Sem vocação ou só por vocação? Dez teses para o desenvolvimento da ordem e do matrimônio. Artigo de Andrea Grillo

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17 Janeiro 2018

“Descobrir que o matrimônio não é apenas ‘secondo natura’, mas também ilumina uma ‘vocação eclesial’, e que a vocação eclesial ao ministério também inclui lógicas naturais e culturais – que a tradição soube levar em conta e sobre as quais nós fazemos tanto esforço – parece ser hoje uma tarefa eclesial primária.”

A análise é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado no blog Come Se Non, 15-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se observarmos o desenvolvimento que, nos últimos séculos, tiveram os dois “sacramentos do serviço” – ordem e matrimônio – podemos descobrir que o debate recente evidencia uma única grande questão. Ou seja, a redescoberta da “lógica de vocação” dos dois sacramentos. Em particular, podemos detectar um fenômeno paralelo – e oposto – que diz respeito aos dois sacramentos:

a) Por um lado, o matrimônio – institucionalizando-se progressivamente nos séculos XIX e XX – marginalizou o tema “vocação e discipulado”, pressupondo abstratamente uma identificação entre nível natural, civil e eclesial. A recente redescoberta do perfil vocacional é ainda formal demais e pouco refletida.

b) Por outro lado, o trabalho eclesial sobre a ordenação – a partir dos decretos tridentinos sobre os seminários – elaborou profundamente “vocação e discipulado” do sujeito ministerial, mas, não raramente, deslocou apenas para esse plano a atenção formativa, negligenciando dinâmicas naturais e culturais de primeira grandeza.

Essa assimetria determina hoje diversos desequilíbrios. Em particular, pede, simultaneamente, uma dupla integração:

- por um lado, que se recupere a “lógica de vocação” do sacramento do matrimônio;

- por outro lado, que se redescubra a “lógica natural e cultural” do sacramento da ordem.

Não é por acaso que o Sínodo sobre a Família, o Sínodo sobre os Jovens e também a Comissão pontifícia sobre o diaconato e a mulher atestam bem esse “trabalho vocacional”, no qual se possa configurar de modo mais adequado não apenas a “formação dos sujeitos”, mas também a correspondência da Palavra de Deus com a experiência e da experiência com a Palavra de Deus.

Descobrir que o matrimônio não é apenas secondo natura, mas também ilumina uma “vocação eclesial”, e que a vocação eclesial ao ministério também inclui lógicas naturais e culturais – que a tradição soube levar em conta e sobre as quais nós fazemos tanto esforço – parece ser hoje uma tarefa eclesial primária.

Sobre esse ponto, eu gostaria de formular “10 teses”, para tentar iluminar um pouco o que está acontecendo:

1. Sobre a ordenação, deveríamos dizer que a presença do “diácono uxorado [casado]” já levou a mulher – mas apenas como esposa – a uma “tomada de responsabilidade” pelo ministério do marido. Esse simples fato alterou as lógicas rigorosamente celibatárias que caracterizaram a experiência latina dos últimos séculos.

2. Isso introduziu uma variável cujas implicações estão apenas no início e que deve ser integrada pela aquisição de uma eminentia auctoritatis da mulher no campo político, social, público. Essa diferença é irredutível. A uma redução “privada” da autoridade feminina, o mundo tardo-moderno – não sem desvios e distorções – soube descobrir e desenvolver um perfil público da autoridade feminina.

3. A Igreja não pode simplesmente “sofrer” esse desenvolvimento. Ela deve assumi-lo, orientá-lo e dar-lhe plenitude. Mas não pode desmenti-lo em um movimento autorreferencial e autoritário, talvez citando – como autoridade indiscutível da tradição – os preconceitos medievais sobre o masculino e sobre o feminino e, além disso, confundindo o Evangelho e a Palavra de Deus com eles. Nada de pior poderia acontecer com a Igreja do que curvar a autoridade de Deus como garantia da resistência do status quo.

4. Portanto, “trabalho histórico” e “trabalho sistemático”, sobre o diaconato feminino ou sobre a vocação matrimonial, nunca podem se identificar. Para usar as palavras de R. Guardini, o primeiro nos diz o que foi no passado, mas o segundo – e apenas o segundo – pode nos dizer o que deverá ser no futuro. Em outras palavras, a história não pode ser o álibi para não decidir.

5. Também sobre o matrimônio, uma forte ênfase “vocacional” muitas vezes constituiu também um “álibi” por não abordar a questão feminina dentro da Igreja, fechando-a na alternativa entre “esposa”, “mãe”, “irmã” e “filha”. O necessário ato de repensar o matrimônio depende, não secundariamente, de uma nova subjetividade feminina que habita a Igreja há não mais do que um século.

6. Tal subjetividade não é apenas privada, não está apenas “em foro interno”. A virada que, recentemente e com decisão, a Amoris laetitia assumiu ao conceber a pastoral familiar ainda tem o limite de propor uma solução “em foro interno”, cuja articulação comunitária parece ainda frágil e da qual ainda se custa a considerar e a reconhecer o impacto “público”, ao qual se deverá prover também juridicamente.

7. Por outro lado, isso é coerente com uma longa e sábia tradição, que tem o limite de uma gestão das questões que encontra na diferença radical entre “foro interno” e “foro externo” uma lógica antiga e nobre, mas que não corresponde mais à nossa experiência relacional contemporânea. O tema da “identidade feminina” faz explodir as categorias medievais/modernas que haviam redimensionado o seu papel, precisamente em uma rígida oposição entre “relevância privada e irrelevância pública”.

8. A resistência da Igreja a superar essa irrelevância deverá encontrar formas linguísticas e institucionais mais adequadas. Não só no âmbito familiar, mas também no âmbito ministerial. Para não se deixar condicionar mais pelas lógicas da sociedade fechada do que pela palavra do Evangelho. Para conjugar o Evangelho em uma sociedade aberta, na qual a identidade vive sempre de diferenças, que, no entanto, não podem ser predeterminadas nem teórica nem disciplinadamente.

9. Essa abertura às novas identidades não é nem perdição do homem, nem negação de Deus, mas é relação com o mistério. É o mistério de Deus e do homem, do Deus feito homem e do homem reconciliado com Deus, que exige que não só homens, mas também mulheres possam ter acesso ao ministério eclesial e ao ministério ordenado.

10. Resistir na antiga negação – fundamentada não no juízo ponderado de uma Igreja aberta pelo Espírito, mas no preconceito visceral de uma sociedade fechada – significaria, agora, resistir obstinadamente não às fúteis inovações da moda, mas ao poder de novidade do Evangelho.

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