“Precisamos tirar a paz da política na Colômbia e mostrar que é um ideal desejado por Deus”. Entrevista com Francisco de Roux

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12 Setembro 2017

A preparação da visita do Papa Francisco é muito cautelosa para não exacerbar as profundas discrepâncias existentes na sociedade. Não há uma liderança que possa prever um futuro para o país, mas é necessário ter esperança, e o Papa pode dá-la com sua mensagem de fraternidade e de confiança uns nos outros. Portanto, “o que o Papa avançar na dimensão do perdão cristão será de grande importância, porque este último [o perdão cristão] ultrapassa a reconciliação”.

Essas são as linhas gerais da entrevista realizada com o padre jesuíta Francisco de Roux, colombiano, facilitador da paz em seu país, que trabalha em articulação com o Centro de Pesquisa e Educação Popular (CINEP) e que chegou a oferecer a sua liberdade em troca da libertação de um ex-congressista colombiano, no contexto da guerrilha com as Forças Armadas Revolucionárias (FARC).

O padre De Roux faz um exame profundo e extremamente claro da situação colombiana atual e da incidência da visita do Santo Padre Francisco para a reconstrução da paz e do tecido social do país.

A entrevista é de Griselda Mutual, publicada por Rádio Vaticano, 08-09-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O Papa Francisco chega à Colômbia em plena implementação do processo de paz, para dar uma mensagem de esperança, mas também um alento para dar o primeiro passo: o primeiro passo para o perdão, o primeiro passo para a reconciliação. Qual é a relevância da visita do Papa neste momento de “pós-acordo” de paz na Colômbia?

A visita do papa é imensamente pertinente e muito oportuna no momento que a Colômbia está vivendo. Na realidade, criou-se uma expectativa muito grande. No começo, em alguns setores (minoritários) que se opõem ao processo de paz, houve desconfianças e até hostilidades. Mas com o passar dos dias, o que sentimos na Colômbia é que a confiança e o entusiasmo pelo que significa a visita do Papa Francisco e, em geral, pelo que significa ter uma vez mais a visita do Pontífice.

A necessidade desta visita é muito grande, porque o país vive fraturas muito profundas, uma vez que acabamos de concluir o processo com as FARC e ainda há muitas perguntas sobre o que será o futuro, e muitas vítimas esperam que o Papa lhes traga conforto e a possibilidade de saber que de agora em diante será possível aprofundar a convivência e acabar com a violência entre nós na Colômbia.

Como você disse, a sociedade está vivendo uma ruptura após 60 anos de guerras internas, de conflitos armados. Há uma discrepância e uma ruptura na sociedade civil. Você pode nos dar um panorama do que está acontecendo nas diversas regiões?

É uma pergunta muito importante. As rupturas que existem na sociedade colombiana têm a ver com as regiões e com a história. Sobre isso gostaria de fazer um esclarecimento: neste momento da chegada do Papa o problema não é a disputa com as FARC e o processo específico que se realizou com elas; esse processo está concluído. As FARC já se constituíram em um partido político e entregaram as armas. Quem acompanhou de perto as FARC sabe que no grosso do grupo e em seus dirigentes há uma decisão irreversível na condição total de não voltar à guerra. O problema não está ali. Claro, há uma série complexa de dificuldades para colocar em prática acordos, mas a paz com as FARC está consolidada.

O problema fundamental é o problema da ruptura entre os colombianos que é muito, mas muito profunda, e tem, evidentemente, diferenças regionais, em um país que tem muitas culturas regionais e muitas sensibilidades regionais, que divide profundamente este país. A questão da paz, a questão de qual será o futuro imediato com as eleições que vêm, e em algum momento inclusive a questão da vinda do Papa, ficou envolvida nesta grande ruptura que faz com que, quando se toma esses temas na mesa de conversa das famílias, nas conversas de amigos, nas conversas empresariais, imediatamente os confrontos podem chegar a níveis bárbaros: as famílias se dividem, as amizades acabam, as empresas familiares se rompem. O Papa, com sua capacidade de liderança, que ultrapassa todas essas coisas, pode trazer uma mensagem que nos permita superar estas realidades.

