Papa recebe a graça da vergonha sobre rohingya

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05 Dezembro 2017

As visitas do Papa Francisco a Mianmar e Bangladesh sinalizam o quanto a Igreja Católica mudou em muitas regiões da Ásia.

Houve muitas marcas registradas deste pontificado nas visitas. Mas o que ficou visível foi as boas-vindas ao Papa de igrejas locais cheias de energia e confortáveis consigo próprias e gerações das fundações coloniais. A Igreja aqui está personificada por essas igrejas, que não são como filiais de uma multinacional cuja sede fica em Roma.

O comentário é de Michael Kelly, jesuíta, residente em Bangkok, onde é diretor de ucanews.com, publicada por Eureka, Street, publicação dos jesuítas australianos, 02-12-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Isto é importante para a Igreja na Ásia em toda a sua diversidade. Mas a mensagem desta visita também tem um significado universal para a igreja que Francisco quer formar no século XXI.

Mianmar tem 135 minorias étnicas reconhecidas e a Igreja Católica está entre as mais vitais e numerosas entre algumas minorias tribais, longe da maioria de Barman, no sul do país. Mas a cultura do país é dominada pelo budismo, e entre seus defensores estão nacionalistas que são militantes religiosos.

Representantes dos católicos nas minorias tribais dirigiram-se a Yangon e à capital estranhamente surreal, Nay Pyi Daw, em dezenas de milhares de pessoas, para celebrar a chegada do Papa. Alguns viajaram a pé, outros de ônibus e de carro, das aldeias e dos campos de deslocados internos.

Era uma igreja pobre dando tudo o que tinha para prosseguir. Quando perguntado por um jovem jesuíta, em Mianmar, durante o encontro com 50 jesuítas do país, sobre o que sentia em relação a todos os sacrifícios que as pessoas pobres estavam fazendo para ir vê-lo, Francisco retornou aos exercícios espirituais em que Inácio de Loyola pede que se reze “pela graça da vergonha”. Ele diz ter recebido essa graça.

E admite tê-la recebido novamente ao se direcionar aos rohingya: ele pediu perdão não apenas por não usar essa palavra durante a viagem a Mianmar, mas em nome de todos os que os trataram com negligência.

Ele realmente não podia usar a palavra rohingya em Mianmar, e parte da mídia — principalmente estadunidense — o condenou por isso. Apesar de todos os seus discursos em Myanmar terem a capacidade de ser lidos como uma defesa dos rohingya, ele aceitou o pedido da igreja local de não inflamar a situação na região, que pioraria para todos — particularmente os católicos que deram a cara a tapa aos demais cidadãos — se a palavra fosse usada. Francisco não apenas reconheceu a necessidade de sensibilidade cultural como visitante de Mianmar, mas respeitou as opiniões da igreja local.

Em Bangladesh, a Igreja dos pobres exibiu-se ainda mais. Os locais fizeram os mesmos sacrifícios, viajando de bicicleta, de ônibus e a pé para ver o Papa.

Mas o que uniu a viagem aos dois países não foi apenas a pobreza - e Bangladesh e Mianmar estão entre os cinco países mais pobres da Ásia. Foi também o fato de o Papa ter agido conforme seu modus operandi singular — o encontro com a diversidade.

Os católicos nos dois países chegaram a 1 milhão de pessoas, em lugares onde o total da população chegou a quase 220 milhões. Cada país tem sua própria religião dominante: o Islamismo (Bangladesh) e o Budismo (Mianmar). Em ambos, pequenos grupos de fanáticos religiosos foram hostis à visita. O Papa acolheu estas objeções dizendo que todas as religiões — assim como o cristianismo e o catolicismo — têm fundamentalistas.

Mas sua abordagem às diferenças religiosas em ambos os países não foi apenas uma marca registrada da viagem. Também demonstra algo de um significado universal para a Igreja Católica. Se, no século XXI, a Igreja na Ásia está a gerações das suas fundações coloniais, também tem consciência do seu estatuto de minoria e de sua necessidade de viver bem com os concidadãos de religiões diferentes.

A Igreja na Ásia, por sua sobrevivência não menos do que pelo cumprimento de sua missão, começa aceitando o pluralismo como algo tão familiar quanto o ar que respira. A base para ser livre num mundo pluralista é o encontro respeitoso com os diferentes. Francisco conheceu tantos grupos muçulmanos e budistas quanto católicos e pobres. Mas o que mais devemos esperar de um papa em visita à Ásia?

Observando de forma casual os argumentos teologicamente protegidos e fechados de alguns cardeais e bispos na Europa e nos EUA, é de se perguntar em que mundo eles vivem. A resposta: no seu próprio mundo! Lá, não há espaço para a diferença e a diversidade.

Como dizem, eles precisam sair mais da zona de conforto e descobrir o quão diferente é a vida fora dos confins aristocráticos de alguns católicos descontentes da Europa ou das guerras ideológicas da cultura católica, apreciada por alguns católicos estadunidenses de quem muito se fala.

Esta viagem à Ásia — a terceira do Papa Francisco ao continente, sendo que há rumores de que outra possa acontecer no próximo ano — foi uma vitória para a realidade do catolicismo vivida pelos pobres fiéis, felizes e tranquilos apesar da competição chata e improdutiva que quer mostrar que a Igreja Católica está à beira de um cisma. Eles têm problemas do mundo real mais do que suficientes para lidar.

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