México. "Minha vida (em risco) pelos migrantes”. Entrevista com Alejandro Solalinde

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24 Outubro 2017

Alejandro Solalinde é um sacerdote mexicano, Prêmio Nacional de Direitos Humanos de 2012 e fundador, em Ixtepec (Oaxaca), do refúgio Hermanos en el camino para os migrantes centro e sul-americanos que arriscam suas vidas para alcançar os EUA no trem conhecido como "A besta".

A entrevista é de Fabrizio Lo Russo, publicada por Il manifesto, 21-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Que balanço faz dos 10 anos desde o nascimento do abrigo?

Positivo. Fizemos progressos na presença política, na ajuda humanitária e na proteção aos migrantes. Temos continuado a mostrar os problemas dos migrantes, e a Igreja também precisou se envolver cada vez mais nesta década. Agora temos seis abrigos em Oaxaca, Veracruz, Toluca e Cidade do México. E já são 10 anos que no México está ocorrendo uma guerra ao narcotráfico. Chegamos a um clímax do crime organizado também com a participação de funcionários públicos de alto nível, como por exemplos os dois últimos governadores de Veracruz, Duarte e Herrera, que são verdadeiros chefões criminosos, personagens corruptos que cismaram com os migrantes, favorecendo os sequestros. Muitos testemunhos de migrantes e, inclusive, de traficantes dos Zetas falaram sobre isso.

As políticas de migração do México são condicionadas pela pressão americana. Eles nos pedem para controlar o "quintal de sua casa" e o fluxo migratório, mas, infelizmente, fazemos isso de forma equivocada, usando armas, pistolas taser e de atordoamento para torturar migrantes e obrigá-los a dizer de onde eles vêm. Nós documentamos tudo e é brutal o papel do Instituto Nacional de Migração (INM) em detenções e deportações, e no que eles chamam de alojamentos, ou seja, verdadeiras prisões. O governo se submete aos EUA, este é o verdadeiro problema, mas é muito vigorosa a resposta das organizações sociais e dos abrigos.

Um migrante dorme na capela da casa para os migrantes fundada por Solalinde em Ixtepec, localizada a poucos passos da estação do trem de carga chamado "A Besta", usado por migrantes centro e sul-americanos para atravessar o México de sul ao norte. Esta foto de Mauro Pagnano é parte de uma foto-reportagem publicada no ‘il manifesto’ em 27 de janeiro deste ano, sob o título "O sueño americano dos migrantes. Uma viagem bestial”

Com Trump piorou a situação?

É claro, a migração para os EUA diminuiu em cerca de 40%. Dos restantes 60%, 25% tentam e conseguem, 25% são derrotados e retornam, mas metade permanece no México e tenta ganhar a vida enquanto espera que mude a situação. Não há uma política de acolhimento para eles, mas acredito que o México deporte com zelo cada vez maior as pessoas para a América Central, sabendo que está enviando-as para condições desumanas e perigosas.

Após os terremotos de setembro houve muita solidariedade, mas também tensão entre o governo e as brigadas populares de socorro. Por quê?

O governo mexicano é sempre superado pela solidariedade das pessoas. Está preocupado em sem mal visto, como aconteceu, por sua inércia e sua ineficácia. As pessoas sabem que não podem contar com o governo, que é corrupto e demagógico, insensível às necessidades de seu povo. Tantos jovens foram às ruas para ajudar, passou-se da intolerância à solidariedade, e não só em relação às ajudas. Alguns edifícios novos, inclusive construídos com a autorização dos governos, desmoronaram e outros antigos ficaram de pé: isso se chama corrupção, e está bem claro para as pessoas. Os partidos, mas principalmente o PRI (Partido Revolucionário Institucional, atualmente no poder, ndr), tomam decisões não porque se preocupem com o sofrimento da população, mas porque querem ganhar votos para as eleições presidenciais de 2018.

Como está Juchitan, cidade próxima ao abrigo de Ixtepec e entre as mais atingidas?

Fiquei monitorando a situação desde os primeiros momentos e posso dizer com orgulho que tivemos brigadas de migrantes que ajudaram em Juchitan, Cidade do México e Morelos. O primeiro terremoto danificou um prédio do nosso abrigo, mas o do dia 19 tornou-o inabitável e agora estamos em tendas. Isto me faz pensar apenas em uma coisa: somos migrantes, a vida é efêmera, os edifícios não duram para sempre, mas devem ser feitos para que sirvam às pessoas e preservem a vida.

Após as ameaças que recebeu, teme por sua vida?

O livro I narcos mi vogliono morto (Os narcos me querem morto) também foi publicado na Espanha, com o título Uma vida em risco. A situação é delicada, mas tudo isso não é novo. Tenho repetidamente denunciado as ameaças recebidas aos meios de comunicação, e agora com os livros queremos mostrar ao mundo o que acontece com os migrantes, a conivência do crime organizado com o "crime autorizado".

Calculamos que existam 10-11 mil migrantes desaparecidos no México e o Movimento Migrante Mesoamericano conta cerca de 70 mil. O Instituto 'criminal' da Migração é um exemplo concreto. Eu não estou dizendo que o INM mexicano esteja usando de maus tratos, afirmo que tem um viés de delinquência com conhecimento de fatos e provas, porque denunciamos casos gravíssimos, mas, infelizmente, há uma cumplicidade do governo, não há separação dos poderes, o presidente é um centralizador que controla tudo e até mesmo o Ministério Público tem se prestado a essas injustiças. Apresentamos uma denúncia após a outra, mas não são verificadas.

Por que vocês são incômodos para o governo e os cartéis?

Porque entram no meio negócios e dinheiro. Os migrantes são mercadoria para eles. Se você defende os direitos humanos, apresenta denúncias e protege as vítimas, atrapalha os negócios. Eu tenho a sorte de ainda estar vivo, mas existem 106 ativistas de direitos humanos vítimas de assassinato, assim como muitos jornalistas, como você sabe, que no México foram assassinados. Estamos em perigo, mas quem tem consciência vai lutar enquanto estiver vivo.

O que você pensa da Itália, aonde muitos políticos dizem “vamos ajudá-los na casa deles", uma clara exibição de xenofobia?

É verdade, mas a Itália tem uma vantagem, por exemplo, sobre a Espanha, por causa da presença de um papa como Francisco, muito empenhado na defesa dos migrantes, e estão construindo muitos movimentos sociais. A questão migratória é global. A migração forçada é causada pelo sistema capitalista neoliberal e passa pelo norte geopolítico, EUA e Europa, que saquearam e dividiram o Sul. Parece-me que, entre os vários países, a Itália tenha mais esperança graças às caravanas migrantes e às redes de solidariedade que são tecidas. A sociedade civil está na linha de frente.

O padre Alejandro Solalinde está na Itália para uma turnê de divulgação da autobiografia (com prefácio de dom Ciotti) "I narcos mi vogliono morto. Messico, un prete contro i trafficanti di uomini" (EMI), um livro denúncia escrito em parceria com a jornalista Lucia Capuzzi.

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