As mensagens papais escanteadas pelo caso Barros

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26 Janeiro 2018

A admissão de ter errado ao responder à pergunta de uma repórter de rádio sobre o caso Barros, primeiro mea culpa explícito e público de um papa que reconhece um erro próprio (e não o cometido pelos antecessores em um passado distante), compreensivelmente chamou a atenção da mídia no fim da viagem de Francisco ao Chile e ao Peru. Acabando por desviar a atenção, porém, das mensagens que o papa quis levar aos dois países visitados em uma turnê de 30 mil quilômetros com 10 voos em sete dias.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 25-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A entrevista no avião, na volta de Lima, foi dedicada principalmente aos casos de abusos contra menores no Chile e no Peru. Bergoglio, embora admitindo que se expressou ao pedir “provas” às vítimas de abuso, reiterou sua convicção: contra o bispo de Osorno, Juan Barros Madrid, um dos filhos espirituais, além de secretário particular do abusador em série e padre Fernando Karadima, não há “evidências” que permitam condená-lo. Mostrando, portanto, que não considera convincente o testemunho daqueles que afirmam que o futuro bispo Barros teria estado a par dos abusos de Karadima e os teria encoberto. É mais do que provável que o caso não vai terminar aqui.

Observou-se quanto cuidado e quanto trabalho pessoal o papa colocou ao preparar os discursos e as homilias da viagem ao Chile e ao Peru. Mas o que também se verificou, por causa da concentração midiática sobre Barros, foi o precipitado arquivamento de algumas mensagens centrais da viagem de Francisco. Uma viagem eminentemente missionária.

As palavras do papa sobre a corrupção, “forma, muitas vezes sutil, de degradação ambiental que contamina progressivamente todo o tecido vital”, definida como um “vírus social, um fenômeno que infecta tudo, sendo os pobres e a Mãe Terra os mais prejudicados”, pronunciadas no Peru e dramaticamente atuais para a realidade sociopolítica daquele país, diziam respeito, mais em geral, a toda a América do Sul, e não só.

Entre as mensagens rapidamente arquivadas também estão as palavras sobre a Amazônia, tesouro a ser preservado não de acordo com a ideologia ambientalista, segundo a qual o ser humano é o câncer do planeta, mas a partir dos povos autóctones que vivem lá e que têm o direito de ser respeitados e considerados como um recurso insubstituível.

Aqueles povos amazônicos que nunca estiveram “tão ameaçados quanto hoje” pelos grandes interesses econômicos daqueles que querem cortar árvores, perfurar em busca de petróleo, abrir novas rodovias de cimento no coração das florestas: e, justamente no fim da visita do pontífice, o Peru confirmou o traçado da superestrada de duas pistas, de 227 quilômetros de extensão, que cortará o pulmão verde do mundo, unindo Puerto Esperanza, no nordeste do país, e Iñapari, na fronteira com o Estado do Acre, no Brasil, atravessando cinco parques nacionais.

E como não lembrar, por fim, o discurso ao clero e aos religiosos chilenos – um dos textos mais belos do pontificado – no qual Francisco, ao falar aos consagrados, ofereceu intuições úteis para todo cristão: “Nós não estamos aqui porque somos melhores do que outros. Não somos super-heróis que, das alturas, descem para se encontrar com os ‘mortais’. Ao contrário, somos enviados com a consciência de ser homens e mulheres perdoados. E essa é a fonte da nossa alegria”.

E, assim como “Jesus não se apresenta aos seus sem chagas”, assim também os seus são convidados a “não dissimular ou esconder” as suas chagas. “Uma Igreja com chagas é capaz de compreender as chagas do mundo de hoje e torná-las suas, sofrê-las, acompanhá-las e buscar curá-las. Uma Igreja com chagas não se coloca no centro, não se crê perfeita, mas põe ali o único que pode curar as feridas e tem nome: Jesus Cristo.”

A consciência de ter chagas liberta o cristão de se “tornar-se autorreferencial”, de se crer “superior”. Liberta da tendência “prometeica” daqueles que “só confiam em suas próprias forças e se sentem superiores aos outros por cumprirem determinadas normas ou por serem inquebrantavelmente fiéis a um certo estilo católico próprio do passado”.

Palavras que se encaixam perfeitamente para descrever a doença do clericalismo e para compreender a perda de credibilidade aos olhos da opinião pública de uma Igreja – a chilena – que era muito amada e considerada como um baluarte seguro durante os anos da ditadura de Pinochet, graças a pastores como o cardeal Raúl Silva Henríquez.

Palavras que chamam toda a Igreja à conversão e também parecem ser úteis para chamar ao essencial aquelas ânsias “reformadoras” e funcionalistas daqueles que – dentro e fora da Cúria – reduzem a slogans vazios o ensinamento do pontífice, agindo, talvez em seu nome, como “super-heróis”.

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