''O papa nos pede para 'habitar' a família, nas boas e nas más.'' Entrevista com Pierangelo Sequeri

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16 Novembro 2017

A Igreja e a teologia devem saber se equipar, também com novas linguagens, para “habitarem” a família, “nas boas e nas más”. É o que afirma o Mons. Pierangelo Sequeri, na véspera do Dies academus do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II.

A reportagem é de M. Michela Nicolais, publicada pelo Servizio Informazione Religiosa (SIR), 15-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Foi um ano rico em eventos e também em novidades particularmente relevantes para a estrutura da nossa instituição.” O Mons. Pierangelo Sequeri, na véspera do início do novo ano acadêmico, que será inaugurado no dia 16 de novembro, traça um balanço do seu primeiro ano como decano do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, começando pelo discurso do papa para a inauguração do último ano acadêmico.

Eis a entrevista.

Quais foram os pontos qualificadores do empenho que o papa pediu a vocês para o futuro?

Em primeiro lugar, trata-se da confirmação e da vitalidade da “clarividente intuição” do santo Papa João Paulo II, que quis fortemente uma instituição acadêmica especificamente dedicada à pesquisa e à formação. A validade dessa intuição, confirmada pelos “sinais dos tempos”, nos exorta a valorizar a “forma católica” do seu programa, que não quer se fechar nos limites estreitos de uma rígida ideologia escolar, mas coloca a melhor inteligência da fé à disposição da Igreja universal, equipando-a para o debate crítico, mas também ao diálogo e ao intercâmbio reflexivo, com as melhores expressões das tradições religiosas e da contemporaneidade cultural.

A nova conjuntura epocal atribui à teologia uma tarefa especial de esclarecimento e de motivação das verdades humana e cristã do projeto conjugal e familiar. A nova sensibilidade eclesial, por sua parte, também deve se encarregar disso, com uma inteligência mais generosa da fé que salva, da vulnerabilidade e da complexidade que caracterizam a história vivida e as passagens difíceis – muitas vezes realmente dramáticas – da sua implementação. A fé e a vida da Igreja, portanto, devem saber habitar a história familiar do homem, nas boas e nas más, sem abandoná-la ao seu próprio destino.

Como você julga o “estado de saúde” da família e do matrimônio?

Muitas dificuldades e desorientações que assediam a vida conjugal e familiar de hoje tornam difícil e muitas vezes doloroso o discernimento dos modos através dos quais a graça do amor de Deus sustenta o exercício das virtudes conjugais e familiares. Esse obscurecimento certamente é agravado por uma incerteza generalizada sobre a verdade e a sustentabilidade do vínculo – e geralmente dos laços – nos quais a condição conjugal e familiar do homem, da mulher e da geração podem florescer e amadurecer com alegria os seus melhores frutos. A hesitação e as reticências das instituições políticas, junto com a pressão da conformidade exercida pelas atuais dinâmicas sociais e culturais, em muitos casos, ajudam a agravar os efeitos dessa vulnerabilidade da condição familiar. A Igreja não pode se isentar da tarefa de compartilhar essa condição. E, longe de se distanciar, ela deve frequentá-la – e, de fato, habitá-la generosamente – com todo o amor, com toda a misericórdia e com toda a energia de que dispõe por parte do Espírito de Deus.

De que modo o Sínodo sobre a família e a Amoris laetitia devem orientar esse caminho?

O duplo evento sinodal dos bispos chamou vigorosamente a atenção dos fiéis, assim como de todos os homens e mulheres de boa vontade, para a dificuldade global de orientar o sentimento e o compromisso dos povos com o feliz cumprimento conjugal e familiar do amor íntimo e fecundo do homem e da mulher. A atenção especial que as comunidades cristãs devem dedicar ao anúncio evangélico e ao cuidado pastoral das virtudes conjugais e familiares foi relançada pela exortação apostólica Amoris laetitia, que marca, agora, com autoridade e, ao mesmo tempo, incisivamente, os conteúdos e o estilo com os quais a Igreja deve registrar o seu perfil ministerial e testemunhal. Certamente, a Igreja também deve ter uma teologia apropriada para a inteligência e a prática dessa caridade pastoral da fé.

Existe a necessidade de uma “atualização” no âmbito teológico?

Não há nenhuma dúvida sobre a necessidade de que o instituto reconheça a urgência de uma pesquisa e de uma formação teológica seriamente equipada para o debate com a amplitude da problemática antropológica que investe hoje sobre a relação do homem e da mulher no seu conjunto, com as suas profundas implicações sobre a visão do laço social e sobre as estruturas da convivência civil. A experiência da relação pessoal, em todas as suas formas, assim como os modos de viver a corporeidade, parecem ser interpretadas, moldadas e articuladas hoje de acordo com modalidades inéditas da liberdade e dos vínculos, sobre as quais incide fortemente a pervasividade da esfera econômica, técnica, jurídica que hoje modela as instituições e os costumes.

O discernimento moral, o debate inter-religioso, a dialética cultural impõem diretamente ao indivíduo problemas de orientação que estão em tensão com a candente oferta de novas possibilidades para a busca autônoma de realização pessoal, afetiva, espiritual da existência. Uma teologia inspirada no compromisso de sustentar com intelecto de amor a caridade pastoral da fé eclesial também será uma teologia mais bem equipada para a formulação de linguagens idôneas com a mediação cultural concreta e propositiva da sabedoria cristã que ilumina a vida.

O que muda com a Summa familiae cura?

Em primeiro lugar, trata-se de honrar a extraordinária confiança que nos é generosamente concedida. O Papa Francisco coloca a sua assinatura sobre esta refundação do instituto e, portanto, faz-se pessoalmente fiador do seu múnus de competência e de serviço para toda a Igreja. O papa não se limita a conservar o existente, mas deseja lhe abrir um futuro. Ele relança a intuição clarividente e a herança preciosa da sua primeira fundação como um tesouro que deve ser guardado e um talento que deve ser negociado. E nos confia pessoalmente a tarefa de modelar a nova constituição deste centro de estudos, de pesquisa e de formação, nos termos mais correspondentes às exigências do projeto pastoral que a Igreja pós-sinodal está comprometida, com autoridade, a construir.

O objetivo da Igreja é o de se equipar para habitar evangelicamente a realidade histórica das relações familiares, para iluminar a sua verdade e cuidar das suas fadigas em termos adequados à condição existencial em que os homens e as mulheres que lhe são confiados por Deus são chamados a viver. Corresponder a uma confiança tão grande e nos aplicarmos seriamente a essa tarefa de renovação serão, para nós, motivo de alegria e de dedicação sem reservas.

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