Na Igreja de Francisco as raízes de 1968. Entrevista com Andrea Grillo

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26 Janeiro 2018

Naquela época de 1968 teve início de uma tentativa de diálogo com a modernidade. "Cinquenta anos depois, ainda estamos no meio de uma confusão”, diz o professor de teologia e filosofia da religião.

movimento de 1968 foi um divisor de águas também para a Igreja Católica, que se sentiu obrigada naquele momento a começar um diálogo nada fácil com a modernidade.

O que resultou da transição que começou naqueles anos? A Igreja deve mudar para sobreviver em um mundo radicalmente diferente daquele de cinquenta anos atrás?  Falamos com Andrea Grillo, professor de teologia dos sacramentos e filosofia da religião junto ao Pontifício Ateneu de Santo Anselmo em Roma e professor de liturgia na Abadia de Santa Giustina em Pádua.

A entrevista é de Matteo Angeli, jornalista responsável pela comunicação da Associação Parlamentar Europeia, publicada por Ytali, 24-01-18. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Professor Grillo, o que representou o movimento de 1968 para a Igreja Católica?

Foi, em primeiro lugar, o ano que se seguiu ao Concílio Vaticano II. Da mesma forma que os anos imediatamente anteriores e posteriores, o ano de 1968 atesta um trabalho complexo, que vê em primeiro plano o início de uma tentativa de diálogo com a modernidade, que a Igreja experimentava de alguma maneira quase profeticamente.

Um início de diálogo com a modernidade nada simples...

É verdade. No Movimento de 1968 também foram registradas episódios de resistência, alguns dos quais centrais para a Igreja. Nesse sentido, o Movimento de 1968 também foi o ano da encíclica Humanae Vitae, que, com seu discurso todo focado em uma geração e em uma sexualidade concebida segundo esquemas pré-modernos, representou - para parte da Igreja - um ponto referência de resistência ao mundo moderno.

Em suma, para a Igreja foi um ano conturbado...

A Igreja viveu o Movimento de 1968 de duas formas: ou como confirmação de sua própria desconfiança ou como uma temporada promissora de abertura, de uma bondade da liberdade humana. De alguma forma, a Igreja Católica estava preparada para o Movimento de 1968 pela Humanae Dignitatis, documento que havia, pela primeira vez, introduzido a liberdade de consciência. Nesse sentido, o Movimento de 1968 pode ser visto como uma afirmação da liberdade.

Mas?

O limite do Movimento de 1968 talvez seja uma ideia de autoridade um pouco forçada, distorcida e isso gerou muita discussão na Igreja Católica e ainda é bastante debatido hoje em dia. Cinquenta anos depois do Movimento de 1968 ainda estamos no meio de uma confusão que começou naquela época.

Cinquenta anos depois do Movimento de 1968, como se orienta a Igreja diante de um mundo onde tudo está se tornando incerto e contingente?

Em 1968 a Igreja, que havia vivenciado a afirmação do mundo moderno como um trauma, começava a entender que nem tudo o que muda é negativo, e nem tudo que é do passado é positivo. Tudo isso dever ser hoje explicitado de forma diferente: o mundo muda em uma velocidade muito maior e é bem mais fácil do que cinquenta anos atrás pensar a fé cristã como uma espécie de rocha imutável, que simplesmente tem que repetir a si mesma. Esta é uma caricatura da Igreja.

Em que sentido?

A Igreja ao longo dos séculos sempre foi capaz não de se adaptar ao mundo, mas de divulgar o Evangelho de forma mais adequada. Essa operação hoje é feita por muitos na Igreja, mas, desde que são pouco menos de cinco anos que o papa também faz isso, tornou-se ainda mais evidente e, para alguns, mais escandalosa.

Mas, então, a Igreja deve ou não deve mudar?

Se dissermos que deve traduzir a doutrina, então não deve mudar, porque a doutrina é sempre a mesma. No entanto, para traduzir a doutrina é preciso a coragem de usar palavras, gestos e linguagens novas para dizer a mesma coisa.

Como Francisco está fazendo...

Francisco é um sinal dos tempos, porque ele tem convicção de que não exista alternativa a uma tradução muito corajosa da doutrina moral, da doutrina familiar, da doutrina do ministério ordenado, do modo de viver a relação eclesial, contra a ideia que o padre deve ser como no século XIX e n Igreja como no século XIX.

Para muitos, o modelo do século XIX é o único modelo possível de catolicismo...

É por isso que a questão de fundo é: aceitamos traduzir o Evangelho para o benefício dos homens e das mulheres ou pensamos, em vez de compreendê-lo, que deva ser lido como se fazia duzentos anos atrás?

Os detratores de Francisco o acusam de ser um "comunista". O que você pensa dessa aproximação do Papa aos valores da esquerda?

