A crise do padre. O medo de "perder o centro"

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03 Outubro 2017

Padre Francesco Cosentino, 38 anos, é sacerdote desde 2005, da Diocese de Catanzaro-Squillace, professor e diretor de retiros espirituais e encontros, atualmente funcionário da Congregação para o clero e professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. Apaixonado pelo discurso sobre Deus, publicou numerosos trabalhos sobre este assunto.

O artigo é publicado por Settimana News, 27-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Prossegue a reflexão sobre a crise do padre abordada para o Settimana News por Dom Francesco Cosentino, presbítero da diocese de Catanzaro-Squillace, oficial da Congregação para o Clero e professor na Pontifícia Universidade Gregoriana.

A partir da interessante resposta que o vigário geral da diocese de Liège (Bélgica), Alphonse Borras, vale a pena retomar os três elementos que teriam como denominador comum o "medo" e que, de fato, impedem uma releitura da identidade presbiteral e, ainda mais, uma verdadeira reforma do ministério. Trata-se do tradicionalismo, do eclesiocentrismo e do clericalismo.

O padre "que está no centro"

O primeiro, afirma Borras, é "o medo de enfrentar com confiança o presente". Eu acrescentaria, para ser mais completo, que se trata também do medo do futuro que, em termos cristãos, não é um futuro desconhecido, mas a realidade do Reino que vem de encontro, desafiando os nossos padrões estabelecidos e exigindo a nossa continua "conversão pastoral", bem lembrada na Evangelii gaudium. Afinal, o cristão vive sempre um pensamento e uma prática que se "projetam" para o futuro, identificável com o próprio Deus. Quem é prisioneiro da "saudade do ontem," elimina a dimensão escatológica da fé e se torna mais rígido.

O eclesiocentrismo é "o medo de enfrentar a presença no mundo (...) medo de entrar em diálogo com o hoje". Sim, e eu considero que esse medo tenha gerado um modelo e um estilo de Igreja que já são sobrecarregados e ultrapassados, incapazes de ler e interpretar as novas sensibilidades contemporâneas. Por medo de ser demasiado acomodados com o mundo, acabamos por nos entrincheirar dentro de uma realidade rígida protegida que, na verdade, não existe. Assim, a Igreja permanece uma cidadela na defensiva, amedrontada e, conforme a necessidade, agressiva. Parafraseando o teólogo beneditino Elmar Salmann, mesmo quando se oferece uma aparência de novidade, na Igreja persiste e resiste certo "ressentimento anti-moderno".

Por fim, o clericalismo. Borras afirma que é "o medo dos leigos, o medo de perder o poder, o medo de ser questionado ou por novamente em questão". O Papa Francisco tem muitas vezes denunciado isso como sendo "um mal que fustiga e afasta o povo de Deus".

Esses três grandes medos, gerando um modelo específico de Igreja, invocam e promovem também uma figura de padre. É o padre "que está no centro".

Considero que esse seja o ponto focal da crise atual do padre e – por consequência - de determinadas impostações pastorais e eclesiais: nos desvios indicados, bem como em outros modelos de fé e de Igreja, o padre deve sempre estar no centro: para defender um espaço para exercer poder, para dominar as consciências ou por alguma outra razão. Ele permanece, mesmo quando todas as intenções são boas, o centro da ação pastoral e eclesial: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,8) dizia Jesus. Ele falava isso de si mesmo, não dos padres!

"Muito", mas "não mais"

Hoje, a figura do sacerdote vive, na realidade, uma situação de passagem, que coloca em evidência a "crise", abre novos cenários de esperança e de reforma. Baseia-se em um paradoxo que, principalmente nas Igrejas do velho continente, subsiste: o padre ainda é "muito no centro" e, ao mesmo tempo, o padre "não está mais no centro".

