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10 Janeiro 2018

"A história é escrita a partir da perspectiva dos que preservam seus registros", afirmou Mark Bowman, fundador e diretor do Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender Religious Archives Network (Rede de arquivos religiosos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), LGBT-RAN. Diante de 300 pessoas que trabalham pela aceitação das pessoas LGBT em suas igrejas cristãs, Mark abriu a conferência intitulada "Rolling the Stone Away", com o intuito de lembrar a história do movimento LGBT e olhar para as necessidades futuras.

O depoimento é de Jeannine Gramick, Irmã de Loreto e está envolvida no ministério pastoral para gays e lésbicas católicos desde 1971, co-fundadora do New Ways Ministry e coordenadora da Coalizão Nacional das Freiras Norte-Americanas desde 2003, publicado por Global Sisters Report, 02-01-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Neste encontro em St. Louis, 50 fundadores e agitadores do movimento LGBT cristão compartilharam suas narrativas para preservar uma parte valiosa da história. As cadeiras de rodas em um dos lados dizia muito sobre a idade destes pioneiros.

A conferência foi uma experiência verdadeiramente única para mim. Já discursei algumas vezes em outras igrejas cristãs, mas grande parte das minhas quatro décadas no ministério LGBT foi em círculos católicos. Eu já havia lido sobre pessoas que fizeram suas denominações progredirem, mas conheci muito poucas pessoalmente.

Estava me sentindo honrado em conhecer pessoas como o Rev. Bill Johnson, que, em 1972, tornou-se a primeira pessoa abertamente gay a ser ordenada em uma igreja cristã. E Jimmy Creech, que foi destituído da Igreja Metodista Unida pela realização de casamentos de casais do mesmo sexo.

Mas foi uma observação da Rev. Nancy Wilson, antiga Moderadora da Igreja da Comunidade Metropolitana, que ficou em minha cabeça e provocou sérias reflexões.

Quando conheci Nancy, ela me cumprimentou com entusiasmo, dizendo, "anos atrás, quando li sobre a sua situação, sabia que as irmãs estavam do nosso lado!" Desde então, penso nas palavras de Nancy e acredito que ela acertou.

Meu ministério LGBT certamente não era "meu". Pertencia às "irmãs". Minhas líderes congregacionais tinham visão e imaginação e enxergavam à frente. Eram mulheres de ação, leitoras e pensadoras que abordaram as necessidades que há muito tempo eram negligenciadas pela nossa igreja. Nos anos 70, três líderes provinciais das Irmãs de Notre Dame seguidas me designaram para o ministério lésbico/gay. (Naquela época, não havia nenhuma discussão ou consciência sobre as questões dos transgêneros na comunidade católica.)

Eram mulheres fortes que não vacilavam diante de inúmeras queixas de leigos católicos e alguns bispos e cardeais. Naquela época, os católicos não aceitavam gays e lésbicas como hoje. O Vaticano apresentou três pedidos de investigação interna, mas todas as provinciais e as três superioras gerais continuaram apoiando o novo ministério. Como disse Nancy: "as irmãs estavam do nosso lado!"

Quando a pressão do Vaticano ficou forte demais para as Irmãs de Notre Dame, as irmãs de Loreto intervieram e me aceitaram em sua comunidade. As Irmãs de Loreto tiveram uma longa história de autoeducação sobre a injustiça da homofobia e de que era certo acolher todas as pessoas na igreja, mesmo as que discordassem da ética sexual tradicional.

Antes da eleição do Papa Francisco, as líderes das Irmãs de Loreto receberam nove cartas do Vaticano pedindo que eu fosse excomungada da vida religiosa se continuasse no ministério. Parece para mim que as líderes das Irmãs de Loreto anteciparam o conselho do Papa Francisco à União Internacional de Superioras Gerais ao pedir que respondessem a quaisquer cartas do Vaticano de forma educada e depois continuar com seus ministérios. Elas fizeram exatamente isso.

Durante esses anos, alguns líderes de outras congregações chegaram a propor uma estratégia criativa caso o Vaticano pressionasse as irmãs de Loreto de forma persistente: Uma série de comunidades estava pronta para me receber caso eu fosse de uma congregação para outra! Como disse Nancy: "as irmãs estavam do nosso lado!"

Apesar de não parecer, a crise com o Vaticano foi uma bênção, porque tornou-se o primeiro passo para educar alguns membros da hierarquia. Várias líderes escreveram ao Vaticano sobre a necessidade de apoiar e expandir o ministério. A Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference of Women Religious - LCWR) incentivou seus membros a dialogarem com os bispos locais sobre a questão da homossexualidade.

