Por que Francisco foi rápido em responder às “dubia” do Cardeal Sarah?

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25 Outubro 2017

Visto a falta de inclinação do Papa Francisco em responder a seus críticos, pode parecer um pouco estranho por que razão ele rápida e publicamente respondeu ao Cardeal Robert Sarah sobre as implicações de suas decisões sobre as traduções litúrgicas. A natureza da postura de Sarah, a prontidão do papa em ser preciso e o seu investimento pessoal no tema podem todos ajudar explicar por que razão Francisco pareceu tão pronto a responder desta vez.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 23-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Para aqueles que estão acostumados a ver o Papa Francisco em ação, o que aconteceu no último domingo, quando o papa deu uma resposta pública ao Cardeal Robert Sarah, da Guiné, sobre a interpretação que este prelado fez do documento Magnum Principium e se este significa uma perda do controle vaticano relativo às traduções dos textos litúrgicos (Francisco insiste que sim), pode parecer uma surpresa.

Sarah é o prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Em um comentário sobre o Magnum Principium no começo do mês, ele minimizou as implicações relativas ao papel do Vaticano nas traduções, afirmando que o seu departamento poderia “impor” certas decisões.

Não é bem assim, disse Francisco a Sarah: “O processo de tradução dos textos litúrgicos relevantes (…) não deveria levar a um espírito de ‘imposição’ às Conferências Episcopais de uma dada tradução feita pelo Dicastério, pois isso lesaria o direito dos bispos sancionado no cânone”, escreveu ele.

Essa mudança de atitude e a resposta direta do pontífice podem parecer fora do padrão usual.

Afinal de contas, Francisco é um papa que disse, em entrevista em 2016, que “não perde o sono” com os críticos de suas decisões, e fez desta falta de engajamento com as críticas um princípio de seu governo. No caso mais famoso, ele nunca respondeu diretamente às cinco dúvidas, “dubia”, submetidas por quatro cardeais, entre eles o americano Raymond Burke, sobre o muito discutido documento sobre a família Amoris Laetitia.

Por que, então, poderíamos nos perguntar, Francisco foi rápido em responder, por si próprio, quase ponto a ponto, a interpretação que Sarah apresentou de Magnum Principium?

Há, pelo menos, três fatores em jogo.

Em primeiro lugar, os cardeais que submeteram as dubia sobre Amoris Laetitia não possuem autoridade oficial sobre a forma que aquele documento será implementado nas bases, ou interpretado em Roma. Nenhum deles, por exemplo, preside Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, departamento encabeçado pelo cardeal americano Kevin Farrell.

No caso de Magnum Principium, no entanto, Sarah é a principal autoridade litúrgica do Vaticano, presidindo o departamento encarregado de pôr em ação o citado documento. Se ele não estiver em sintonia com o papa, portanto, esta lacuna terá de ser, indubitavelmente, mais preocupante para o pontífice, quem claramente quer que a sua nova diretriz seja implementada fielmente.

(Dificilmente esta é a primeira diferença percebida entre Francisco e Sarah, e provavelmente ela reforçará a dúvida duradoura em alguns círculos sobre o porquê de o papa simplesmente não fazer uma mudança de pessoal. Aliás, tentar entender por que uma mudança assim nem sempre é a primeira reação deste papa levar-nos-ia longe demais aqui.)

Em segundo lugar, ao comparar Amoris com Magnum Principium, nós talvez estejamos lidando com níveis diferenciados de prontidão papal. Amoris, com a sua abertura polêmica à Comunhão aos divorciados e recasados no civil após um processo de discernimento, envolve uma transformação daquela que tem sido a disciplina oficial da Igreja.

Se esta transformação é um desenvolvimento orgânico ou uma ruptura permanece um tema para debate, mas, em todo caso, é algo novo, e divisões em torno dela ficaram abundantemente claros durante os dois Sínodos dos Bispos que o papa convocou em 2014 e 2015 para ajudar na modelagem do documento.

