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29 Novembro 2017

A memória do 100º aniversário da Revolução de outubro (7-8 de novembro de 1917) foi realizada na Rússia em tons menores, com traços de analogia e elementos de descontinuidade em relação à conquista do poder pelos revolucionários bolcheviques.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimana News, 23-11-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

O evento, entre os maiores que ajudaram a moldar a face da Europa e do mundo durante o século XX, tem um correspondente na economia atual: como então, é em função do aparato militar. Os substanciais investimentos na manutenção e modernização das armas acompanham em paralelo a negligência com o bem-estar social.

Na época, o sangramento econômico era devido ao envolvimento na Primeira Guerra Mundial, ao lado da Sérvia, agora se deve a compromissos pesados na Síria, Ucrânia-Crimeia e na frente Norte com a OTAN.

Na época, o bloqueio econômico era implementado pela Alemanha e pelos impérios austro-húngaro e otomano, agora as restrições comerciais são impostas pelo Ocidente pela ocupação da Crimeia e a guerra no Dombass (Ucrânia).

Como então, dois terços da população consideram insuportável o custo de vida, a diferença socioeconômica (na época, eram os nobres latifundiários e a burguesia, agora são os oligarcas de alto, médio e baixo escalão), a plutocracia e as agitações sociais.

As desordens causadas, na época, pela intellighentia e por uma parte da burguesia encontram hoje um paralelo no descontentamento da juventude com a corrupção e a plutocracia, embora de orientação conservadora.

Entre os elementos de evidente descontinuidade pode-se lembrar a inércia da oligarquia. Ela ainda controla a política e não está interessada em mudanças significativas. Foi reencontrado o sentimento de orgulho nacional e a vocação imperial, garantidos pelo atual czar do Kremlin. Sobrou um profundo terror das revoluções violentas, dos massacres e dos derramamentos de sangue, embora se admirem os homens fortes e cruéis do passado. Diferente é também a capacidade de se adaptar e sobreviver às precárias condições de vida, mesmo assim consideradas melhores do que as antigas.

Existe a impotência das oposições políticas e midiáticas, que estão sob rigoroso controle do poder central. Em nome da segurança nacional não estão mais em uso os gulags e os fuzilamentos em massa, mas uma invasiva inspeção das mídias sociais, além das tradicionais.

O governo e o aparado estatal não comemoraram a revolução de maneira enfática. O presidente, que ainda assim busca grande recurso na história, não participou de nenhum dos principais eventos. Ele se mantém equidistante, assim como a população que, segundo as pesquisas, está dividida entre a favor e contra, na proporção de 55-45%. Apenas o Partido Comunista celebrou em forma solene a memória, mas em locais não particularmente centrais.

O concílio e Tichon

A Igreja Ortodoxa preferiu, juntamente com a direita política, enfatizar a primeira revolução, a de fevereiro de 1917. Não tanto pelo clima evidentemente mais democrático, quanto pela vitalidade eclesial que na época foi produzida. "Junto com os homens, nas praças também discursavam e se manifestavam as árvores e as estrelas", como descrevia Boris Pasternak.

Em junho, realizou-se o Sínodo da Igreja greco-católica. Em agosto, iniciou-se o Concílio local da Igreja Ortodoxa Russa, aguardado e preparado por uma década e que,

pela amplitude dos temas tratados e maturidade da consciência eclesial, é comparado ao Vaticano II. À hierarquia aliaram-se, no encontro, numerosos representantes do baixo clero e leigos. Foram corajosas as indicações de reforma na administração, no direito, na liturgia, na educação e na pastoral. Para aquele evento, foi dedicado pela Universidade Ortodoxa São Tichon, um simpósio ao qual participou o dominicano padre Hyacinthe Destivelle (14-15 nov 2017).

De 29 de novembro a 3 de dezembro será realizado o Conselho dos Bispos Ortodoxos em Moscou para comemorar o centenário da fundação do Patriarcado. Em novembro de 1917 foi eleito, de fato, o patriarca Tichon, canonizado em 1989, guia valioso da Igreja Ortodoxa nos primeiros anos das perseguições.

Alguma menção foi feita até aqui pelo bispo Hilarion, de Volokolamsk e presidente do Departamento de Relações Externas do Patriarcado de Moscou. Será interessante ouvir a conceituada avaliação do Patriarca Cirilo.

O ato mais solene dos últimos meses, realizado pelo Presidente Putin e pelo Patriarca Cirilo, foi a inauguração, em 30 de outubro, do "Muro dos aflitos", um imponente baixo-relevo de 30 por 6 metros, dedicado às vítimas de repressão. Naquela ocasião Cirilo disse: "O atual evento, que nos reúne junto a este monumento, convida-nos mais uma vez para refletir sobre a terrível tragédia que ocorreu na Rússia no século XX. Sabemos que aqueles trágicos acontecimentos serão por muito tempo ainda objeto de investigação, mas o ano do centenário da revolução deve ser particularmente útil para tal reflexão.

Olhando de perto essa tragédia nos perguntamos: como foi possível? Porque os habitantes de um mesmo país, os vizinhos de casa, os colegas de trabalho perseguiram-se e mataram-se uns aos outros? De que maneira uma ideia grandiosa de construção de um mundo livre e justo conduziu ao derramamento de sangue e iniquidades? As pessoas sonhavam com a paz sem exploração, sem pobreza, sem guerra; um mundo em que a ciência iria regular os problemas e curar as doenças.

