Dívida das famílias e perda de patrimônio pela elevação do nível do mar nos EUA

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21 Outubro 2017

"Uma em cada oito casas na Flórida ficaria subaquática, sendo responsável por quase a metade do valor da habitação perdido todo o país. A Flórida perderia quase um milhão de residências e seria o estado mais afetado dos EUA. O valor médio de uma casa em risco de ser debaixo d’água é de US$ 296.296. O valor da casa média dos EUA é de US$ 187.000. Portanto, o valor médio do patrimônio está abaixo do valor médio da dívida das famílias", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 20-10-2017.

Eis o artigo.

“É triste pensar que a natureza fala e que o ser humano não a ouve” Victor Hugo

Os Estados Unidos (EUA) são o país mais rico do mundo (quando medido em dólares de mercado) com Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 19,4 trilhões e renda per capita de US$ 52,3 mil, em 2017. A China (o primeiro país quando medido em poder de paridade de compra é o segundo quando medido em dólar de mercado) tem um PIB de US$ 11,8 trilhões e renda per capita de US$ 8,5 mil, em 2017. Portanto, a renda per capita americana é mais de 6 vezes a renda per capita chinesa em dólares de mercado e cerca de 4 vezes em poder de paridade de compra.

Porém, toda essa riqueza americana e de suas famílias está ameaçada pelo aumento da dívida e pela elevação do nível do mar.

A dívida total dos EUA (governamental e privada) é de US 41 trilhões, o que significa que cada família deve, em média, US$ 330 mil, segundo artigo de Snyder (26/07/2017). Segundo o autor, vivemos na maior bolha da dívida na história. Em 1980, a dívida total do governo e do setor privado nos Estados Unidos estava pouco acima da marca de US$ 3 trilhões, mas hoje ultrapassou os US$ 41 trilhões de dólares. Isso significa que aumentou quase 14 vezes desde que Ronald Reagan foi eleito presidente pela primeira vez. Isso representava US$ 38,5 mil por família e esse número representava 79% da renda familiar média em 1980. Hoje, a dívida média das famílias já representa 584% do rendimento familiar médio. Ou seja, a dívida é muito maior do que o patrimônio.

Para piorar a situação, milhões de pessoas que possuem domicílios na orla litorânea estão ameaçadas pela elevação do nível do mar. Vão ficar com suas hipotecas, mas sem um teto para morar. Evidentemente, isto vai gerar uma grande crise no setor privado que vai rebater no setor público. Acontece que os EUA já são o país mais endividado do mundo, com uma dívida total de mais de 200% do PIB. Ou seja, milhões de famílias vão perder suas casas mas vão ficar com as suas dívidas e sem poder contar com um governo endividado que terá poucas condições de ajudar.

A imobiliária americana Zillow publicou recentemente uma análise com base na estimativa de que o aumento do nível do mar poderia subir 1,8 metro. Neste cenário, cerca de 2 milhões de lares americanos seriam inundados até 2100, um fato que deslocaria milhões de pessoas e resultaria em perdas de propriedades na casa das centenas de bilhões de dólares. Cerca de 300 cidades dos EUA perderiam pelo menos metade de suas casas, e 36 cidades dos EUA seriam completamente perdidas.

Uma em cada oito casas na Flórida ficaria subaquática, sendo responsável por quase a metade do valor da habitação perdido todo o país. A Flórida perderia quase um milhão de residências e seria o estado mais afetado dos EUA. O valor médio de uma casa em risco de ser debaixo d’água é de US$ 296.296. O valor da casa média dos EUA é de US$ 187.000. Portanto, o valor médio do patrimônio está abaixo do valor médio da dívida das famílias.

