Clonagem: a ciência não para. Mas é preciso transparência. Artigo de Elena Cattaneo

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29 Janeiro 2018

“Na ciência, ‘ética’ não é moratória do conhecimento, mas sim transparência do método, visibilidade dos resultados e controle generalizado, no interesse de todos. Hoje, com o fortalecimento de comunidades científicas antes ausentes, devemos estar prontos para trabalhar de modo cada vez mais integrado, criando pontes também entre culturas muito diferentes.”

A opinião é da neurobiologista Elena Cattaneo, professora da Universidade Estatal de Milão e senadora vitalícia da Itália. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 24-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os resultados publicados na revista Cell pelos pesquisadores de Xangai têm implicações muito técnicas: por enquanto, é difícil avaliar seu alcance e interesse científico. A ideia de que modelos animais totalmente iguais entre si, portanto clonados, sejam uma vantagem para a pesquisa é muito interessante, mas, ao mesmo tempo, tem a desvantagem de excluir a variabilidade genética de cada um.

Resta a evidência permanece de uma técnica que, partindo da ovelha Dolly, foi testada com sucesso em animais de pequeno e grande porte, dos ratos aos touros, e hoje, com o macaco, encontra mais uma confirmação experimental de praticabilidade. Em suma, a clonagem existe e pode ser replicada.

Alguns podem se perguntar: qual era a necessidade de provar que é possível clonar macacos? Na realidade, do ponto de vista da ciência, interrogar-se sobre a necessidade ou sobre a utilidade prática de uma nova conquista tecnológica, de um novo avanço cognitivo, é uma pergunta malfeita: efeitos e utilidade de uma pesquisa muitas vezes são esclarecidos a posteriori.

Além disso, em 2005, quando os pesquisadores descreveram uma das bactérias do iogurte, era inimaginável que aquilo que observaram, dez anos depois, se tornaria o mais poderoso instrumento de modificação do DNA, o CRISPR-CAS9.

Sobre a utilidade e a eticidade de uma pesquisa científica construída sobre bases metodológicas e técnicas sólidas, estão envolvidos, em vários níveis de responsabilidade, quem faz a pesquisa, quem a avalia e o comitê de ética que supervisiona a sua adequação. Quanto menos claro for o fim ou quanto maior for a delicadeza das pesquisas, mais necessário é ser “accountable” [responsável].

Depois, há a responsabilidade de toda a comunidade científica em ser a primeira controladora e o máximo intérprete da capacidade de dar conta do trabalho dos pesquisadores mesmo diante de um público não especialista, muitas vezes assustado com descobertas que não entende: se as explicações não vierem da ciência, chegarão de outros, prontos para deturpar, jogando sobre medos ou sensacionalismos ou, pior, sem escrúpulos de curvar os fatos à ideologia.

Na ciência, não existe o princípio de autoridade, mas é o método que determina (publicamente) a validade ou não do que é feito. Esse procedimento garante que, na construção da confiança, todos os atores sejam postos em discussão.

Uma experiência muito positiva, nesse sentido, foi – para os grupos que trabalham no mundo com células-tronco embrionárias e reprogramadas para o Parkinson – o “G-Force PD”, no qual cinco equipes de cientistas europeus, estadunidenses e japoneses que trabalham nos mais altos níveis sobre os mesmos objetivos, embora permanecendo em concorrência entre si, compartilham informações sobre suas pesquisa e pontos intermediários de verificação, para definir uma direção para avançar nas experimentações clínicas, assegurando que esta seja compatível com os comitês de ética dos países onde atuam.

Esse tipo de acordo mundial se baseia na voluntariedade. Não se pode pretender impô-lo por lei, mas é possível pensar em incentivá-lo, assim como a União Europeia faz no campo da pesquisa, aliás.

A ciência segue em frente. Não parar nunca, mas buscar sempre novas metas está implícito no seu método, e ilude-se quem pensa que ainda é possível impedir a pesquisa nas fronteiras nacionais ou impor moratórias que, além disso, especialmente em países em que o Estado de direito e a democracia são frágeis, senão ausentes, correm o risco, como todos os proibicionismos, de deixar o campo livre para “corsários das regras”, prontos para fugir de todos os controles.

Na ciência, “ética” não é moratória do conhecimento, mas sim transparência do método, visibilidade dos resultados e controle generalizado, no interesse de todos. Hoje, com o fortalecimento de comunidades científicas antes ausentes, devemos estar prontos para trabalhar de modo cada vez mais integrado, criando pontes também entre culturas muito diferentes.

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