Cientistas e especialistas dão corda ao relógio do fim do mundo

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12 Setembro 2017

Há 70 anos, o Doomsday Clock marcou, pela primeira vez, a magnitude dos riscos que espreitam a humanidade e a vida em geral, e que voltam a aumentar nos últimos tempos.

A reportagem é de Ricardo Molina Pérez, publicada por Ctxt, 06-09-2017. A tradução é do Cepat.

Em 1945, o poder atômico irrompeu no mundo com duas bombas, lançadas sobre a população civil, como cartão de visita. Ao contemplar sua capacidade de destruição, um coletivo de cientistas nova-iorquinos, entre eles alguns dos que haviam contribuído para o seu desenvolvimento, sentiu-se suficientemente alarmado para decidir fundar o Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos) e assim fazer com que sua voz fosse ouvida e lida.

Como afirma a seção about us da página web, sua missão era, e é, “avaliar os avanços científicos que supõem para a humanidade tanto riscos como benefícios”, e “incidir nas políticas públicas para proteger nosso planeta e todos os seus habitantes”.

Em 1947, o Boletim evoluía para revista e, pela primeira vez, se apresentava com a imagem icônica de um relógio a poucos minutos de chegar às 12.

Era o Doomsday Clock, o relógio que refletiu, desde então, durante 70 anos, a “urgência do perigo nuclear”. O relógio que marcará o dia do juízo final, o relógio da meia-noite da humanidade, da obscuridade na Terra, o relógio do fim do mundo.

As evidências do primeiro teste nuclear da URSS, que em 1949 afirmou ter Harry Truman, presidente dos Estados Unidos, deram início às tensões entre as duas potências, por meio de uma corrida armamentista que os historiadores chamam de Guerra Fria. Desde então, e até hoje, o ponteiro dos minutos do Doomsday Clock oscilou das doze menos 2, de 1953, depois que o governo norte-americano testou a bomba de hidrogênio e desintegrou uma ilha do pacífico, às 12 menos 17 minutos, de 1991, momento em que um dos dois fatores de desestabilização, a URSS, ruía e se desmembrava nas distintas nacionalidades que a compunham. A partir de então e durante os anos seguintes, Estados Unidos e URSS assinaram vários tratados de não proliferação de armamento nuclear. O resfriamento da guerra parecia distanciar a meia-noite.

No entanto, 4 anos depois, em 1995, perdemos 3 minutos desses 17. E 3 anos mais tarde, outros 5. Em 1998, a 9 minutos do juízo final, os Estados Unidos já haviam renunciado a abrir mão completamente das armas nucleares, pois muitas vozes do país temiam que a Rússia pudesse ressurgir e voltar a representar uma ameaça. E, além disso, entraram outras incógnitas na equação. Índia e Paquistão, em guerra desde que em 1947 se tornaram independentes da coroa britânica e seu Raj, efetuaram testes atômicos com poucas semanas de diferença. As hostilidades potencialmente destrutivas, recorrentes ao poder nuclear, aumentavam em diferentes lugares do planeta.

Em 2002, sob as turbulências dos atentados terroristas mais graves da história, os Estados Unidos anunciaram sua intenção de fabricar novas armas nucleares, retirando-se de vários tratados de não proliferação de armas. E o governo russo, que provavelmente se sentia ameaçado, tampouco esse dispôs a facilitar o abrandamento. Passaram-se 2 minutos no tempo de vida da vida.

Em 2007, alcançamos perigosamente os 5 minutos antes das 12 absolutas. Surgiam novos focos de perigo radioativo. Às duas superpotências, e à Índia e Paquistão, uniu-se a Coreia do Norte, que efetuou com êxito testes nucleares. Provavelmente Israel, anos atrás, havia adquirido armas nucleares, embora isso seja algo que não se afirma e nem se desmente.

E logo emerge na timeline do Doomsday Clock, pela primeira vez, como mais uma das ameaças existenciais da humanidade, a deterioração dos ecossistemas e a mudança climática. Os danos “já estão ocorrendo”.