Mary Ann Zollman, na época presidente da Sisters of Charity of the Blessed Virgin Mary (Irmãs de Caridade da Abençoada Virgem Maria), fez parte de uma reunião com os bispos locais na qual alguns disseram que a homossexualidade era intrinsecamente desordenada por uma ética baseada no jusnaturalismo.*

"Vi que eu estava entrando num lugar de sofrimento e alienação", disse Mary Ann naquela reunião. "Aos olhos do meu coração, vi rostos de homens e mulheres que eu sei que são gays ou lésbicas e vivem com compaixão, merecidamente buscando um retorno de compaixão e de justiça por parte de uma igreja que amam. Pensei em homens e mulheres cuja paixão pela plenitude na relação é vivida em profundo compromisso com os parceiros do mesmo sexo ao longo da vida. Ouvi, no fundo do meu coração, sua luta para encontrar uma casa em nossa igreja... Naquela mesa de reunião, tive que falar em nome dessas pessoas, para contar a história da beleza de suas relações e trazer uma ética da sexualidade alternativa".

Em seu imponente discurso como presidente da LCWR em 2003, Mary Ann Zollman compartilhou essa história e contou seus sentimentos por meio da imagem de duas árvores. "Eu sentia minhas raízes movendo-se em direção às deles e eles inclinando-se na minha direção, tão conectados de forma que não queremos nada mais senão formar um espaço num lar para o que é o 'outro'". Ela conseguiu entrar em ressonância com seus sentimentos porque eram semelhantes à dor de não ter uma casa que ela sentiu como mulher na igreja.

Não era de surpreender que seu discurso fosse parte da investigação da LCWR do Vaticano. Responder às preocupações do Vaticano tomou muito tempo e energia, mas valeu a pena porque foi outro exemplo no qual as irmãs estavam educando as autoridades eclesiásticas. Se Nancy soubesse, ela diria: "as irmãs estavam do nosso lado!"

Mas a primeira organização católica a apoiar gays e lésbicas foi a Coalizão Nacional das Freiras Norte-Americanas. O quadro deste pequeno grupo de bases de freiras apelou publicamente pelos direitos civis de gays e lésbicas ainda em 1974. A organização também apoiou publicamente o direito de pessoas do mesmo sexo ao casamento e denunciou o assédio moral de pessoas LGBT. Mais uma vez, "as irmãs estavam do nosso lado!"

Desde o final dos anos 90, as irmãs ministram a transgêneros, curando espíritos e salvando vidas. Membros das várias congregações dos EUA, como as Missionários Eucarísticas de Santo Gusmão, as Dominicanas de Racine, as Irmãs Dominicanas da Paz e a Congregação das Irmãs de São José de Carondelet acompanharam os transexuais e suas famílias nesta viagem sagrada. Através de um ministério presente, as irmãs acolheram os transexuais e foram acolhidas de volta. A mensagem básica das irmãs é que Deus os ama por quem são.

O apoio das irmãs não se deu apenas em nível privado. No ano passado, um professor católico de São Francisco se assumiu como transgênero e teve o apoio público das Irmãs da Misericórdia que administram o ensino médio. Logo depois, as Irmãs de Santa Inês, em Fond du Lac, em Wisconsin, organizou uma vigília pública de oração depois do tiroteio desenfreado de pessoas LGBT em uma boate em Orlando. Seis meses depois, as irmãs da Sisters of the Congregation of Mother Carmel (Congregação da mãe Carmelita) na Índia ofereceram seus prédios para uma escola para transexuais que tivessem evadido pelo trauma psicológico que viveram. Sim, "as irmãs estavam do nosso lado!"

Tantas religiosas afirmaram a bondade de estudantes ou estranhos LGBT. As irmãs abriram as portas da matriz e dos centros de retiro para programas LGBT. Muitos assinaram petições, manifestaram-se ou escreveram cartas de reclamação ao verem pessoas LGBT serem demitidas de instituições católicas. Alguns marcharam em solidariedade nas paradas gay. As irmãs foram parte da luta LGBT no passado; hoje, são aliadas. E, como esta conferência me mostrou, as irmãs dão às pessoas LGBT esperança para o futuro.

Estou contando com o fato de os nomes e ministérios de todas estas irmãs estarem preservados nos arquivos das congregações religiosas femininas. Que perda seria para a história da Igreja e da causa da justiça caso esses registros não fossem guardados ou alguém pensasse que eram delicados demais para guardar. As palavras de Mark Bowman na conferência de abertura ressoam na minha cabeça como um refrão: "A história é escrita a partir da perspectiva dos que preservam seus registros".

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