Fim do suspense: mal-estar subestimado levou Papa Luciani à morte

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06 Novembro 2017

Pela primeira vez, graças a uma investigação documentada, fascinante como uma investigação policial e precisa como uma pesquisa histórica, foram definitivamente esclarecidas as circunstâncias da morte de João Paulo I, que, em 1978, reinou por apenas 33 dias: pouco antes de jantar pela última vez, o papa teve um mal-estar, subestimado por todos.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por La Stampa, 04-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Chega às livrarias, no dia 7 de novembro, um livro baseado em documentos e testemunhos inéditos, que põe fim ao “suspense” sobre o falecimento do pontífice vêneto. Ele tem o prefácio do cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, e se intitula Papa Luciani. Cronaca di una morte [Papa Luciana. Crônica de uma morte] (Ed. Piemme, 252 páginas). Ele foi escrito pela jornalista Stefania Falasca, vice-postuladora da causa, que interrogou testemunhas até hoje nunca ouvidas, tendo acesso aos fascículos secretos da Santa Sé e aos registros clínicos.

Ir. Margherita

Ela se chama Ir. Margherita Marin, tem hoje 76 anos e, na época dos fatos, era a mais jovem das religiosas vênetas a serviço do papa. Foi ela que entrou, na madrugada do dia 29 de setembro de 1978, no quarto de João Paulo I, logo depois da Ir. Vincenza Taffarel, a idosa religiosa que, há mais de 20 anos, auxiliava Luciani.

É ela que testemunha, pela primeira vez, o que aconteceu nas horas anteriores à morte súbita do papa. É ela que desmente que ele estivesse cansado e quase esmagado pelo peso da nova responsabilidade: “Eu o vi sempre tranquilo, sereno, cheio de confiança, seguro”. É ela quem atesta que ele não seguia dietas particulares e comia o que os outros comiam.

Eis como João Paulo I passou as suas últimas horas de vida, na tarde do dia 28 de setembro: “Eu estava passando roupa no guarda-roupa com a porta aberta e eu o via passando para a frente e para trás. Ele caminhava no apartamento segurando as folhas que estava lendo... Eu lembro que, ao me ver passando roupa, ele também me disse: ‘Irmã, eu faço vocês trabalharem tanto... Mas não fique passando a camisa tão bem, porque está quente, eu suo e preciso trocá-la muitas vezes... Passe apenas o colarinho e os pulsos, porque o resto não se vê nada, sabe...”.

A cabeceira

De testemunhos cruzados, entre os quais está o do ajudante de quarto Angelo Gugel, esclarece-se o mal-estar que Luciani teve naquela noite, pouco antes do jantar, enquanto rezava com o secretário irlandês, John Magee. Um documento até hoje secreto, redigido nos dias posteriores à morte, fala a respeito. Ele foi escrito por Renato Buzzonetti, primeiro médico a ser chamado ao leito do papa morto. No detalhado relatório por ele dirigido à Secretaria de Estado no dia 9 de outubro de 1978, fala-se do “episódio de dor localizada no terço superior da região do esterno, sofrido pelo Santo Padre perto das 19h30 do dia da morte, que se prolongou por mais de cinco minutos, verificado enquanto o papa estava sentado e concentrado na oração das Completas com o padre Magee e que regrediu sem qualquer terapia”.

É um testemunho decisivo, porque foi recolhido no imediatismo da morte: a Farmácia Vaticana não foi aberta, e nem se avisou a Ir. Vincenza, que era enfermeira e que, justamente naquela noite, falou ao telefone com o médico que cuidava do papa, Antonio Da Ros, residente em Vittorio Veneto, sem fazer qualquer menção ao mal-estar.

Portanto, não foram administrados remédios a Luciani, nenhum médico foi chamado para verificações, apesar de o novo papa ter sentido uma forte dor no peito, sintoma do problema coronário que, naquela mesma noite, pararia o seu coração.

O Pe. Magee, no seu testemunho aos autos, contou que o próprio pontífice não quis avisar o médico. Buzzonetti só será informado a respeito no dia seguinte, diante do corpo estendido sobre a cama.

O achado

O livro de Falasca, graças aos novos testemunhos, revela algumas contradições nos relatos dos dois secretários particulares do pontífice. O Pe. Diego Lorenzi, o sacerdote orionino que tinha acompanhado Luciani desde Veneza, não estava presente no momento em que o papa teve o mal-estar na capela. E, na noite de 28 de setembro, logo depois do jantar, deixou o apartamento.

João Paulo I, atesta a Ir. Margherita Marin no depoimento aos autos da causa, decidira substituí-lo. Na manhã de 29 de setembro, não foram os secretários que encontraram o corpo do pontífice, mas sim a Ir. Vincenza e a Ir. Margherita. O papa não havia tocado no café que havia sido deixado para ele na sacristia às 5h15, e, assim, a Ir. Vincenza, depois de bater várias vezes na porta, entrou no quarto e disse: “Santidade, o senhor não deveria fazer essas brincadeiras comigo!”. A religiosa, de fato, era fraca de coração. “Depois, ela me chamou, saindo chocada”, conta a Ir. Margherita. “Então, eu logo entrei também com ela e o vi. (…) Eu toquei as suas mãos, estavam frias. Olhei e me chamaram a atenção as unhas um pouco escuras”.

As dúvidas dos cardeais

Entre os documentos inéditos no apêndice do livro, estão os registros clínicos, dos quais se pode ver que, ainda em 1975, durante uma internação, havia sido assinalado um mínimo de patologia cardiovascular, tratada com anticoagulantes e considerada resolvida.

E há também a nota com as perguntas que os cardeais, antes do novo conclave, querem dirigir, no mais total sigilo, aos médicos que lidaram com o papa por ocasião do embalsamento. Através da Secretaria de Estado, os purpurados perguntam se “o exame do corpo” permitia “excluir lesões traumáticas de qualquer natureza”; se havia sido confirmado o diagnóstico de “morte súbita” e, por fim, perguntam: “A morte súbita é sempre natural?”.

Dúvidas sérias e significativas: os cardeais não excluíam, a priori, a hipótese de uma morte provocada. Desmentida, ao contrário, pelos médicos.

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