No entanto, decorrem anos de abrandamento, ou ao menos de não aumento das ameaças atômicas. Os relógios e os dispositivos chegam a 2012, e no do Boletim já não fazemos outra coisa a não ser retroceder, ou seja, não fazemos senão avançar para a meia-noite distópica. No assessment se reconhece abertamente que é difícil “enxergar onde reside a capacidade de enfrentar estes desafios”, ou seja, “livrar o mundo das armas atômicas, frear a energia nuclear e se ocupar das inexoráveis alterações climáticas”, pois “os processos políticos parecem completamente inadequados”. De fato, como prova, é possível ponderar que acaba de iniciar a guerra na Síria, cujo governo é aliado da Rússia, e que está muito presente na agenda de interesses internacionais.

Em 2015, como era de esperar, ficamos a 3 minutos do nada. No ano mais quente de todos os registrados até então, os avanços realizados para revolver o aquecimento do planeta, modestos segundo reconhecem os cientistas do Boletim, são “completamente insuficientes para preveni-lo”. O conflito na Ucrânia, que vem do ano anterior e que afeta diretamente, mais uma vez, a área de influência russa, aviva as velhas tensões. As armas se modernizam, persistem os desproporcionados arsenais nucleares e os líderes internacionais fracassam em cumprir seu principal dever: salvaguardar “a saúde e a vitalidade” da humanidade. Este é o diagnóstico que o cronógrafo coloca em marcha.

E, em 2016, o Doomsday Clock “ainda” marca as 12 horas menos 3 minutos. As probabilidades de cair no precipício seguem presentes com a mesma intensidade. Apesar de pouco antes quase 200 países acordarem, em Paris, a redução das emissões de gases do efeito estufa, surgem novos conflitos, inclusive são incitados, e isto aumenta o nível de conflito entre as potências, que pretendem ser espectadoras, sem se esforçar muito, nem conseguir isto por completo. E não nos esqueçamos do gigante asiático e de suas reivindicações territoriais no mar do Sul da China, pelo qual os Estados Unidos exigem direito de passagem. O relógio faz tic-tac.

Nossos relógios e dispositivos marcam horas de 2017. Os cientistas e especialistas do Boletim moveram em meio minuto o Doomsday Clock e acompanharam a mudança com uma declaração. O resultado das eleições nos Estados Unidos é um fator de desestabilização, pois o presidente eleito, Donald Trump, não manifesta nenhuma sensibilidade pelos problemas que alarmam os professores.

Trump e a equipe que o rodeia negam o aquecimento global. E, além disso, faz “comentários doentios sobre a ampliação do arsenal nuclear”. E seu discurso é nacionalista. Quem não se recorda com um arrepio aquela menção de que “tornarei a América grande outra vez”? E os conflitos com a Rússia persistem em vários pontos do planeta. E seguem vivos os focos de perigo na Índia, Paquistão, China e Coreia do Norte. Ninguém melhor que eles, cientistas e especialistas do Bulletin of the Atomic Scientists, para dizer: “A decisão do conselho em movimentar o relógio em menos de um minuto reflete uma realidade simples: quando esta declaração foi publicada, Donald Trump havia se tornado presidente dos Estados Unidos há apenas alguns dias”.

Sendo assim, restam 2 minutos e meio para as 12. Desde 1953, não havíamos chegado tão perto do precipício. Alguns dos especialistas apontam que não é provável que ocorra um enfrentamento real entre Estados Unidos e Coreia do Norte, pois a consequência mais imediata seriam milhões de mortes, entre as quais Coreia do Sul aportaria uma boa parte, sem nenhum benefício aparente para nenhuma das duas nações. Por outro lado, apesar de alguns comunicados um tanto obscuros da inteligência militar norte-americana, a capacidade de ataque nuclear efetivo da Coreia do Norte não parece estar comprovada, e ainda precisaria resolver uma série de questões técnicas. No entanto, o recente teste da bomba H, que já empurrou a engrenagem antes, não faz outra coisa a não ser esticar a corda.

Aguarda-se uma atualização da hora que será marcada pelo Doomsday Clock, em novembro. Quem sabe, talvez os cientistas decidam mover o ponteiro meio minuto. Não obstante, o conselho de cientistas e especialistas do Boletim deixa para 2017 um chamado um tanto desesperado: “(...) as ações necessárias para reduzir os riscos de destruição devem ser realizadas muito rápido (...), as autoridades públicas deveriam atuar imediatamente, conduzindo a humanidade para longe do abismo. Caso não o façam, os cidadãos inteligentes devem dar um passo à frente e lançar o caminho”.

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