México. O terremoto de 2017 e o fim dos tempos

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21 Setembro 2017

“Os sentimentos milenaristas do fim do mundo no Ocidente seguem intactos. Tornaram-se uma obsessão masoquista, quase patológica. Os comportamentos sociais podem ser perigosamente alterados”, adverte Bernardo Barranco V, especialista em assuntos eclesiásticos no México.

“A ira de Deus se move entre a comercialização do milenarismo, a insatisfação do real e o desejo de mudanças profundas. Eu fico com a solidariedade dos mexicanos patente neste novo sinistro. Espero, como em 1985, que toda esta energia cidadã contagie as espessuras quase inamovíveis do político e do social”, manifesta-se, ao tentar traduzir o sentimento do povo mexicano frente ao recente terremoto e suas duras consequências.

O artigo é publicado por La Jornada, 20-09-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O sismo de magnitude 7.1 irrompeu com brutal intensidade no centro do país. Meus livros, objetos e prateleiras caíram de forma brusca. Tudo se movia com violência inaudita e os segundos pareciam eternos. Por alguns momentos pensei que tudo se arrasaria, a cidade ficaria em destroços e eu entre eles. Voltam as imagens de perplexidade, dor, incredulidade e rostos de pânico de 1985. Mas, também a solidariedade, milhares de pessoas buscando sobreviventes, cooperando para remover pedra sobre pedra entre os escombros na esperança de vida. Cenas comovedoras de triunfo coletivo quando se resgatava uma vítima que nos confirma que a generosidade cidadã não foi um acidente em 1985. Apesar do México ter se degradado, desde então, e muitas de suas arestas terem se decomposto, prevalece a magnanimidade do voluntário por apoiar de maneira desprendida ao desamparado, ao que necessita de ajuda de maneira urgente e determinante.

Cidade do México, a casa de todos, nosso abrigo, sofre novamente um severo trauma causado pela natureza. De maneira inaudita, o terremoto de ontem que teve impacto furioso coincide justamente com o mesmo dia 19 de setembro, a 32 anos do sismo de 1985. Casualidade?, questionam-se muitos nas redes.

Há semanas, circulam tanto nas redes sociais, como em comentários nos meios de comunicação, interpretações dos recentes eventos da natureza em chave catastrofista. Como sinais fatais do fim do mundo. Há alguns dias, uma conhecida, Martha, testemunha de Jeová, advertia-me que acontecimentos insuspeitos recairiam em nossa realidade. Uma espécie de advento do desastre. Os fatos aí estão: um eclipse no hemisfério norte, os devastadores furacões Irma, Katia, José e, anteriormente, Harvey, que açoitou o Texas. O terremoto do dia 7 de setembro e, agora, este do dia 19 do mesmo mês.

Há certos coletivos, mesmo igrejas, cujo estado de ânimo coletivo verte no sentido do fim do mundo. Supostos especialistas em Novo Testamento advertem ter descoberto que no Evangelho segundo São Lucas aparece uma tremenda profecia no capítulo 21, versículos 25 e 26, onde se apresenta a seguinte advertência narrada pelo próprio Jesus Cristo: Então haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas, e na terra a angústia das pessoas, apavoradas com o barulho do mar e das ondas; desmaiando os homens pelo temor e a ansiedade das coisas que acontecerão na terra; porque as potências dos céus serão abaladas.

Este apocaliticismo moderno nos adverte acerca da intervenção da ira de Deus. Tais concepções catastrofistas não são nada novas, aparecem e reaparecem de tempo em tempo. No entanto, mostram sobretudo como a sociedade ocidental construiu seu ethos sobre as noções do apocalipse, do fim do mundo e do fim da história. Aos sinais da natureza haveria que acrescentar os sinais atuais da natureza humana. Uma potencial guerra nuclear ante o atrevimento norte-coreano, o Oriente Médio continua se radicalizando no conflito sírio e o Estado Islâmico prossegue com sua guerra psicológica de atentados na Europa e no norte da África. Vladimir Putin adverte sobre os riscos de uma catástrofe global, que contrasta com a voz arrebatadora de Donald Trump na ONU, que ameaça a Coreia do Norte, Irã e Venezuela.

No campo cultural, há uma fascinação extravagante pelo fim civilizatório. Abundam os maus augúrios, as profecias catastrofistas e pregações apocalípticas. No México, vivemos isto várias vezes, com a epidemia do vírus A/H1N1, em 2009, as profecias maias interpretadas pelos antropólogos russos sobre o fim do mundo, em 2012, entre outras.

A origem milenarista nos remonta às investigações do historiador medievalista Georges Duby, que narra em seu livro O Ano Mil como na Europa a arte e a literatura se impregnaram do macabro, assim como a multiplicação das imagens trágicas do confronto com a agonia e danças da morte. O milenarismo primigênio invadiu o espírito medieval. Duby descreve a anarquia apocalíptica em que as sociedades do século X caem. Os costumes e os hábitos morais são relaxados, inclusive se abandona o interesse em aprender frente à iminência do fim dos tempos. O contexto do momento apresentava sinais evidentes da catástrofe iminente. As pestes e epidemias açoitaram as mais remotas regiões da Europa, a influência islâmica aumentava com força beligerante e militar e invadia com fúria a Europa, sobretudo no Mediterrâneo. O cristianismo se dividia em duas grandes tradições: a romana e a bizantina ortodoxa do oriente. O universo romano não havia acabado de se transformar. Os terrores e arquétipos do fim do milênio eram congruentes com um mundo dividido e açoitado pelo caos.

Os sentimentos milenaristas do fim do mundo no Ocidente seguem intactos. Tornaram-se uma obsessão masoquista, quase patológica. Os comportamentos sociais podem ser perigosamente alterados, por exemplo, a mãe de Adam Laza, perpetrador do massacre de Connecticut, era prepper ou preparacionista, ou seja, se alistava para sobreviver o fim do mundo em 2012. No milenarismo, a ideia do fim do mundo é um estado de ânimo. Por um desejo profundo pela mudança como sinal de insatisfação e desencanto. Por isso, o neoapocaliticismo é também concebido como o desejo de mudança profunda e radical do real. Do aqui e agora. A morte de tudo para que ressurja a vida plena.

Recupero uma ideia do falecido Ignacio Padilla, que em seu livro de 2009, intitulado La industria del fin del mundo, disse o seguinte: “A própria ideia de catástrofe sempre sugere uma mudança por mutação. A dor e o horror que conduza a tal mudança resultarão sempre atraentes e gerarão sacudidas e movimentos... em nossas desencantadas coletividades. Deleitamo-nos na vertigem milenarista e a procuramos porque a vontade de morte produz uma força ativante que nos faz sentir vivos”.

A ira de Deus se move entre a comercialização do milenarismo, a insatisfação do real e o desejo de mudanças profundas. Eu fico com a solidariedade dos mexicanos patente neste novo sinistro. Espero, como em 1985, que toda esta energia cidadã contagie as espessuras quase inamovíveis do político e do social.

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