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26 Setembro 2017

O Congresso ocorrido em Bose, sobre o "Dom da Hospitalidade", mostrou a origem da concepção cristã para com o estrangeiro, que pede para ser acolhido, na espiritualidade das Igrejas Ortodoxas. Forneceu antídotos contra um identitarismo anti-imigrantes, mas também contra as "síndromes egoístas" de um ativismo a procura de aplausos.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 10-09-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Sempre convém pedir ajuda aos Padres do primeiro milênio cristão para se compreender o que está acontecendo no momento presente da Igreja. Sempre se encontram tesouros inimagináveis que permitem escapar das armadilhas da propaganda, reconectando-se às fontes e documentando de onde nasce a originalidade do olhar cristão sobre os acontecimentos do mundo. Mais uma vez, a Comunidade Monástica de Bose dedicou ao "Dom da Hospitalidade" a sua XXV Conferência Ecumênica Internacional sobre Espiritualidade Ortodoxa, há pouco concluído (6-9 de setembro), que também teve a participação de Bartolomeu, Patriarca Ecumênico de Constantinopla. No mundo das barcaças e dos campos de refugiados, dos corredores humanitários e das vigílias de oração anti-imigrantes, as relações e intervenções da Conferência ofereceram inúmeras e valiosas ideias para escrutinar os "sinais dos tempos". 

Cristãos, aqueles "sem-pátria"

A fonte do olhar cristão ao estrangeiro que pede para ser acolhido foi imediatamente apresentada por Theodoros II, Patriarca grego ortodoxo de Alexandria, que também falou sobre a Europa "prisioneira do terror e do aturdimento” diante das ondas de refugiados: "O outro, o estrangeiro, é o próprio Cristo. Na pessoa do outro, do estrangeiro, encontro o próprio Cristo. O outro é a minha salvação, e da relação que tenho com ele depende minha entrada no reino dos céus". A misteriosa identificação de Cristo com o estrangeiro que pede abrigo é sugerida pelo próprio Jesus no Evangelho ("Eu era estrangeiro e me acolhestes"), e nutre sugestivas orações da liturgia bizantina: também no doxastikon do Ofício das Laudes do Sábado Santo, José de Arimatéia, com estas palavras, suplica a Pilatos que lhe dê o corpo de Cristo: "Dá-me este estrangeiro, exilado desde a infância como estrangeiro no mundo. Dá-me este estrangeiro, a quem seus irmãos de raça, por ódio, mataram como estrangeiro".

Cristo é o "primeiro forasteiro", o Senhor que "se fez estrangeiro por nós", aquele que "nasceu longe da sua terra, passou alguns anos como refugiado no Egito e não teve moradia fixa durante seu ministério terreno". E a Tradição Ortodoxa sempre saboreou o "estrangeirismo" (Xeniteia) como um sinal distintivo da condição dos cristãos no mundo, como já indicado na carta de Diogneto, falando de cristãos que "vivem em sua terra natal, mas como estrangeiros; participam de tudo como cidadãos, subordinados a tudo como estrangeiros". Como cristãos – recordou em seu discurso Marcus Plested, professor de Patrística Bizantina em Milwakee, "nunca estamos completamente ‘em casa’ neste mundo. Aqui não temos uma cidade permanente. De certa forma, todos somos estrangeiros".

Mosteiros-hospedarias e monges itinerantes

O Congresso foi organizada pela Comunidade Monástica de Bose. E, exatamente os mosteiros -, sublinharam muitas intervenções -, sempre foram portos de refúgio para os viajantes, forasteiros e sem moradia fixa repararem-se dos ventos.

Quando em 613 depois de Cristo, os persas invadiram a Palestina, - lembrou o Patriarca Theodoros –, as igrejas e os cristãos de Alexandria do Egito abriram-se para acolher refugiados e perseguidos", aplicando as palavras de João Crisóstomo: "A nossa casa seja uma pousada aberta para todos", e ainda: "Não te ordeno matar um bezerro, mas dá o pão para quem tem fome, uma roupa para quem está nu, um teto para quem é estrangeiro".

Mesmo nas convulsões do tempo presente, entre guerras e migração em massa, muitos mosteiros em todo o mundo, de Taizé a Mar Elian, na Síria, abriram suas portas para quem procurava ajuda. O dever da hospitalidade pode, às vezes, esmagar a vida da comunidade monástica. Mas já no século IV, o monge Evágrio Pôntico lembrava que uma das principais formas pelas quais os demônios perturbam a tranquilidade do asceta é insinuar o pensamento de que o acolhimento dos hóspedes é um incômodo. E acrescentava que a hospitalidade é algo que nunca se oferece o suficiente: "Não acolhamos os irmãos como se lhes fizéssemos um favor, mas hospedemo-los suplicando para que aceitem o convite, como se fôssemos nós os devedores".

Desde os primeiros tempos do cristianismo foram surgindo formas singulares de vida espiritual, exatamente a partir da figura do "estrangeiro-viandante", vista como um modo privilegiado de implorar tudo da graça de Cristo. A tradição de "monges errantes" refloresceu na Ortodoxia Russa, em toda espiritualidade relacionada com as histórias do Peregrino russo, e também na experiência dos "Stanniki", andarilhos orantes da Rússia pré-revolucionária, narrados em Bose pela professora Vera Shevzhov. A Igreja e também diversos mestres do monaquismo olharam, muitas vezes, com desconfiança para as experiências espirituais ligadas ao erradio incessante, que, de acordo com Epifânio de Salamina, acabavam “dominadas pelo erro" e induziam a posturas místicas patológicas, que teriam seu melhor antídoto em "uma boa dose de trabalho duro". Mas é interessante notar - como fez a professora Shevzov em seu relatório - que, na época de Pedro, o Grande, a elite russa, iluminada e ocidentalizada, pensando também nos "Stanniki", acusava o cristianismo Ortodoxo de fomentar e perpetuar a miséria com sua predileção pelos pobres e suas práticas caritativas e de acolhimento dos viandantes.