Para explicar isso de forma compreensível, estou certo de que estamos vivendo um momento de profundo trauma social – como é definido na Sociologia –, e me explico: o trauma se dá porque o país em muitas regiões e em todos os lugares foi atingido pela barbárie da guerra. Existe muita dor e muita raiva, mas existem também muitas memórias maravilhosas. Esse golpe mudou a Colômbia. A Colômbia é outra depois da guerra vivida, o que também está relacionado com os tempos da violência na década de 1950, e isso está no fundo do terror na Colômbia.

Mas a causa do trauma não está aí. O que causa o trauma são os relatos que sobre esse terrível golpe foram feitos. Os relatos que são manipulados pelos grupos que têm o poder de controlar a opinião pública, de manipular o sentido da sociedade. São relatos muito fortes e muito contraditórios. Relatos que também são manipulados pelos grupos armados que tinham que constranger as pessoas a pensar de uma maneira e não de outra. Esses relatos são muito duros, e são eles que destroem o tecido social e rompem a possibilidade de vivermos em uma comunidade nacional com um sentido de “nós” – “nós colombianos” –, porque se trata de relatos muito excludentes e extremamente duros, em que o outro não tem lugar e nos quais o outro não pode ser acolhido.

O bonito da vinda do Papa é que pode nos ajudar a superar isso e a nos colocar no entendimento de que aqui temos que ser irmãos uns com os outros. Unidos por Deus, para falar na linguagem do Papa, na beleza deste território com um destino comum para construirmos juntos uma nação. É, sobretudo, nesse sentido que muitos esperariam que com suas palavras, com seus gestos, com suas expressões simbólicas, que são tão eloquentes, nos ajude a captar esse “nós” que perdemos.

Qual é a importância da dimensão do perdão neste processo de diálogo, de compreensão e de escuta do outro, neste momento tão difícil, mas também “cheio de esperança” na história da Colômbia?

A pergunta me parece muito importante, porque nós, de alguma forma, no processo com as FARC em Havana tivemos um caminho ou um processo de reconciliação política em que as FARC pediam algumas coisas e lhes eram concedidas outras, sempre e quando elas concediam outras. Por exemplo, elas diziam: “nós pedimos que nos deixem participar da política” e o Estado dizia: “sim, é possível, mas vocês devem entregar as armas”. As FARC pediam: “mas nós não queremos ser presos”, e então o Estado dizia: “sim, mas vocês devem se submeter a uma justiça especial na qual precisam dizer a verdade e restaurar as vítimas”. Dessa maneira foram se fazendo ajustes de uma “conciliação”, que produz aquilo que em latim se chama de quid pro quo, isto é, uma coisa por outra: vocês entregam estas coisas e nós concedemos isto, mas exigimos essa outra. É um processo em que simplesmente se busca “parar” a guerra.

Agora entramos em um processo muito mais complexo, já podemos falar isso, da construção da paz. Na Colômbia, o perdão é absolutamente necessário. Em muitos processos de paz no mundo bastou haver um processo de conciliação e de reconciliação política: aqui não. Aqui, os ódios são muito profundos, assim como os apetites de vingança, isto é, as exigências do “olho por olho”. Uma senhora, depois que teve seu marido sequestrado por cinco anos, e que mais tarde foi morto, me dizia: “enquanto não fizerem sofrer a esses... das FARC a mesma coisa que eles fizeram sofrer a mim e à minha família, eu não quero nada com eles e não os perdoo”. É neste contexto que o perdão cristão na Colômbia assume um papel muito importante.

Bastaria ser o perdão cívico, que é o perdão civil. A virtude civil do perdão é para que possamos ter um futuro, abandonemos o ódio e o apetite por vingança. Isso vai nos curar, vai nos curar de uma verdadeira doença social; é saudável para o país e para cada pessoa individual deixar para trás os ódios: esse é o perdão cívico.

