Um Papa retorna a La Moneda depois do "balconazo" de Pinochet

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17 Janeiro 2018

Na manhã da terça-feira, 16 de janeiro, dentro de algumas horas, o Papa Francisco atravessará as portas do palácio presidencial de La Moneda, em Santiago do Chile. Lugar onde morreu o presidente Salvador Allende, que posteriormente se transformou na residência do ditador Augusto Pinochet. Será a primeira vez que um Papa entra nesse prédio após o famoso e discutido episódio do "balconazo", ocorrido há 31 anos, quando, com uma artimanha, Pinochet conseguiu – fora do protocolo e do programa combinado – aparecer na sacada ao lado de João Paulo II.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 16-01-2018. A tradução é de André Langer.

Desde a sua chegada ao aeroporto de Santiago, em 1º de abril de 1987, na presença do ditador, o Papa Wojtyla falou da " inalienável dignidade do ser humano". E algumas horas depois, aos pés de um grande monumento mariano, ele disse que abençoava especialmente as "populações marginalizadas" e "aqueles que sofreram as consequências da violência". A diplomacia vaticana tinha acordado três encontros com Pinochet, que temia a visita do Pontífice polonês por possíveis reações populares contra a ditadura: a recepção no aeroporto, o encontro oficial em La Moneda e a saudação na sua saída do país. Pinochet, que quis estar muito mais presente ao lado do Papa acompanhando-o a todos os eventos presentes na agenda, tentou impedir – em vão – que este encontrasse os expoentes políticos da oposição e estudou uma maneira de obter uma extraordinária "photo opportunity".

O organizador das viagens papais era, nessa época, o padre jesuíta Roberto Tucci, que mais tarde tornou-se cardeal. A visita de cortesia ao chefe do Estado chileno estava prevista para as 9 horas do dia 2 de abril e o protocolo previa uma breve reunião privada, seguida de uma saudação aos familiares do ditador. O regime havia secretamente idealizado um roteiro diferente. Antes do amanhecer, cerca de 7.000 simpatizantes de Pinochet foram levados à praça em frente ao Palácio de La Moneda, e começaram a gritar que queriam ver o Papa.

O programa, que devia durar menos de meia hora, prolongou-se de tal forma que as vozes cresceram ao grito de: "João Paulo II todos te amam!" No final do encontro com Pinochet, fizeram o Papa Wojtyla sair por uma porta diferente daquela que havia sido combinada com os organizadores do Vaticano, de tal forma que se deparou com uma espessa cortina preta. O ditador voltou-se para o Papa dizendo-lhe: "Sua Santidade, ali fora as pessoas querem saudá-lo e vê-lo. Elas esperam a sua bênção".

Naquele preciso momento, os agregados militares fizeram correr a cortina e abriram a janela da sacada central do palácio presidencial, que dá direto para a praça em festa. João Paulo ficou mudo ao se sentir traído, mas obviamente acudiu para cumprimentar as pessoas que o aclamavam. O evento é conhecido como "balconazo". Na hora dos cumprimentos, Wojtyla fitou o ditador com um olhar muito frio, contando enfurecido aos seus colaboradores o que tinha acontecido.

"Pinochet fez-se aparecer com ele na sacada do palácio presidencial contra a sua vontade" – contou o padre Tucci. Ele puxou as orelhas de todos. Os colaboradores foram acomodados em uma pequena sala enquanto durava a reunião privada. Conforme o que tinha sido acordado – que tinha fechado com uma precisa disposição do Papa –, João Paulo II e o presidente não iriam aparecer na sacada para saudar a multidão. Wojtyla era muito crítico com o ditador chileno e não queria aparecer ao seu lado. Eu sempre controlava a única porta que separava a pequena sala onde estavam os colaboradores e a sala em que estavam o Papa e Pinochet. Mas, com um movimento estudado, fizeram-no sair por outra porta. Passaram na frente de uma grande cortina escura fechada – contou-nos depois o Papa enraivecido – e Pinochet fez que João Paulo II ficasse parado ali, como se tivesse que lhe dizer alguma coisa. A cortina se abriu de repente e o Pontífice encontrou-se diante da sacada aberta e que dava para uma praça cheia de pessoas. Ele não podia recuar, mas eu lembro que quando ele se despediu de Pinochet, ele o encarou com um olhar gélido".

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