"A Igreja da Birmânia sempre teve a consciência da necessidade de testemunhar o encontro"

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27 Novembro 2017

Nesta segunda-feira, o Papa Francisco visitará a Birmânia e Bangladesh, no que é a sua quarta viagem apostólica ao continente asiático. Dois países com realidades muito diferentes, onde há missionários espanhóis entregando a vida. A instituição Pontifícias Obras Missionárias (OMP) entrevista um deles, que não pode revelar sua identidade para não comprometer sua missão na Birmânia. A partir daí, o missionário explicou qual é o papel da Igreja Católica no país.

A informação é publicada por OMP, 26-11-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis a entrevista.

O papa visitará um país majoritariamente budista. Há espaço para outras religiões na Birmânia?

Sim, oficialmente há espaço para outras religiões. Como você disse, a maioria é budista (87,9%), mas também há cristãos (6,2%) - em geral, de etnias minoritárias do país -, muçulmanos (4,3%), hindus (0,5%) e animistas (0,8%). 0,2% professa outra religião diferente das que foram referidas, e apenas 0,1% declara que não tem religião. Na Birmânia há liberdade de culto: se você for pelo centro de Yangon, podem ser vistas celebrações de diferentes religiões. Quanto à Igreja Católica, oficialmente há 16 dioceses, e somos cerca de 700 mil católicos.

Outra coisa é as oportunidades que uma pessoa tem dentro da sociedade, quando ela é de uma ou outra religião. Se você é um budista, você tem mais oportunidades de acessar um cargo público, ou você pode conseguir melhores posições. Ou, por exemplo, existe uma lei pela qual as mulheres budistas têm que pedir permissão à sua família, aos monges budistas e ao governo para se casar com um homem de outra religião. Mas dentro da oficialidade, pode-se dizer que sim. Na verdade, as religiosas nativas caminham sem nenhum problema vestindo o hábito pela rua.

Você é um missionário na Birmânia há 7 anos. Se a Igreja tem liberdade, porque você não pode se apresentar como tal? É por você ser um estrangeiro?

Não, não há problema com os estrangeiros. Embora eles não estejam acostumados, pouco a pouco há maior presença estrangeira no país. Na verdade, no aeroporto há anúncios dirigidos expressamente às pessoas que vêm de fora, nos quais dizem o que podemos ou não fazer, para que tenhamos um pouco de cuidado. As pessoas da rua são muito acolhedoras conosco. Eles, por serem budistas, têm a misericórdia muito presente. São muito acolhedores e dispostos a ajudar.

Então? Porque você não pode dizer que é um missionário?

O que não é permitido é a presença de missionários estrangeiros. Eles temem que haja algum tipo de doutrinação. Na verdade, os irmãos que são nativos, embora sejam reconhecidos como tal, oficialmente não podem evangelizar. Aqui quase não há conversões, o crescimento do cristianismo é dado principalmente pela natalidade.

Nós, aqui, não somos registrados como religiosos, temos um visto de negócios. Sim, existe um visto religioso, mas apenas para aquelas pessoas que vêm para ter uma experiência em um templo budista. No entanto, esta situação tem melhorado. Antes de dezembro 2016, nós tínhamos de deixar o país a cada 70 dias! Atualmente eles dão permissão para estadias mais longas.

Nós não contamos a ninguém que somos missionários. Quando as pessoas nos cumprimentam e perguntam, dizemos que somos professores, tradutores. Por isso eu não posso me identificar nesta entrevista.

Em que consiste a sua missão?

Minha congregação não é missionária por carisma, mas estamos em todo o mundo. Nossa missão é consolar, aonde se faça necessário. Educação, trabalho social, saúde. Fazemos o Cristo consolador ser presente.

Estamos aqui há 7 anos. No terceiro dia de nossa estadia, fomos visitar o bispo, atualmente cardeal. Ele nos levou a um bairro pobre, com um grande número de muçulmanos e hindus de raça indiana. O clérigo da paróquia nos acolheu. Começamos a visitar as famílias pobres, as pessoas idosas que vivem a sós. Rezávamos com eles e lhes levávamos a comunhão. Além disso, durante um ano, tivemos uma casa para acolher os jovens que vinham estudar na capital, graças às bolsas de estudos dos jesuítas.

Quando começaram a chegar jovens que queriam seguir o nosso carisma, nós tivemos de nos encarregar de sua formação. É muito importante que, quando se abre uma casa nova, e surgem vocações nativas, que elas tenham uma boa formação, para que sejam elas a trabalhar com mais liberdade de movimento e conhecimento de sua própria sociedade.

O que você está fazendo atualmente?

Há quatro anos mudamos de casa, e no ano passado começamos a dar aulas de Inglês para crianças do bairro. Todos são budistas. As crianças, ao verem os candidatos pela rua, pedem-lhes que os ensinassem. Então nós fizemos reformas na casa, para poder oferecer uma sala que servisse para ministrar aulas, onde as crianças vêm para aprender inglês e brincar. Queremos torná-la mais oficial. São famílias normais, com poucos recursos. Queremos oferecer-lhes a possibilidade de que seus filhos aprendam inglês e coreano - todos sonham em ir para a Coreia do Sul.

