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02 Fevereiro 2018

“O que mais preocupa é que, com a renda per capita estagnada, os conflitos distributivos acirrados e a base da pirâmide sub-representada nas esferas de poder, é difícil imaginar um cenário em que a desigualdade não continue aumentando na próxima década”, escreve Laura Carvalho, professora do Departamento de Economia da FEA-USP, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 01-02-2018.

Eis o artigo.

Os números divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (31) indicaram que a taxa média de desemprego passou de 11,5% em 2016 para 12,7% em 2017, a maior da série histórica iniciada em 2012.

Os números mostraram ainda que a queda na taxa de desemprego no último trimestre de 2017 —de 12,4% para 11,8%%— deveu-se sobretudo à criação de vagas informais no mercado de trabalho, confirmando tendência anterior.

Temos agora um retrato claro das consequências profundas da crise de 2015-2017 para o mercado de trabalho brasileiro. E, no que tange às desigualdades de renda, o saldo não poderia ser pior.

Como se sabe, os anos 2000 foram marcados por um forte dinamismo no mercado de trabalho, com geração de empregos formais no setor de construção e em diversos setores de serviços, tais como alimentação fora de casa e serviços pessoais e de beleza.

Embora houvesse limites diversos para a sua continuidade, esse processo foi o que permitiu combinar crescimento econômico maior com redução de desigualdades na base da pirâmide, pois tais setores concentram um percentual maior de trabalhadores não qualificados, que obtiveram ganhos salariais maiores do que a média.

Como o rendimento entre os 10% mais ricos também cresceu de forma acelerada, essas mudanças chegaram a ser apelidadas pelo pesquisador Marc Morgan de "squeezed middle", ou "o meio achatado", já que resultou em uma perda de participação dos trabalhadores do meio da pirâmide distributiva.

Nos últimos três anos a base da pirâmide foi a principal derrotada. O número de desocupados cresceu de 6,7 milhões para 13,2 milhões de pessoas entre o fim de 2014 e o fim de 2017, o que representa um crescimento acumulado de 96,2%.

Tal queda é explicada sobretudo pela redução de 36,6 milhões para 33,3 milhões no número de empregados no setor privado com carteira assinada.

Já o número de empregados sem carteira assinada, trabalhadores domésticos e trabalhadores por conta própria cresceu 3,2%, 3,4% e 6,5%, respectivamente, nos últimos três anos.

Quando se busca estimar o impacto sobre a desigualdade, esses números já seriam alarmantes por si só, pois os rendimentos médios recebidos por esses trabalhadores são muito inferiores aos dos demais.

Segundo os dados de 2017, se comparados aos dos trabalhadores do setor privado com carteira assinada, os rendimentos reais são 40% menores entre trabalhadores sem carteira assinada; 58,6% menores entre trabalhadores domésticos e 24,1% menores entre os que trabalham por conta própria.

Mas, além disso, vê-se que a maior perda de empregos formais na crise deu-se em setores que concentram uma mão de obra de remuneração mais baixa.

Na construção, em particular, a perda de empregos chegou a 12,3% nos últimos três anos. A consequência foi uma queda real acumulada de 5,1% nos rendimentos médios do setor, que por sua vez já são 12,3% inferiores aos rendimentos médios da população ocupada.

Também houve queda real de salários nos setores de alojamento e alimentação (-11,4%) e outros serviços (-6,1%), cujos rendimentos médios são ainda menores: 27,3% e 17,2% inferiores à média dos ocupados, respectivamente.

O que mais preocupa é que, com a renda per capita estagnada, os conflitos distributivos acirrados e a base da pirâmide sub-representada nas esferas de poder, é difícil imaginar um cenário em que a desigualdade não continue aumentando na próxima década.

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