 175 metros ao lado que se enchia de gente e a chicha corria abundantemente durante uma semana inteira. Enquanto isso, nas adjacências, as mulheres utilizavam trituradores e produziam quantidades enormes de milho. Com este gesto, os governantes devolviam a generosidade do trabalho oferecido pelos camponeses e outros trabalhadores.

E o que encontraram em Shincal? Suas pesquisas se concentram ali.

Restos de vasos que poderiam indicar o trabalho simultâneo de umas 180 mulheres, uma verdadeira indústria. Por evidências cerâmicas, a partir da análise de ativação neutrónica (realizado no Centro Atómico de Ezeiza) também pudemos verificar que as pessoas se aproximavam a partir do Chile, Santiago del Estero, La Rioja e Humahuaca. Penso que deveríamos imitar a capacidade festiva das sociedades andinas, já que só reservamos estes momentos de encontro para datas como Natal e Ano Novo. A diferença de outros lugares que já existiam previamente ao império, foi construída exclusivamente pelos incas. Foi planejada como uma cartografia cosmológica, pois a praça ficava localizada no centro de quatro colinas de baixa altura (25-30 metros), distribuídas nos quatro pontos cardeais. Esta disposição, que para nós poderia ter um sentido geográfico, para os incas era sagrada (mesmo nas celebrações andinas atuais se saúda aos “espíritos das quatro direções”). Como o espaço estava vivo, as referências eram importantes. As colinas foram modificadas pelos incas com degraus, linhas marcadoras ‘calendáricas’, tumbas que ainda não escavamos e lugares de xamanismo. No meio da praça ficava localizada a plataforma cerimonial mais importante, o Ushnu, com uma geometria que correspondia à cartografia de suas cosmovisões, como se a terra fosse uma maquete do que ocorria no céu. O inframundo, o mundo no qual viviam as pessoas e o mundo de cima estavam amplamente conectados.

Você faz divulgação. Por que comunicar a arqueologia?

Escrevi fascículos cuja coleção é intitulada Lugares arqueológicos argentinos com uma linguagem simples para compartilhar os resultados do trabalho profissional de uma maneira mais suave. O objetivo é mostrar que a arqueologia não é um hobby, mas, ao contrário, implica um compromisso social. Na medida em que recuperamos o passado e memória, criticamos essa corrente contemporânea que só valoriza o presente e o futuro. Nosso corpo é composto de milhares de experiências, ao passo que a memória está em constante atualização, já que legitima os projetos políticos atuais que transformam nossas realidades a todo tempo. Temos que desenterrar esse passado para poder projetá-lo.

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