“O debate sobre a Amoris Laetitia é desproporcional”, afirma cardeal uruguaio

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09 Dezembro 2017

O Uruguai perdeu 63% dos matrimônios católicos celebrados anualmente. Em apenas duas décadas. Números que preocupam seus bispos. Um deles, o cardeal Daniel Sturla, disse que, diante de desafios como esse, o acalorado debate aberto em alguns setores da Igreja em torno da encíclica Amoris Laetitia é desproporcional. Os fiéis comuns – adverte – já não se casam, muitos cristãos jovens convivem sem assumir um compromisso formal. “O Papa quer enfatizar a unidade da família e a necessária proximidade às pessoas feridas”, afirmou.

Salesiano, homem próximo e franco, Sturla sempre repete que a Igreja em seu país é “pobre e livre”. Arcebispo de Montevidéu e cardeal por desejo de Francisco, há alguns dias liderou os pastores uruguaios na sua visita “ad limina apostolorum” a Roma. Bergoglio reservou-lhes uma audiência que durou duas horas. Tiveram com ele um diálogo franco, durante o qual externaram suas preocupações. O pontífice foi enfático contra a “ideologia de gênero” e pediu-lhes que preservassem as raízes do seu povo. Em uma entrevista concedida ao Vatican Insider, Sturla discorreu sobre alguns temas da conjuntura eclesial.

A entrevista é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada por Vatican Insider, 08-12-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Um dos temas mais discutidos ultimamente é a implementação da encíclica Amoris Laetitia sobre a família, do Papa Francisco. É um problema para vocês? Como estão aplicando a encíclica?

Implica dificuldades, sim, em um país que possui uma porcentagem muito alta de divórcios. O Papa descreve a Igreja como um “hospital de campanha”, em que se trata de cirurgias simples e de primeiros socorros, mas não para tratamentos complexos. Muitas pessoas se afastam e quando retornam a prioridade é recebê-las em casa e fazer com que se sintam bem. Por outro lado, talvez faltou algum elemento objetivo: no discernimento de um caso irregular, quando o acesso ao sacramento da Eucaristia poderia ser viável? Porque a doutrina não mudou, o que mudou é a atitude pastoral.

Nessa atitude, seria necessário um aspecto objetivo que ajude o casal e o sacerdote, que eventualmente os ajude a discernir, na tomada de decisão. Poderia ser o tempo. O tempo da primeira união e o tempo da segunda união poderia ser um elemento que ajudasse a discernir. Em muitos casos, os pastores tomam essa situação como chave na hora de ajudar um casal a descobrir, no caso de não poder anular uma primeira união, se está em condições de ter acesso à comunhão.

Como vê o debate em torno da encíclica?

Penso que é desproporcional. O que devemos reter do Papa é a atenção para as situações difíceis, a proximidade com os nossos irmãos que podem ter se afastado da Igreja. Temos de ir mais ao substancial da mensagem de Cristo, da misericórdia de Deus, do que significa uma Igreja como uma casa de portas abertas e, ao mesmo tempo, uma Igreja que sai. Obviamente, também é preciso ter alguma clareza e é por isso que eu fazia referência à necessidade de um critério mais objetivo em alguns casos especiais; mas não é uma questão que esteja no centro das preocupações.

Essa discussão não preocupa os fiéis comuns?

Em 2014, no Uruguai, fizemos uma análise da realidade e em 20 anos houve uma queda de 63% dos casamentos religiosos. Diante disso, penso que é a prioridade deveria ser focar na preparação dos jovens. Perguntar-se o que está acontecendo e por que os casais não se casam, por que casais de certa tradição cristã convivem sem se casar. Há problemas tão grandes nesse sentido que este, não desprezo a questão anterior, não é o elemento mais significativo.

Qual é o impacto destes debates nas paróquias e entre os leigos?

No Uruguai, existe há tempos já uma pastoral para divorciados recasados. Não devemos separar tudo isso das normas aprovadas pelo Papa para acelerar os casos de nulidade matrimonial. É um conjunto de coisas; se se isola uma nota da Amoris Laetitia e, a partir daí se cria uma confusão, acho que algo está errado. O Papa quer enfatizar a unidade da família, a proximidade da Igreja em situações difíceis e a misericórdia. Nós nos situamos nessa linha.

Falou-se muito sobre a possibilidade de uma viagem apostólica ao Uruguai que inclua a Argentina. Este assunto apareceu na visita dos bispos?

Claro, nós manifestamos o interesse uruguaio de que o Papa nos visite. Ele pode visitar todos os países fronteiriços da Argentina de forma independente, mas não pode visitar o Uruguai sem visitar a Argentina. Ele mesmo fez essa relação. Não há nenhuma dificuldade no Uruguai; nós o receberíamos de coração aberto. Trata-se de uma decisão muito pessoal do Papa e tem a ver com o fato de que estejam dadas todas as condições para que possa visitar o seu país natal.

Ele sente que essas condições não estão dadas?

Pelo menos no imediato, ele nos disse que ainda não. Minha opinião é que quando sentir em seu coração que estão dadas as condições, vai discernir e acredito que, sem muita antecedência, nos dirá que vai. E esperamos por isso.

A Igreja se comprometeu a colaborar com o governo do Uruguai em casos de pessoas desaparecidas da época da ditadura militar. Que progresso há nesta questão?

A Igreja do Uruguai é pobre e gratuita. É uma Igreja em um país em que nem o exército nem a polícia têm capelães, onde o Estado está claramente separado da Igreja. Durante a ditadura, a Igreja funcionou como uma casa que recebeu muitas pessoas que encontraram um espaço de liberdade nas paróquias, nas escolas...

Ao contrário do que aconteceu em outros países da América do Sul...

Penso que sim por razões naturais. Se há capelães militares em uma ditadura, é difícil esquivar-se. Não estou dizendo que tenha acontecido ou não, mas é diferente. Está muito claro, exceto para aqueles que não sabem nada sobre a história recente, que a Igreja no Uruguai teve um papel positivo de estar com o povo.

O governo do Uruguai e o Vaticano assinaram um acordo para que, se houver algum elemento nos arquivos sobre a questão dos desaparecidos, possa ser conhecido. As dioceses do país fizeram uma revisão de todos os seus arquivos, mas nada de substancial foi encontrado neles. Na Arquidiocese de Montevidéu, nos últimos três anos, recebemos denúncias anônimas sobre eventuais restos de pessoas desaparecidas, e essas cartas eu entreguei pessoalmente aos familiares, que eram cerca de 15. Há um apoio total da Igreja para que as coisas sejam esclarecidas, embora os desaparecidos uruguaios no país tenham sido cerca de 30. A maioria dos compatriotas desapareceu na Argentina, onde a realidade é muito diferente.

E a que se deveu isso?

Os militares no Uruguai não tiveram como prática o desaparecimento de pessoas. Aí a estratégia era extrair informações mediante a tortura e depois iam à prisão; por isso tivemos muitos presos políticos durante a ditadura.

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