Crisóstomo e os ‘agit prop’ das "guerras entre pobres"

Nos Padres da Igreja Oriental encontram-se também respostas definitivas à propaganda daqueles que, ainda hoje, repreendem párocos e leigos de ajudarem os estrangeiros em detrimento dos "pobres de casa": “Se, à tua porta bater alguém que fadiga fazer frente às suas necessidades", escrevia São João Crisóstomo, "não diga: é meu amigo, é da minha linhagem, ele me beneficiou no passado, enquanto o outro é um estrangeiro, de outra raça, um desconhecido ... Se julgas de modo disforme, nem tu receberás misericórdia. Oferece ao teu irmão tanto quanto ao estrangeiro: todos são da mesma raça, são irmãos, todos são filhos de um mesmo Pai”.

Acolher ao estrangeiro é apenas um sinal de que o amor ao próximo, conforme o Evangelho, não pode ser instrumentalizado por ideologias identitárias e pseudo-patrióticas: "Se somos todos estrangeiros, todos forasteiros, e se tudo o que temos vem de Deus", observava, no Congresso de Bose, Chrysostomos Stamoulis, professor de teologia dogmática em Salônica, "então todas as oportunidades para oferecer hospitalidade devem ser acolhidas com zelo e gratidão. Mas, mais uma vez, deve ser lembrado que o amor e o cuidado que oferecemos ao estrangeiro que está em meio a nós, nós o oferecemos ao próprio Cristo". Por isso, depois do que Jesus diz no Evangelho sobre sua identificação com o "estrangeiro", o amor ao estrangeiro (philoxenía), "longe de ser uma reconfortante fonte de virtude, da qual esperamos uma recompensa, é, em tais descrições, uma "necessidade urgente e terrível".

A "Síndrome egoísta" de certos "benfeitores"

Exatamente a fonte evangélica do acolhimento ao estrangeiro representa também o único antídoto verdadeiro contra posturas "bonistas" de quem, pervertendo o dinamismo próprio da caridade cristã, pode transformar esta prática humanitária em um pretexto de autocelebração. Stamouilis, em sua intervenção, desmascarou a falsa dialética entre "um cristianismo extático, idealístico e, definitivamente ideológico, que ignora a história, a natureza e até mesmo o próprio homem", e o estéril ativismo eclesial-clerical "às vezes, asceta, que ignora a dimensão sacramental da Igreja e se identifica indiscriminadamente com qualquer coisa que satisfaça sua hipocrisia psicológica". As duas patologias eclesiais do idealismo espiritualista e do ativismo pseudo-caritativo parecem opor-se, mas, na realidade, estão unidas pela comum “exclusão” do outro, do "estrangeiro" e, inclusive, do "estrangeiro por excelência", que é o próprio Cristo: "O Cristianismo estático, sem sua carne histórica e natural", observou Stamoulis, "evidentemente ignora o próximo; mas o mesmo ocorre com o cristianismo ativista, "onde a relação com o outro se torna "o lugar da manifestação das síndromes egoístas do benfeitor e salvador, da superioridade exercida filantropicamente, simplesmente como exercício".

A própria hospitalidade monástica com aqueles que chegam em buscar conforto espiritual, pode transformar-se em uma desonesta ferramenta de autoafirmação, quando aquele que acolhe não vive somente da graça e da caridade de Cristo. Elisseos Simonopetritis, Hegúmeno do mosteiro de Simonopetra, no Monte Athos, em sua contribuição enviada para Bose lembrou: "Não há tentação mais sutil para o monge do que aquela que ele enfrenta quando alguém vem lhe pedir conselhos. Deve estar muito atento diante da paixão de dirigir os outros em nome da vida espiritual", porque ele não é um "mestre da sabedoria", que trafega com carismas e manipula almas. A verdadeira missão do monge é retirar-se em Cristo, como precursor, sua morada está escondida em Deus, e é lá que ele recebe seu hóspede".

O escárnio do mundo

A generosidade para com os estrangeiros foi imediatamente reconhecida pelos críticos pagãos do cristianismo como um traço conotativo da novidade cristã. Já no segundo século, Luciano de Samósata ridicularizava os cristãos precisamente por sua magnânima generosidade em relação aos necessitados. Para Luciano, era absolutamente ridículo gastar dinheiro e energia desse modo insensato. No século IV, Juliano, o Apóstata, indicou o amor aos estrangeiros (philoxenía) como uma das principais razões para o crescimento e propagação do cristianismo no mundo antigo: "Não são talvez a filantropia em relação aos estrangeiros, o cuidado de enterrar os mortos e a simulada austeridade da vida que aumentaram especialmente o ateísmo?" escrevia Juliano para desmascarar os instrumentos com os quais se tinha imposto aquela fé, que lhe parecia uma sacrílega negação da religião antiga. Assim, mesmo hoje, quem ataca padres e leigos como réus, por "acolherem" estrangeiros, manifesta claramente o fatal eclipse da memória cristã na vida real da sociedade de hoje. Mesmo quando erguem cruzes e ícones marianos nas patéticas quermesses anti-imigrantes encenadas em frente às igrejas.

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