Depoimento no Vaticano sugere que cardeal teve participação em crime financeiro

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04 Outubro 2017

O empresário italiano Gianantonio Bandera disse a um tribunal vaticano nesta segunda-feira que o Cardeal Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado sob o comando do Papa Emérito Bento XVI, teve participação na produção dos arranjos que levaram às reformas de seu apartamento que, em última instância, conduziram a acusações de crimes financeiros. No caso, Bertone não está sendo acusado e nunca foi considerado suspeito.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 03-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Embora ainda haja muitas perguntas sem respostas em torno de um processo no Vaticano por apropriação financeira indevida, uma coisa parece cada vez mais certa com base nos depoimentos ouvidos até agora por um painel de três juízes: o cardeal italiano Tarcisio Bertone, apesar de nunca ter sido acusado ou sequer considerado suspeito, esteve intimamente envolvido na elaboração dos acordos no interior do caso.

Na segunda-feira, 2 de outubro, os juízes ouviram de Gianantonio Bandera, empresário italiano cuja construtora – hoje falida – foi pessoalmente escolhida por Bertone, ex-secretário de Estado sob o comando do Papa Emérito Bento XVI, para realizar as obras de reforma no apartamento de 4.200 metros quadrados de Bertone no Vaticano.

Os dois réus, Giuseppe Profiti e Massimo Spina, são ex-funcionários do hospital Bambino Gesù, em Roma, mantido pelo papa. Eles são acusados de violar o estatuto da fundação que administra ao usarem aproximadamente 500 mil dólares de seus fundos para pagar as reformas do apartamento no Palazzo San Carlo, no Vaticano, o que foi aprovado por Bertone em 2013 depois de ser substituído pelo Papa Francisco como secretário de Estado.

Desde o começo, Profiti tem insistido que não houve nada de errado com os gastos, já que o objetivo era criar um espaço para recepções e eventos no apartamento que a fundação planejava usar para fins arrecadatórios.

Parte da acusação é que Profiti e Spina desviaram o dinheiro para Bandera, cujas empresas na época estavam com problemas financeiros. Bandera disse na segunda-feira que se encontrou com Bertone pela primeira vez em 1991 ou 1992, quando o futuro secretário de Estado era o bispo de Vercelli, diocese ao norte da Itália.

O depoimento de Bandera sugere que Bertone teve participação nos arranjos entre Profiti e ele próprio.

Bandera contou aos juízes que Profiti o chamou na primeira quinzena de setembro de 2013, dizendo que havia falado com Bertone e que o cardeal entraria em contato. Mais tarde, Bertone telefonou, disse ele, e ambos marcaram uma reunião, momento em que Bertone lhe contou que queria que a empresa de Bandera realizasse o trabalho de reforma.

“Ele queria uma residência bastante normal, com acomodações medianas”, disse Bandera em depoimento que durou mais de quatro horas, embora Bandera também tenha dito que o salão particular de Bertone no apartamento é “um pouco maior do que o normal”. Bandera ainda falou que se voluntariou para conseguir um desconto no custo do serviço.

Em 22 de setembro, os juízes ouviram de um funcionário do governo do Estado da Cidade do Vaticano, que geralmente lida com projetos de construção civil no território vaticano. Segundo ele, um tal envolvimento pessoal por parte de um cardeal na escolha de uma empresa era “anômalo”.

Marco Bargellini, leigo responsável pelos projetos de construção dentro do governo do Estado da Cidade do Vaticano, disse que, em geral, os projetos que custam mais de 50 mil euros exigem um processo competitivo de licitação com, pelo menos, três empresas qualificadas envolvidas, com os seus orçamentos registrados. Nesse caso, disse Bargellini, Bertone submeteu os planos de reforma e escreveu diretamente para o seu companheiro, o cardeal italiano Giuseppe Bertello, chefe do governo da cidade-Estado, informando-o quem estaria realizando o projeto.

Perguntado na segunda-feira por que achava que era a fundação do Bambino Gesù – e não o governo do Estado da Cidade do Vaticano aparentemente quem estava a coordenar a obra –, Bandera disse que “nunca me fiz essa pergunta”, e contou que a impressão que teve era a de que Bertone estava pessoalmente mantendo o governo informado sobre a obra, que, por sua vez, estava sendo supervisionada por uma irmã religiosa que faz parte de seu agregado familiar.

Bandera também disse que nunca, realmente, teve algum contrato formal para o trabalho no apartamento de Bertone, mas simplesmente “uma troca de emails”.

Conforme descrito por Bandera, a sua empresa era em grande parte a responsável pela obra dentro do apartamento, enquanto o governo do Estado da Cidade do Vaticano era o responsável pelo exterior, incluindo um terraço espaçoso e painéis solares sobre o telhado, além das áreas comuns do edifício. No entanto, acrescentou, o governo fez algumas solicitações sobre o interior que acabaram aumentando os custos, tais como pedir que os planos para o aquecimento do local usando as aberturas no andar fossem abandonados em favor do costume italiano tradicional de radiadores nas paredes.

Muito embora tenha sido amplamente reportado que a empresa cobrou a fundação e o governo pelo mesmo serviço, o qual na verdade jamais foi finalizado, Bandera insistiu que isto não ocorreu sob a sua supervisão. Em abril de 2014, disse, ele não era mais o encarregado da empresa, que já se encontrava em liquidação judicial como parte dos procedimentos de falência.

Em outras decisões desta segunda-feira, os juízes deram ao governo do Estado vaticano até a tarde de quarta-feira para apresentarem todas as ordens e contratos relativos à reforma do apartamento de Bertone. Em resposta a uma solicitação da defesa, eles também concordaram em ouvir o depoimento oral de duas testemunhas que haviam pedido para não comparecer no tribunal.

Uma é Mariella Enoc, presidente atual do Bambino Gesù, que pediu para não comparecer diante dos juízes porque já havia submetido o seu depoimento por escrito. O outro é Tommaso Di Ruzza, diretor da Autoridade de Informação Financeira do Vaticano. O presidente deste órgão, o especialista antilavagem de dinheiro suíço René Brülhart, escreveu aos juízes pedindo que Di Ruzza não fosse obrigado a comparecer por motivos diversos.

Os depoimentos de Enoc e Di Ruzza devem ser os dois últimos a serem ouvidos pelo tribunal, o que é um sinal também de que o veredito sairá em breve. Se condenados, Profiti e Spina poderão ficar de 3 a cinco anos na prisão, além de pagar uma multa de 50 mil euros.

Em muitos ambientes de dentro da Igreja, este julgamento é tido como um raio-x de onde o esforço do Papa Francisco se encontra no sentido de promover uma reforma completa das finanças vaticanas na direção da responsabilização e transparência. A maioria das questões críticas aqui voltam-se ao porquê Bertone foi isolado de responsabilidade no caso, enquanto dois leigos envolvidos estão sendo processados.

É particularmente importante ao Vaticano mostrar um progresso nessa área, já que em dezembro estará a enfrentar uma avaliação intermédia pela Moneyval, agência antilavagem de dinheiro do Conselho da Europa. A última vez que realizou uma revista no Vaticano, o órgão elogiou as novas leis adotadas por Francisco contra a prática de crimes financeiros, porém disse que queria vê-las aplicadas.

Receber uma avaliação positiva da Moneyval é fundamental para entrar na “lista branca” mundial dos atores financeiros virtuosos, o significa custos transacionais reduzidos relacionados aos riscos percebidos, um menor perigo de ter as contas congeladas e um acesso maior aos mercados financeiros.

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