Por outro lado, temos contatos com empresas têxteis. Um fiel da paróquia nos dá roupas para as crianças. Então, nós vamos para as áreas mais frias do norte para doá-las aos mais pobres. Também doamos roupas em nosso bairro, para ficarmos conhecidos.

Qual é a contribuição da Igreja Católica para a sociedade birmanesa?

Nós sempre tivemos a consciência da necessidade de sermos testemunhas de paz, união e encontro. Por exemplo, na cidade de Mandalay, o berço do budismo, um missionário tem um grupo de ecumenismo, que une muçulmanos, budistas, protestantes e católicos. Além disso, ele mesmo subsidia um monastério budista, que acolhe 800 crianças, para alimentá-las e dar-lhes transporte.

De fato, a Igreja declarou este ano como o ano da Paz. O Cardeal Charles Bo escreveu uma carta para toda a Igreja e sociedade, convocando este ano - pouco a pouco se consegue mais liberdade para falar em público. Além disso, a Igreja Católica participou em encontros inter-religiosos de oração pela paz. Ao longo do ano houve quatro atos na rua que englobaram centenas de pessoas de todas as crenças para rezar pela paz no país. No último, nós nos sentamos em uma das milhares de cadeiras que foram colocadas na rua, e tínhamos ao nosso lado budistas.

Além de ser um sinal de paz e unidade, a Igreja pode exercer a caridade?

Sim, é feito muito trabalho social. Aqui, quase todos os religiosos têm uma "boarding house" (pensão ou abrigo). Não são orfanatos propriamente ditos, porque as crianças têm pais. Vivem com os religiosos e vão uma vez ao ano ver seus pais. Quase todas as paróquias também têm essas iniciativas. Os sacerdotes mantêm as crianças sob seus cuidados, para que possam ir à escola. Mas isso não é algo exclusivo da Igreja Católica. O mesmo se aplica aos mosteiros budistas.

No campo da educação propriamente dita, em 1962, o governo desapropriou a Igreja de todas as suas escolas e centros, e uma educação que não fosse a estatal deixou de existir. Mas agora, parece que recém foi liberada a possibilidade de fundar escolas infantis. Sei que algumas congregações estão se preparando para abrir creches oficiais em diferentes partes do país.

Também se trabalha muito no campo da AIDS. Existe uma organização da Igreja - a Myanmar Catholic HIV/Aids Network (MCHAN) -, que faz campanhas de formação, sem olhar para a religião. Além disso, ao nível da Caritas, a Igreja está em todas as dioceses, e se move muito bem, também nas áreas onde há refugiados.

E você pode realizar alguma tarefa de evangelização?

Em 2011, tivemos um encontro sobre a Nova Evangelização. Acolhemos religiosos, sacerdotes. Foi dito e assinalado que a Igreja na Birmânia foi passiva na evangelização, porque oficialmente foi impossível. Isso freou a criatividade. É preciso sair mais, para as áreas rurais, onde talvez seja um pouco mais fácil entrar.

Existem mais missionários na Birmânia?

Reconhecidos como tal não, mas eles existem – apenas de espanhóis somos cinco. Desde 2010, nos encontramos no grupo missionário ORLA (Overseas Religious and Lay Associates). Esta iniciativa surgiu de uma das congregações, que organizou jornadas de formação para seus próprios missionários estrangeiros e decidiram convidar outras pessoas. A experiência foi tão boa que, desde então, estamos compartilhando nossas dificuldades e experiências, para nos encorajarmos mutuamente através da reflexão e da formação, especialmente sobre a inculturação. Costumam participar umas nove congregações diferentes, mas há mais.

Planejando a visita do Papa. Como vocês estão se preparando? Você assistirá algum dos eventos?

Da parte da Igreja, estamos vivendo com muitíssima alegria. É algo histórico! A liturgia está sendo preparada com muito carinho. Na verdade, formou-se um coro de 200 pessoas que reúne religiosos, religiosas e seminaristas - a maioria. Entre eles há dois dos meus companheiros. Eu não posso ser parte da organização, porque sou estrangeiro. No entanto assistirei a Eucaristia.

Como as pessoas são pobres, e é muito caro viajar para a capital, a Igreja está fazendo muito esforço para que os fiéis possam participar dos eventos. O cardeal escreveu a todas as paróquias, dioceses, congregações e bispos, pedindo-lhes que se movam e ajudem aos fiéis para irem nos atos. Todos temos contribuído financeiramente para apoiar os deslocamentos. Os organizadores esperam cerca de 300 mil pessoas - é preciso levar em conta que existem quase 700 mil católicos. Os monges budistas também ofereceram suas instalações para acomodar os peregrinos.

Para acessar à missa foi feito um documento de registro. A inscrição foi feita através das paróquias, sempre com a assinatura do pároco, que dá a aprovação de cada peregrino. Foi-nos dado um cartão de identificação com um número. Além disso, foram produzidas algumas camisetas brancas e pretas com o logotipo da visita do Papa, e todos nós vamos colocá-las nos encontros com o papa.

A figura do papa é bem-vinda em todo o mundo, mesmo que o país não seja católico. Tenho certeza de que terá muita repercussão.

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