Mas penso que o Papa pode falar claramente à Colômbia do perdão cristão, porque as tradições cristãs na Colômbia são muito profundas, assim como no México. Nisso nos parecemos com o México, Espanha, Polônia, Itália. E aqui a vibração pela tradição cristã é muito forte.
 
Agora, como todos sabem, o perdão cristão baseia-se em que todos e todas fomos perdoados por Deus. Ele nos deu o perdão gratuitamente antes mesmo de pedi-lo. Ele sabe que falhamos muitas vezes e que vamos falhar novamente e, no entanto, nos perdoa. E este é um país em que todos temos as mãos sujas, e quero ser muito claro, todos somos responsáveis pelo que aconteceu na Colômbia. São responsáveis os políticos, os presidentes da República, os membros do Congresso, os membros da Igreja. Todos são responsáveis pelo que aconteceu, pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer. Penso que – sobretudo para nós que temos uma responsabilidade religiosa – o pecado da omissão é uma realidade. E o pecado da omissão é o que Jesus mais condena na parábola do juízo final: “afastem-se de mim malditos. Vão para o fogo eterno, porque eu estava com fome e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar” (Mt 25, 34-36).

Nós tivemos muitas omissões e precisamos perdoar e ser perdoados. É assim que os elementos do perdão cristão se encaixam aqui muito profundamente, e o Papa sabe disso.

Perdão, é importante repetir, não significa que esquecemos o que aconteceu. Pelo contrário, significa que vamos manter a memória viva das coisas terríveis que aconteceram justamente para que nunca mais voltem a acontecer e para compreender que assumimos a responsabilidade sobre tudo o que aconteceu.

Perdão não significa deixar sem reparar as vítimas. Pelo contrário, implica uma decisão muito grande de curar as dores não somente moralmente, mas também materialmente.

Perdão não significa que não haja justiça: por isso se faz a justiça especial para a paz em que os algozes, como parte da sentença, têm que trabalhar para reparar as pessoas que sofreram por culpa deles.

O que perdão significa e é no que o Papa nos precisa ajudar é que nos decidimos a depor os apetites por vingança, desterramos do coração os ódios, e a necessidade de fazer sofrer o outro na medida em que nos fez sofrer, o olho por olho, dente por dente.

Significa coisas muito profundas de que nós temos necessidade na Colômbia: receber a pessoa que nos fez mal e dizer a ela que estamos dispostos a nunca lhe fazer o mal, nem aos paramilitares, nem aos membros das FARC, nem aos políticos que nos fizeram mal, e isso porque estamos dispostos a perdoá-los. Dizer que estamos dispostos a acolhê-los em nossa sociedade, e que eles podem realizar os seus projetos entre nós. E já, mais a fundo, pulando para o âmbito cristão, ao que nós fazemos no perdão cristão, dizer-lhes que estamos dispostos a ser seus amigos, que vamos construir a caridade e a colocar o amor acima de todas as coisas e, finalmente, a apostar tudo, como faz Jesus na cruz, quando estava diante de seus algozes, quando poderia ter feito o grande discurso contra os perpetradores dos crimes, contra os grandes torturadores, e, no entanto, Jesus disse diante deles apenas o seguinte: “Pai, Deus misericordioso, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”.

É isso que esperamos do Papa, e é uma mensagem em que pode nos ajudar muitíssimo em um momento em que a Colômbia precisa de gestos de perdão.

Quero dizer que isso vem acontecendo. Vimos as FARC pedindo perdão em Bojayá, e terminar dizendo depois desse massacre em que morreram 73 pessoas por uma bomba das FARC: “viemos aqui para reconhecer que somos responsáveis e pedir perdão. Oxalá, alguém de vocês nos perdoe”.