Isso acontece porque, na atual configuração das igrejas e paróquias - mais jurídica que real - continua a desempenhar um papel predominante e, consequentemente, recebe uma infinidade de pedidos e continua a ser o catalisador de todas as necessidades das pessoas; ele ainda resume em si todo o ministério da Igreja, sofrendo também por certa "solidão pastoral", pelo fato de não poder compartilhar com ninguém os percursos de formação e os projetos pastorais. Os leigos, mesmo os melhores, são "força de trabalho", mas, fora isso, "não é possível pedir-lhes nada mais". Por trás dessa queixa frequente, existe na realidade a nossa grave culpa por não ter formado um laicato maduro e não ter promovido uma co-responsabilidade nos ministérios eclesiais.

Por outro lado, o padre não está mais no centro, por causa de uma mudança profunda que afeta a sociedade e a cultura, e que vai no sentido de um general descristianização, ou pelo menos, uma relevância e incidência do papel da Igreja e da religião cada vez menor, portanto também da sua figura.

Estamos expostos a um paradoxo nada simples. O padre que continua obsessivamente no centro sabe das muitas coisas a fazer, as suplências a atender, o ritmo de vida acelerado; ele encontra-se acossado entre os compromissos da pastoral e o grande volume de missas a ser celebradas (quando repensaremos também isso?) e, além disso, em contextos muitas vezes descristianizados ou fragmentados, onde parece cair no vazio boa parte desse esforço. Assim, ele experimenta sentimentos de desconforto que podem resultar em caídas emocionais, na despersonalização de quem "não se sente padre" ou "não se sente bem da forma como vive e com o que faz", no cansaço físico e psíquicos no esgotamento das próprias energias internas.

Onde está o centro?

O desafio é um só: descentrar-se. O pastor, afirmou o Papa Francisco em sua homilia por ocasião do Jubileu dos sacerdotes, "está sempre em saída de si. O epicentro do seu coração está fora dele: é um descentrado de si mesmo, centrado unicamente em Jesus. Não é atraído pelo seu eu, mas pelo Tu de Deus e pelo ‘nós’ dos homens".

Isso significa que é preciso repensar teológica e pastoralmente o papel do presbiterado, encontrando o "centro" na própria especificidade: o que significa ser um padre em uma comunidade? Quais são as coisas realmente essenciais e importantes na missão do padre? Qual é o específico ministério presbiteral?

O Concílio Vaticano II tinha tentado desenhar uma Igreja ministerial e de comunhão. O sonho foi mil vezes repensado, acalentado e obstruído. Seria injusto afirmar que é uma aposta perdida, porque, no final, não há leigos "capazes de"; o verdadeiro problema é que não quisemos assumir o esforço - obviamente enorme - que o Concílio nos havia confiado: a formação dos leigos. Onde isso aconteceu, hoje existe um laicato de valor e de presença, e os exemplos são muitos.

Ser padres é remeter para o único "centro": Jesus Cristo. Ele é o bom Pastor do rebanho. E, em vez disso - vamos dizê-lo com todas as letras - a figura de um padre que ainda está em nossa cabeça, e que os Seminários formam, é ainda individualista e verticalista.

Implicações pastorais

A descentralização e o compartilhamento da missão teriam claras implicações pastorais: o ministério sacerdotal seria relativizado, despojando o ministro tanto do perigo mundano do poder e do autoritarismo, como da ansiedade que ele acumula ao se sentir o centro de tudo e o solucionador dos problemas; o exercício do ministério, além disso, iria incentivar e motivar uma forma de agir eclesial mais ampla, em que a responsabilidade é estendida para todos os batizados, o que resultaria em ritmos de trabalho menos duros, unidade na ação pastoral e crescimento nas relações fraternas.

Tudo isso coloca em crise alguns modelos eclesiais e pastorais centrados principalmente no eficientismo do padre; como observou ironicamente Greshake, "nunca antes organizou-se tanto no âmbito do cuidado das almas, nem nunca, como hoje, foram organizados tantos cursos pastorais ou se teve à disposição tanta literatura teológica, nem nunca, por fim, foram oferecidas tantas ajudas ou sugeridas tantas estratégias pastorais. No entanto, apesar de todo esse esforço, obtemos indubitavelmente cada vez menos sucesso"(G. Greshake, "O ministério sacerdotal de uma igreja em transformação", em Rivista del clero italiano 1 (2010), p. 16).

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