''Jesus não fundou a Igreja para pessoas respeitáveis.'' Entrevista com Timothy Radcliffe

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24 Janeiro 2018

Teólogo, biblista, dominicano, mestre geral da ordem de 1992 a 2001, o padre Timothy Radcliffe vive em Oxford, onde é Doctor in Divinity, o mais alto título para um estudioso de religião.

A reportagem é de Alessia Rastelli, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere dela Sera, 21-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Francisco o nomeou consultor do dicastério pontifício para a Justiça e a Paz. E, da Igreja de Bergoglio, Radcliffe é uma voz de autoridade, corajosa em fazer com que a fé entre na realidade de hoje.

Como no livro que será publicado em maio pela Editrice Missionaria Italiana, Alla radice la libertà. Come interpretare i segni dei tempi [Na raiz da liberdade. Como interpretar os sinais dos tempos].

Eis a entrevista.

Radcliffe, o senhor admite que “a Igreja é percebida muitas vezes como inimiga da liberdade”. É possível ser livre e cristão?

Muitos pensam em Deus como um policial que pede submissão. Mas é uma total distorção da tradição judaico-cristã, centrada no convite de Deus a viver em amizade com Ele e com todos. Todo amigo digno desse nome, porém, é exigente e capaz de nos transformar. Os Dez Mandamentos são oferecidos a Moisés como “amigo de Deus”. E o convite à amizade culmina em Jesus, que acolhe até os rejeitados. Se aceitarmos sua amizade, seremos transformados. Não porque nos submetemos a demandas extremas, mas porque somos libertos em um amor infinito.

O dominicano Yves Congar disse que amava a verdade como se fosse uma pessoa. Mas, hoje, o senhor adverte, “a própria ideia de verdade tornou-se vaga”.

A busca pela verdade implica o envolvimento com aqueles que têm ideias diferentes, para chegar a uma verdade mais ampla. Desde Sócrates. Mas os modernos meios de comunicação muitas vezes nos fecham dentro da comunidade daqueles que pensam como nós. Jonathan Franzen observa: “As vozes que não se conformam ficam em silêncio. E, onde quer que você esteja, você se sente no direito de odiar aquilo que odeia”. A tendência é rotular a visão dos outros como sem sentido, lixo, absurdo. Um fracasso da inteligência e da imaginação.

Como a Igreja reage?

Muitas vezes, infelizmente, ela mostrou o medo de realmente escutar aqueles que têm visões diferentes. Mas, no coração da cristandade, está o prazer da diferença. A verdade de Jesus é refratada em quatro Evangelhos. A Bíblia abraça a diferença entre Antigo e Novo Testamento. Jesus, a maior de todas: entre Deus e a humanidade. A Igreja só será aceita como mestra se estivermos dispostos a aprender com quem tem sabedoria ou verdade para compartilhar.

O senhor denuncia uma “retirada global da complexidade” em favor de slogans e tuítes, como “Brexit means Brexit” e “Make America great again”. O senhor votou no referendo do Brexit?

Sim, pelo “remain” [pela permanência na União Europeia]. Amo a profunda variedade das civilizações europeias. O debate foi superficial. Os tabloides bombardearam as pessoas com manchetes simplistas. Muitos votaram no “leave” [saída da União Europeia] por causa da desconfiança britânica a uma burocracia distante. Mais profundamente, as grandes desigualdades das modernas sociedades fazem com que muitos não se sintam em casa na sua própria sociedade. Não veem um futuro e pensam que não importam em nada. Essa pena de se sentir invisível reforça a rejeição da União Europeia. Mas o Brexit não resolverá a crise existencial vivida por muitos.

A perda de complexidade é uma das causas dos fundamentalismos? O papa despertou polêmicas ao dizer que “nenhum povo é criminoso, nenhuma religião é terrorista. Há pessoas fundamentalistas em todas as religiões”. O senhor concorda?