Ouvimo-los dizer a mesma coisa na igreja de São Francisco, em Cali, a famílias dos deputados do Valle del Cauca que foram assassinados por eles; vimos como o comandante das FARC disse: “nós os matamos, nós os tínhamos em nossas mãos, nós os matamos, somos responsáveis e pedimos perdão”.

Vimo-los pedir perdão às 193 vítimas do Forte Nogal e 33 mortos, onde compareceram para dizer: “nós aceitamos a plena responsabilidade como Secretariado Executivo das FARC, nós fizemos isso e aceitamos não apenas a responsabilidade de fazer reparação moral, mas de fazer reparação material”.

Estes atos precisam se multiplicar na Colômbia e acontecer em todo o país, e supõe realmente uma conversão do país. Por isso, a vinda do Papa precisa estar acompanhada de muita oração para que cheguemos na sinceridade do coração a transformá-la em uma verdadeira “metanoia”, como se diz em grego, isto é, uma profunda mudança interior.

Na reconstrução deste tecido social cabe destacar a importância do diálogo e da comunicação: saber “comunicar” o perdão. Qual é o perdão que a Igreja católica desempenha nesse sentido e qual é a responsabilidade social dos meios de comunicação em geral?

O meu sentimento é que a Igreja, nesse ponto, foi muito clara, não apenas porque tem claro o que significa o perdão profundo na forma como o Evangelho o faz, mas também pela própria prática da Igreja em todos os lugares. Contudo, gostaria de fazer uma pequena observação que me parece importante e que esperaria também do Papa: a Igreja, como toda a sociedade colombiana, ficou presa a esses relatos que nos ferem muito profundamente e que se converteram em causas políticas que agora preparam as próximas eleições.

E quero chamar a atenção porque a paz – o Papa nos traz uma mensagem de paz e de perdão –, a paz, o perdão, a verdade e a justiça são valores do Evangelho e também valores sociais e morais válidos para todos; e os valores são o campo das coisas pelas quais lutamos gratuitamente: uma pessoa dá a vida gratuitamente pela justiça e não espera que alguém a pague por isso. Uma pessoa dá a vida pela verdade, e não espera nem prêmio nem recompensa. Uma pessoa dá a vida pela paz, e não espera que lhe deem prêmios nem fotos ou quaisquer outras coisas. Senão não conseguimos viver, a nossa vida humana não tem sentido. Mas estas coisas pelas quais lutamos gratuitamente, quando se tornam política, e quando entramos na política e permitimos que a paz se politize, confundem as coisas, porque na política não há nada de gratuito: tudo o que você ganha eu perco e eu não posso deixá-lo ganhar nada.

Por isso, precisamos tirar a paz da política na Colômbia e mostrar que ela é um ideal profundo e desejado por Deus: é a mensagem de Jesus na Ressurreição: “a paz esteja com vocês”. Esperamos que o Papa nos ajude nisso, e esta é a paz que está vinculada ao perdão.

Em relação aos meios de comunicação, infelizmente, a mídia ficou aprisionado nestes relatos que são relatos excludentes na Colômbia, embora haja exceções. Infelizmente, como todos estamos envolvidos neste trauma – inclusive eu, que lhes falo como colombiano –, é tão importante a intervenção de uma pessoa de fora, como o Papa. Todos nós estamos no trauma, e dificilmente podemos falar, nos manifestar, fazer atividades públicas, inclusive dentro do mundo religioso, sem que se mescle de uma ou de outra maneira o trauma que carreguemos dentro de nós, e então suscitamos aversões, rupturas.

Vimos, por exemplo, a televisão usando imagens de arquivo após dar uma notícia sobre a paz, para imediatamente suscitar a desconfiança ou o ódio em relação àqueles que estão pretendendo fazer a paz, com o convite para que ninguém acredite. Isso tem sido muito comum nesse tempo todo, e eu também espero que tudo isso nos ajude a mudar entre nós e a nos colocar em outra perspectiva, na qual temos que construir o nós. E esperamos que o Papa nos ajude a nos colocar em marcha com o que chamamos de “primeiro passo”.