Nesse julgamento são usadas categorias ultrapassadas. Se, por um lado, é claro que, em geral, direita e esquerda ainda possuem algum sentido, por outro lado, também é verdade que uma direita aberta sabe que não há alternativa hoje para um mundo de movimento, de migrações, de mudanças de identidade. Pensar em resolver a metamorfose do mundo tardio-moderno com a velha ideia de nação não é nem de direita nem de esquerda, mas simplesmente cego. O Papa expressa simplesmente coisas de bom senso que, evidentemente, busca não simplesmente do bem senso, mas do Evangelho.

Explique melhor...

Reconhecer a dignidade de cada homem e de cada mulher - e isso, deve-se notar, é um valor cristão que se tornou um dos valores da modernidade - não prevê a exclusão a priori de um sujeito só porque não pertence a uma determinada comunidade política. Neste sentido, a ideia de acolhimento é uma grande ideia moderna, que a direita e a esquerda deveriam ter em comum.

E depois, mesmo que o mundo moderno tenha nascido em grande parte contra a Igreja, a ideia de fundo de igualdade, fraternidade e liberdade é uma grande ideia cristã. Isso nós o entendemos com o Concílio Vaticano II.

Então?

O Papa Francisco repete que, em num mundo fortemente tentado a se fechar no plano nacional, econômico e de identidade, a abertura é a lógica do homem e de Deus, contradizendo a qual se geram monstros. Em cada uma de nossas famílias há um migrante, mas, paradoxalmente, esquecemos disso. Politicamente, isso é uma cegueira.

A influência da religião na política esgotou-se com o fim dos partidos de inspiração cristã?

É na lógica das coisas que a influência da religião na política precise de mediações novas e não possa simplesmente confiar no fato de que o bispo ligue para o político da vez para ganhar o respeito da lógica dos crentes.

Hoje, temos que ser lúcidos ao adquirir o valor da laicidade do Estado, que é um valor objetivo. Desse ponto de vista, o verdadeiro problema não é tanto que a fé não tenha qualquer influência sobre a política, mas, sim, que a política responda a lógicas míopes e não consiga se sintonizar com as exigências do bem, da fraternidade, da liberdade e da igualdade, explorando lógicas de fechamento, que no imediato falar mais alto.

Que papel pode ter a fé em tal contexto?

As religiões ajudam a manter em mente a dimensão de uma visão mais ampla, quando não se tornam simplesmente ideologias para apoiar conforme o interesse a afirmação de um valor "seco", que por sua vez lacera. Não é que a política não leva em conta a religião, mas a usa como um slogan temporário, para fazer a guerra ou fazer a paz, a favor ou contra a vida.

O que acontece é que a esquerda e a direita alimentam-se de pequenas ou grandes palavras de Francisco, que retiradas do contexto só podem servir para operações de pequena escala, enquanto Francisco faz discursos de amplo alcance.

Mas Francisco não tem imediatamente uma responsabilidade política...

Sim, e nesse sentido é justo que a política leve em conta também outros elementos. Mas quando se refere à religião não deve se referir a simples afirmações, apesar de importantes, mas sim a uma visão de fundo mais ampla.

Na política, os partidos identificam-se cada vez mais com seus líderes. Está acontecendo o mesmo à igreja com Francisco?

O "fenômeno Bergoglio" é a sequência de muitos outros fenômenos. Não é Bergoglio que inventou a personalização do papado. Isso remonta pelo menos a Pio IX. De Pio IX em diante, de fato, foi feito de tudo para transformar o Papa em protagonista do debate político, que deve lidar com os grandes chefes de estado. Esta é uma resposta da Igreja à modernidade. Uma resposta ambígua, porque o valor do Papa não é o de atrair sobre si a atenção, mas sim refratar a luz para outros lugares.

Francisco, um protagonista inevitável?

Isso também é devido às características de sua mensagem, que, no entanto, se for lida além do slogan, é uma mensagem que insiste continuamente sobre a necessidade de sair da centralização sobre o Papa e sobre o Bispo, recuperando uma subjetividade eclesial comunitária. Nesse sentido, Francisco tem colocado grande ênfase na necessidade de libertar-se da autorreferencialidade e, acima de tudo, da autorreferencialidade papal.

O que significa?

Bergoglio desfruta do fato de ter sobre si toda a atenção, mas também sabe que isso é um dos seus limites. Basta ler Amoris laetitia para entender que a pastoral familiar não é mais feita apenas pelos Bispos, mas também pelos párocos e pelos casais, na especificidade da Igreja assim como distribuída nos cinco continentes.

Esta coisa, tão forte, não era sentida há duzentos anos e é uma grande novidade, na frente da qual alguns se sentem escandalizados, justamente porque contradiz a ideia de "peça ao Papa que o Papa resolve". Esta última é uma ideia "napoleônica" de papado. O papado que resolve tudo a partir do centro é uma figura tardio-moderna da Igreja Católica, que devemos superar.

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