Sim. O coração da nossa resposta ao fundamentalismo é o estudo. Acabei de voltar do Iraque, onde as irmãs dominicanas lideram escolas com muçulmanos, yazidis e cristãos. O fundamentalismo, científico, econômico, nacionalista, é uma tentação da modernidade. Nenhuma das grandes religiões é fundamentalista por natureza, mas às vezes está infectada por esse limite da modernidade.

Rejeição das diferenças e retirada da complexidade também explicam a hostilidade em relação aos migrantes?

Na Bíblia, o estrangeiro não só é bem-vindo, mas também é uma bênção! Os migrantes serão fonte de renovação para a velha e cansada Europa. Mas não podemos esperar que aqueles que se sentem estrangeiros no seu país acolham os estrangeiros. As boas-vindas aos migrantes devem ser acompanhadas por um profundo compromisso para com aqueles que se sentem marginalizados, caso contrário as tensões nas nossas sociedades vão explodir.

No Sínodo sobre a família, em 2015 e 2016, a Igreja se perguntou sobre como pode ser a “casa de todos”, hoje que alguns são divorciados em segunda união, outros coabitam, outros têm parceiros do mesmo sexo. O que o senhor pensa?

É preciso se sentir em casa na Igreja, independentemente do tipo de relação em que alguém está envolvido. Jesus comeu e bebeu com todos. Mas uma boa casa também é desafiadora. Convida você a se tornar mais virtuoso, mais coerente, mais comprometido, mais honesto. Ao acolher as pessoas, sempre fruto de histórias complexas, partimos de onde elas estão e de quem elas são. Em vez de ver os divorciados em segunda união como fracassados, poderíamos considerá-los como corajosos que não renunciam ao desejo de um compromisso para sempre. As pessoas gays possuem dons para enriquecer a Igreja e a sociedade. Todos somos peregrinos em busca do caminho para Deus.

Será possível chegar a ordenar mulheres?

O lugar delas na Igreja é uma das maiores questões a serem abordadas. Não é tão central a ordenação, mas sim dar às mulheres tanto autoridade quanto voz. As santas Catarina de Siena, Teresa d’Ávila, Teresa de Lisieux e muitas outras são grandes teólogas. Ora, como essa autoridade pode ser inserida nas estruturas da Igreja? Eu espero que haja mulheres diáconos, de modo que a voz delas seja escutar a partir dos nossos púlpitos. E por que não uma mulher cardeal, como o cardeal Tobin sugeriu?

O senhor diz que a pluralidade da Igreja pode ajudar na era da globalização. A estrutura eclesiástica ainda está centralizada demais?

A partir do século XVI, a Europa se caracterizou por uma crescente cultura do controle. Vemos isso na evolução do Estado moderno, que supervisiona todos os aspectos das nossas vidas. A Igreja foi contagiada por isso e contribuiu com essa cultura. O Papa Francisco está tentando descentralizar. Isso requer abrir mão do controle. Mas crer no Espírito Santo é sempre um abrir mão do controle, porque não sabemos antecipadamente aonde seremos levados. Pode assustar, mas também é empolgante!

A autora Hilary Mantel, criada como católica, disse que “a Igreja não é mais para pessoas respeitáveis”. Vatileaks, abusos. Como recuperar a confiança?

Jesus não fundou a Igreja para “pessoas respeitáveis”. Os respeitáveis do seu tempo, os fariseus, ficaram escandalizados com os não respeitáveis que Jesus acolheu. Mas isso não basta. Os abusos sexuais por parte do clero são horríveis, e a Igreja deve mostrar claramente que os enfrenta com honestidade, com arrependimento e com a determinação de ser um lugar extremamente seguro para as pessoas vulneráveis. Devemos ser francos sobre os nossos fracassos. Pedro renegou Jesus. E os Evangelhos não escondem isso. Outro desafio é entender o porquê dos abusos. Precisamos dos melhores psicólogos, a fim de evitar que isso ocorra de novo.

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