O povo colombiano tem uma característica de fé e de acolhida que podemos ver no que está acontecendo com os deslocados da Venezuela. Qual é a situação em relação aos migrantes que estão chegando desse país irmão?

O povo colombiano, justamente porque sofreu tanto, imediatamente se enche de compaixão pelos que sofrem. As vítimas são as únicas pessoas que nos ajudam a sair das nossas polarizações, porque sabem do que os seres humanos são capazes. Por isso, atualmente, há uma grande compaixão pelo que está acontecendo na Venezuela e uma grande sensibilidade.

Aqui, em Medellín, estamos cheios de vontade para ajudar e de compaixão quando encontramos migrantes na rua vendendo ‘arepas’ venezuelanas no café da manhã, que é a maneira que encontram para sobreviver. Em geral, o país está profundamente aberto. Temos mais de meio milhão de venezuelanos que entraram apenas nos últimos meses, e, seguramente, chegarão mais. Evidentemente, também há polêmicas, e não faltam políticos que, para ganhar neste momento reconhecimento, protestam. Há aqueles que estão pedindo o fechamento das fronteiras, o que não é o sentimento da imensa maioria dos colombianos; estes últimos sabem que o povo venezuelano está sofrendo e quer acompanhá-lo.

É uma situação que agrava as coisas na Colômbia, não apenas porque dificulta o processo de paz colombiano, em particular aquele com o Exército de Libertação Nacional que tem seus homens lá, mas também complica a situação social na Colômbia, tensiona a fronteira e pode nos levar a desgraças muito grandes se as coalizões internacionais forem consolidadas com as quais, devido a estas dinâmicas perversas que não podemos controlar, os seres humanos podem “incendiar” esse território. Há tempo para agir, e uma palavra e as gestões diplomáticas que, seguramente, o Papa já está dizendo, e tudo o que o Santo Padre puder propor neste momento, é crucial para o futuro dos dois países.

A partir da Venezuela e do contexto latino-americano em geral, por um lado, como o acordo de paz poderá afetar o continente? E, por outro lado, em que ponto encontra-se o diálogo com o ELN? Ele representa um risco para a paz ou é um ator independente deste processo?

É evidente que o processo de paz na Colômbia tem muitos efeitos no continente, porque a falta de estabilidade na Colômbia é uma coisa muito curiosa: a Colômbia teve um crescimento mais ou menos estável na ordem de 4,5% anual durante os 50 anos de guerra, inclusive durante a crise dos anos 2008, 2009 e 2010 no mundo. Ou seja, é uma economia forte, estável e, contudo, teve este problema duríssimo dos 8 milhões de vítimas que impediram muitos investimentos na Colômbia, e que, no entanto, provocou a realidade de um processo social e econômico talhado de dor de uma forma descomunal. A transformação dessa dor na Colômbia e a consolidação de uma democracia aberta e a possibilidade de enfrentar os problemas que nunca resolvemos, como a desigualdade social, a corrupção, a destruição do meio ambiente, nos irmanam muito com o resto do continente que está lutando por estes propósitos dos quais nós não podíamos participar decididamente, porque estávamos ocupados com a guerra.

Em relação à Venezuela e ao Exército de Libertação Nacional (ELN), acontece que os comandantes importantes do ELN estão na Venezuela e o ELN é importante em algumas regiões da Venezuela. Enquanto a instabilidade continuar na Venezuela, meu sentimento – posso estar errado e é uma opinião pessoal –, é que o Exército de Libertação Nacional encontrará um espaço político que lhe é propício, e que lhe permite manter-se lá. Embora seja verdade que essa é uma rebelião sobre a Colômbia, não são completamente aliados com o governo de Maduro. Não sei se o governo de Maduro é aliado deles, mas acredito que sem o apoio venezuelano eles não teriam sido capazes de se manter em território venezuelano e as circunstâncias seriam muito diferentes. Daí a importância de se resolver o problema da Venezuela para que se resolva o problema da Colômbia com o ELN.