Reportagem de Anne Mulkern (21/07/2017) mostra que a elevação do nível do mar já está afetando a maioria das cidades litorâneas da Califórnia. Mostrando uma cidade ao norte de San Diego, a jornalista constata que a faixa de areia da praia está encolhendo, e a maré alta está se aproximando. Ela entrevistou Kim Fletcher, um morador que testemunhou a transformação do local, pois seu avô materno comprou mais de 10 hectares de propriedade à beira-mar em 1946 e construiu casas e vendeu lotes. Naquela época a areia seca da praia era abundante. Fletcher diz que existiam vários equipamentos na praia, mas agora não há mais espaço, pois trata-se de uma praia diferente. Na maré alta já não existe a praia e as ondas chegam no paredão da casa, agora protegido por pedras que tiram espaço da praia. Em alguns momentos de ressaca, a água salgada já invade a propriedade.

A prefeitura discute alternativas com os moradores da cidade. Mas não há consenso, pois enquanto os proprietários litorâneos tentam salvar seus patrimônios a população tenta salvar a praia e as áreas públicas comuns. Mas o fato inexorável é que não há dinheiro suficiente para conter o avanço do mar e o prejuízo será socializado.

A Flórida será um dos estados mais afetados pelo aumento da temperatura e pelas inundações causadas pelo aumento do nível do mar. Na tarde do dia 03/08/2017, uma chuva torrencial encharcou partes de Miami e Miami Beach. De quatro a sete centímetros de chuva, em poucas horas, provocaram inundações e engarrafamentos extensivos. Os carros flutuavam nas calhas, e os vizinhos ajudaram a empurrar motoristas encalhados pela rua. Os carros estacionados em estradas inundadas passaram na vigília enquanto caminhões maiores e SUVs passaram. A água não tinha para onde ir quando a chuva mais pesada surgiu enquanto a maré estava subindo. Não conseguiu drenar até que as marés começassem a diminuir as horas depois. Este problema se agrava nas luas cheias, conhecido coloquialmente como “King Tides”.
Mas, à medida que o nível do mar continua se elevando, a linha de base aumenta e as inundações (tanto de água doce como de água salgada) tornam-se cada vez mais comuns. E os prejuízos patrimoniais sobem. Essa é a nova realidade da área litorânea dos Estados Unidos.

Os prejuízos com os furacões Harvey, Irma, Maria e Nate (além de Kátia, José, Lee, Ophelia, e os tufões Talim e Doksuri na China) são mais um capítulo da desvalorização patrimonial de várias localidades americanas. O nível de emprego nos EUA caiu no mês de setembro 2017 (a primeira queda em anos), em decorrência do menor nível de atividade provocado pelos eventos climáticos danosos. A cidade de Nova Orleans, que foi duramente castigada pelo furacão Katrina, em 2005, voltou a ser abalada, em menor proporção, nos dias 08 e 09 de outubro de 2017 (50 anos da morte de Che Guevara) pela tempestade tropical Nate.

Artigo de E. Rush (15/09/2017), mostra que as mudanças climáticas estão transformando terras idílicas em terrenos inóspitos para a vida, especialmente nas regiões costeiras. Porto Rico, por exemplo, que já sofria com a crise econômica, está se tornando um território inabitável depois dos estragos provocados pelos eventos climáticos extremos de setembro de 2017.

No dia 20 de janeiro de 1961, quando os EUA eram uma potência global cada vez mais forte, o presidente John F. Kennedy, do alto de sua estatura política, disse a famosa frase: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”. Mas famílias endividadas e sem patrimônio não poderão ajudar ao país. Os EUA são uma nação em declínio relativo e têm um presidente controverso, de estatura política rasa, de linguajar medíocre e que é contra o Acordo de Paris. Neste quadro, parece que a única alternativa à vista é: “salve-se quem puder”!

Referências:

Michael Snyder. Total Government and Personal Debt in The U.S. Has Hit 41 Trillion Dollars (US $329,961 per household), 26/07/2017 

Krishna Rao. Climate Change and Housing: Will a Rising Tide Sink all Homes? Zillow, 02/08/2016 

Anne C. Mulkern. A rich town’s choice: Protect its homes or save the beach? E&E News, 21/07/2017 

Elizabeth Rush. Harvey and Irma are the new normal. It’s time to move away from the coasts. Washington Post, 15/09/2017 

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