Talvez por isso é que Francisco tenha sentido que a Igreja precisa de certa experiência pastoral com a nova disciplina antes de ele poder despejar, em detalhes vinculantes, todas as suas matizes e implicações.

Quando se trata das traduções litúrgicas, no entanto, Francisco obviamente parece acreditar que já temos a experiência pastoral necessária, e que agora chegou a vez de apresentar o jeito como as coisas serão daqui para frente.

Francisco foi, afinal de contas, um bispo argentino e, mais tarde, cardeal durante as décadas de 1990 e 2000, no pico das “guerras litúrgicas” na Igreja Católica. Embora os países falantes de espanhol nunca se envolveram tanto nesses temas quanto os falantes de alemão e inglês, ele esteve bem ciente das discussões dos bispos ao redor do mundo sobre aquilo que consideravam uma concentração enorme de poder em Roma.

Lembro-me de ouvir vividamente os prelados japoneses, por exemplo, se queixarem, no final da década de 1990, de que as traduções cuidadosamente ponderadas estavam sendo rejeitadas ou modificadas pela congregação litúrgica vaticana, onde, não é preciso dizer, ninguém falava japonês, de forma que as decisões estavam sendo feitas por “consultores” sem nome em algum lugar, tendo precedência sobre os juízos oficiais de toda uma conferência dos bispos.

Francisco é um profundo fiel das conferências episcopais, moldado em parte por sua experiência dentro do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho – CELAM. Ao longo dos anos na Argentina, ele também teve as suas discussões com aquilo que considerava um vaticano demasiado intervencionista, com algumas de suas decisões sujeitas a questionamentos ou suas recomendações sendo descartadas.

Visto tudo isso, pareceria que, neste caso, Francisco não iria ver a necessidade de mais experiência por alguns anos. Para ele, já é hora de lançar um novo modo de ser.

Em terceiro lugar, podemos estar lidando com níveis papais diferenciados de intensidade sobre um determinado tema.

Em Amoris Laetitia, Francisco diversas vezes manifestou irritação com o foco estreito dado no debate em torno da Comunhão, inclusive sugerindo que ele lidou com a questão no citado documento apenas em uma nota de rodapé para enfatizar que acredita haver temas muito maiores quando se trata de encarar a problemática da família neste começo de século XXI.

Eis como se expressou em uma coletiva de imprensa ano passado:

Quando convoquei o primeiro Sínodo, a grande preocupação da maioria dos mass-media era esta: poderão receber a comunhão os divorciados recasados? E isto, dado que eu não sou santo, deu-me um pouco de fastídio e até de tristeza. Porque penso: Mas aquele mass-media que diz isto e aquilo, não se dá conta de que o problema importante não é este? Não se dá conta de que a família está em crise em todo o mundo? E a família é a base da sociedade! Não se dá conta de que os jovens não se querem casar? Não se dá conta de que a queda da natalidade na Europa dá vontade de chorar? Não se dá conta de que a falta de trabalho e as oportunidades de emprego fazem com que o pai e a mãe assumam duplo trabalho, e as crianças crescem sozinhas e não aprendem a crescer em diálogo com o pai e a mãe? Estes são os grandes problemas!

Quando se trata das tradições litúrgicas e de quem manda em quem, Francisco pode muito bem acreditar que este não é assunto para uma nota de rodapé, mas sim de um evento principal. Ele claramente se vê como um papa do Concílio Vaticano II, e enxerga aquilo que chamou de “descentralização salutar” na Igreja como um elemento central para uma aplicação adequada da herança conciliar.

Consequentemente, talvez Francisco não esteja tão propenso a se irritar quando as pessoas questionam as suas decisões nesse fronte, pois, conforme ele vê a coisa, pelo menos elas não estão ignorando o que é essencial.

Estas três considerações podem não acrescentar muito a uma explicação completa, mas talvez pelo menos deem base para se pensar por que razão desta vez Francisco não ficou somente na vontade, mas de fato viu-se pronto a responder as dubia de alguém.

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