Mas, para muitos, o sonho transformou-se em um pesadelo. Onde estava o erro? Talvez no fato de que as pessoas aspiravam a construir uma sociedade humana e justa rejeitando as suas bases espirituais e colocando a moral em um plano subordinado à ideologia, que conduziu à justificação da injustiça e da violência, a fim de construir um "futuro radiante"? O afastamento da sociedade das normas morais leva à crise. Conclusão compartilhada por representantes de todas as religiões tradicionais da Rússia, entre as quais a máquina de repressão não fazia distinção alguma. Hoje, nós todos precisamos ter ciência do fato que não haverá "futuro radiante", se, novamente, a visão do futuro for colocada sob a influência de ideologias que destroem os fundamentos morais e espirituais do ser humano. A geração atual não tem direito a repetir os erros da história".

Ativismo eclesial, hegemonia política

Os primeiros anos do Patriarcado foram marcados por um significativo movimento de reforma na Igreja. É sintomático que remonte para aqueles anos a conversão e, para alguns, a escolha do sacerdócio, de homens como Bulgakov, Florensky e Berdyaev; apoiados inicialmente pelos bolcheviques e, em seguida, rapidamente abandonados e perseguidos.

Nos últimos anos, surgiram aqui e ali algumas vozes reformistas, rapidamente silenciadas pela atual hierarquia. Bispos, padres e monges que cantam fora do coro são imediatamente destinados a outras atividades ou relegados a áreas carentes e complicadas. Por esse ponto de vista, o clero uxorado e a "proteção" política em relação às carreiras eclesiásticas têm um efeito dissuasivo não secundário.

Naqueles lugares onde os bispos ou os metropolitas adotam um estilo de maior proximidade com o povo e uma atenção mais ativa à agitação social e cultural, a ação pastoral dos sacerdotes assume uma maior amplitude e percebe-se uma iniciativa leiga mais criativa. Esse é o caso de São Petersburgo, Samara, Kazan, Krasnodar, Cheliabinsk, por exemplo.

Dentro do mundo cristão circulam nomes de sacerdotes generosos e fora dos clichês. Como aqueles de padre Sergij Bel'kov que trabalha com dependentes químicos, do padre Pavel Velikanov, professor da Academia Teológica de Moscou e diretor do portal de Teologia, www.bogoslov.ru, do padre Aleksandr Tračenko, patrono do hospício de São Petersburgo. O atual pároco da paróquia em Moscou onde foi assassinado o padre Men, padre Borisov, é uma pessoa de grande autoridade moral, próxima das pessoas, atento à formação espiritual e à sensibilidade social.

Hilarion, ao contrário, vai repetindo, mais recentemente em Londres, que a força e a atração da Igreja Ortodoxa Russa advêm de não ter reformado nem a liturgia, nem outros setores da pastoral. Ele menciona numerosas conversões à ortodoxia russa, mesmo na Europa ocidental.

O presidente do Departamento de Relações Externas do Patriarcado de Moscou está circulando como um pião em todos os lugares, de Budapeste a Bruxelas, de Londres aos EUA, do Japão a Roma para ver o Papa, já que Cirilo não pode fazê-lo sozinho.

É muito cuidadoso em fornecer uma imagem tradicional da Igreja Ortodoxa, ligada aos valores de sempre (difícil explicar quais), com alguma cautela em relação aos católicos e a consciência explícita de ser a Igreja Ortodoxa a única intérprete de cristianismo puro e verdadeiro. Talvez isso também esteja ligado a um tipo de campanha eleitoral para a sucessão de Cirilo, mas parece ter mais possibilidades no exterior do que no próprio país.

Não menor é o ativismo de Cirilo, apoiado pelo orgulho de uma Igreja que voltou a ser forte e em expansão. Em paralelo com a percepção geral do país. As viagens na Romênia e Croácia são um exemplo disso. As relações com Bartolomeu de Constantinopla estão sempre no fio da navalha, pelos temores e irritação com a transferência de algumas paróquias ucranianas à obediência a Constantinopla, por sua proximidade ao Bósforo da ortodoxia húngara e pela força do magistério ambientalista de Bartolomeu.

Voltando ao papel atual da Rússia na arena internacional, não pode ser ignorado o seu diferente peso após a intervenção na Síria e por ocasião das recíprocas ameaças entre os EUA e a Coreia do Norte sobre o uso de armas atômicas.

No primeiro caso, a paz no Médio Oriente não poderá ser alcançada sem a intervenção de Moscou. No segundo caso, a Rússia viu-se projetada junto com os EUA e a China como garantia do controle nuclear, inclusive por seus laços com o Irã.

Na apreciada visita a Moscou do presidente da Alemanha, Steinmeyer, primeiro presidente alemão a fazê-lo desde 2010, abriram-se novas possíveis relações também com a Europa. Mas, dessa vez, como ator internacional e não apenas como vizinho de casa. Enquanto isso, pesam cada vez mais as denúncias dos ataques de hackers russos nas eleições ocidentais bem como presidenciais nos EUA, no referendo catalão, no Brexit britânico e nas eleições francesas e alemãs.

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