O Exército de Libertação Nacional é uma guerrilha muito menor que as FARC – pode ter neste momento cerca de 1.500 a 1.800 homens em armas – e tem um apoio social muito forte que pode chegar a 250 mil pessoas, que não está armado, isto é, que não está na guerra propriamente dita, mas que constitui comunidades que comungam com a sua ideologia política, sendo de alguma forma partidária de que estas comunidades tenham uma retaguarda armada que lhes dê sustentação. O que eu quero dizer é que o Exército de Libertação Nacional tem muita influência política. É uma influência parcial, em números, possivelmente não é muito grande para um país de quase 50 milhões de habitantes, mas é significativo.

Qual é o grau de participação do narcotráfico em tudo isso?

O narcotráfico está no coração das rupturas e das violências colombianas e foi o foco de alimentação e, se quiser, o eixo. A produção da coca esteve na base da consecução dos recursos, tanto para o paramilitarismo colombiano, que foi um paramilitarismo absolutamente narcotraficante, como na consecução de recursos por parte da insurgência para se manter em armas frente ao Estado colombiano. Por isso é difícil descentrar a solução da coca no acordo com as FARC, que é o terceiro ponto do acordo e sobre o qual estamos com a esperança de que possa ir muito longe. Mas, hoje, comandantes locais do ELN continuam vinculados. Não são “cartéis do narcotráfico”, mas estão vinculados aos lucros oriundos da plantação e do transporte da coca; e a mesma coisa vale para a mineração legal. Evidentemente, se o ELN mantiver a guerra, será um atrativo para que aqueles que se sentirem desiludidos com o processo das FARC e que veem que o governo não cumpre o acordo ou que não é capaz de lhes garantir um futuro claro imediatamente, vão para lá, e volta-se a levantar um movimento guerrilheiro que, no fundo, fortalece o que o ELN traz consigo.

Por isso temos tantas expectativas com o que está acontecendo em Quito e por isso também esperamos que o Papa nos ajude para que o processo do cessar-fogo bilateral e a suspensão das hostilidades à população civil consiga se consolidar em Quito. O ELN tem um respeito muito grande pelo Papa e, em geral, pela Igreja, pois tem a história do padre Camilo Torres e de outros cinco sacerdotes que estiveram em suas fileiras. E, particularmente, tem muito respeito pelo Papa Francisco. Penso que uma palavra do Papa ao ELN pode ter um efeito muito profundo em seus homens. O ELN tem muitas pessoas inteligentes. Nós precisamos que eles abandonem as armas e que esses ideais que têm de justiça social venham a realizá-los com tranquilidade na luta política dentro de uma ordem democrática que também precisa de posições, uma esquerda séria e democrática disposta a transformar o país, onde caibam os pensamentos de todos, mas onde se respeite o ser humano e não nos matemos pela política.

Uma mensagem ao povo colombiano?

Eu gostaria de convidar a todos para que tenhamos confiança no futuro, não somente porque o nosso povo, como as vítimas nos ensinaram, tem do fundo da dor uma determinação muito grande para avançar e voltar a acreditar uns nos outros, e confiança em que podemos fazer deste país como um dia os nossos avós sonharam ser o país dos netos. Mas que, além disso, tenhamos confiança em que o Papa vai nos dar uma força nova para que isso seja possível. As coisas que aconteceram – refiro-me ao processo de paz e ao processo que se vem fazendo com o ELN –, longe de nos levar ao pessimismo, porque são dificuldades sérias que precisamos enfrentar para poder avançar, devem nos encher de confiança de que somos capazes e de que, independentemente de quem seja o presidente da Colômbia no ano que vem, vamos tocar este país em frente. Além disso, vamos ter um país do qual as armas desapareceram definitivamente da política e podemos construir o que Deus colocou em nossas mãos quando nos reuniu em nossa comunidade da Colômbia.

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