A economia solidária representa um modelo viável em escala global?

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27 Outubro 2017

“Uma reflexão sobre a obra de Polanyi nos apresenta o desafio de postular outras formas de organização econômica da humanidade, ou como dizem seus principais adeptos, de pensar ‘Outra Economia’ que supere o paradigma da competitividade imposto pela civilização do capital e dos mercados globais”, escreve Fernando Marcelo de la Cuadra, em artigo publicado por America Latina em Movimiento (ALAI), 25-10-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Já há algumas décadas, o economista húngaro Karl Polanyi apontava que é possível pensar que existem formas de integração ou de funcionamento da economia que não se assentam necessariamente em instituições monetárias, baseadas no intercâmbio convencional, ou seja, que superem os movimentos de “mão dupla” que se produzem no espaço do mercado, o que representaria seu ‘locus’ por excelência. Desta maneira, Polanyi propôs algumas visões alternativas em relação àquela existente na economia capitalista, identificando nessa construção três princípios de distribuição diferentes do modelo de intercâmbio mediado pelo mercado e orientado ao lucro, a saber, a administração doméstica, a redistribuição e a reciprocidade. Segundo ele, na economia real podem coexistir dois ou mais princípios nos quais esteja presente, inclusive, o lucro monetário, ainda que sua presença não necessariamente deva representar o princípio dominante.

A importância destas formas para compreender a atividade econômica residiria em que elas não só possuem uma dimensão histórica, como também, além disso, ostentam uma expressão empírica demonstrável em atividades concretas realizadas pelas pessoas, o que demonstraria as limitações da perspectiva de Olson e seguidores, em relação ao lugar central ocupado pelo comportamento egoísta e a ação racional que os grupos e seus membros individuais teriam nas atividades desenvolvidas cotidianamente.

Especialmente, a noção de reciprocidade permite visualizar outros aspectos em torno dos quais se organizam as sociedades, já não baseadas unicamente na ideia de interesse e de concorrência entre as pessoas e as organizações, mas também ou sobretudo em torno de práticas de cooperação destinadas a preservar os laços sociais dentro e entre os diversos tipos de agrupamentos.

No caso latino-americano, é necessário considerar especialmente a prevalência de formas de econômica doméstica, visto o papel que tais formas de integração exercem na conformação de grupos e comunidades que inserem as atividades econômicas de produção e distribuição nas diversas formas de sociabilidade presentes na esfera local. Isso é especialmente significativo no caso daqueles países de cultura andina ou mesoamericana. Neste marco, tal como enunciado por José Luis Coraggio, a questão econômica substantiva se resolve como uma economia ‘natural’ ou comunitária, cujo sentido é assegurar a autossuficiência de todos os membros ou grupos que compartilham os meios de sustento, segundo regras e estruturas não estritamente econômicas.

Uma reflexão sobre a obra de Polanyi nos apresenta o desafio de postular outras formas de organização econômica da humanidade, ou como dizem seus principais adeptos, de pensar “Outra Economia” que supere o paradigma da competitividade imposto pela civilização do capital e dos mercados globais. Em outras palavras, é necessário passar de um paradigma centrado na competitividade e a posse de riqueza pecuniária para um modelo centrado nas energias e capacidades que surgem a partir das pessoas, no trabalho e na cooperação que abunda nas comunidades. Isso implica em que os diversos atores (pessoas, comunidades e instituições públicas) sejam capazes de construir novos espaços de cooperação, solidariedade e convergência que integrem o econômico no que verdadeiramente é: uma teia de relações de sociabilidade - de parentes, amigos e vizinhos no território -, que busca estabelecer vínculos equitativos e justos entre os diversos participantes do processo econômico e, desta maneira, inclinar-se para o bem-estar de todos. Tais tipos de práticas cooperativas, associativas e comunitárias são conhecidas com o nome de economia social e solidária.

Não obstante as premissas recém-expostas, também se mantém no ar o questionamento de se é possível existir efetivamente uma economia social e solidária que supere o âmbito local. Esta é uma pergunta que poderia ser respondida – e descartar quase automaticamente – com um não categórico. Para certas visões, a evidência acumulada até agora nos permitiria concluir que o conjunto de experiências que se sustentam em formas solidárias, cooperadas e autogeridas de conceber a atividade econômica, dificilmente podem transpor os limites do local. Pelo mesmo, é improvável que elas cheguem a se constituir em modalidades globais de funcionamento da economia e as sociedades contemporâneas.

Aceitar esta premissa sem mais, significa admitir que as sociedades e as pessoas possuem uma natureza imutável e que o estado de coisas com o qual nos deparamos cotidianamente seguirá seu próprio curso. A partir de outra tradição crítica a esta ideologia do ‘status quo’, Piotr Kropotkin, Marcel Mauss e Marshall Sahlins conseguiram demonstrar que, ao contrário, as comunidades humanas desenvolveram preferentemente estratégias de cooperação para poder enfrentar em conjunto a luta pela sobrevivência. Ou seja, nós, seres humanos, precisamos construir persistentemente laços de cooperação com os outros para enfrentar as vicissitudes da vida, desde as estruturas familiares e de parentes (lealdades primordiais) até comunidades mais amplas e complexas de colaboração.

Se admitirmos que a humanidade não está condenada à ação individual de pessoas que empreendem batalhas competitivas sem trégua, nas quais necessariamente se deve produzir uma solução do tipo “soma zero”, a perspectiva de dar uma guinada a esta narrativa não resulta tão ilusória. Então, o maior desafio desta guinada consiste em ir edificando um sistema multiescalar, no qual se articulem as diversas experiências que se originam em um plano local, para ir ascendendo a uma escala regional, nacional e global.

Embora seja correto que o horizonte de um sistema econômico solidário de alcance global seja visto como muito distante, cada vez são maiores as experiências que tentam construir zonas de intercâmbio e fluxos de bens e serviços que não se regem necessariamente pelo parâmetro de transações de equivalentes em mercados convencionais. Seus principais impulsionadores não foram nem os conglomerados políticos, nem as agências públicas, mas inúmeras associações e organizações de cidadãos, que se inspiram em experiências históricas (mutualistas, cooperativas, associações de autogestão ou cogestão) ou que conceberam novas modalidades de colocar em comum suas capacidades e desejos de se complementar solidariamente. São Bancos de tempo, de moedas alternativas ou sociais, caixas populares de poupança e crédito, mercados de troca, cooperativas de diferentes espécies (moradia, previdência, saúde, educação, saneamento, compra e venda), grupos de produção e consumo autogeridos, etc. É uma enorme constelação de experiências, muitas vezes dispersas, mas que podem ir convergindo em uma escala planetária, a partir de elementos comuns que as unem e que são suscetíveis de articular em organizações maiores.

São iniciativas que demonstram que a história da humanidade está cheia de milhares de esforços para se construir relações baseadas na cooperação, reciprocidade, solidariedade e busca do bem comum. Sua transformação em iniciativas que vão formando uma rede cada vez mais densa de relações e sinergias não só representa uma tendência desejável e urgente, como também é absolutamente possível em função dos repertórios culturais com o qual conta a humanidade para construir decididamente um futuro mais viável, justo e fraterno.

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