Duas críticas laicas a Bergoglio. Sobre as migrações e populismo

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22 Agosto 2017

Neste mês de agosto, o Papa Francisco foi rebatido sobre dois dos pontos mais famosos de sua pregação. E de uma maneira insólita: em primeiro lugar, porque as críticas não vieram de dentro da Igreja, mas de fora, de vozes autorizadas da opinião pública laica; em segundo lugar, porque em nenhuma das polêmicas o nome do Papa Francisco é explicitamente citado, embora fosse claro que as críticas eram dirigidas também contra ele.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 21-08-2017. A tradução é de André Langer.

O primeiro ponto diz respeito ao fenômeno migratório. Nos últimos dias, uma sentença da magistratura italiana e um apelo assinado por um certo número de intelectuais da extrema esquerda equipararam os centros de acolhida dos imigrantes que das costas líbias embarcam para a Itália a “campos de concentração” e a recusa a uma acolhida indiscriminada a um “extermínio em massa” análogo ao dos judeus pelos nazistas.

Estas analogias não são novas. Em várias ocasiões, nos últimos tempos, recorreu-se a palavras como “lager”, “extermínio”, “holocausto”, para denunciar o tratamento reservado aos imigrantes por parte daqueles que não querem acolhê-los sem reservas.

Mas, desta vez, em concomitância tanto com a decisão tomada conjuntamente pelo governo italiano e as autoridades líbias de frear os embarques de migrantes, realizados até agora de maneira impune pelas organizações criminosas em detrimento da vida de muitos deles, assim como com o apoio firme a esta decisão por parte do presidente da Conferência Episcopal Italiana, o cardeal Gualtiero Bassetti, a aberrante comparação da “não acolhida” dos imigrantes ao extermínio dos judeus não passou despercebida e, ao contrário, provocou um saudável torvelinho de críticas.

Ao dizer a verdade, nenhum desses críticos citou o nome do Papa Francisco. Mas também ele qualificou, não faz muito tempo, como “campos de concentração” os campos de acolhida dos imigrantes da Grécia e da Itália.

Ele fez isso na homilia pronunciada no dia 22 de abril na basílica romana de São Bartolomeu na Ilha Tiberina, durante uma cerimônia em memória dos “novos mártires” dos séculos XX e XXI.

E essa frase reforçou ainda mais o retrato atual que se faz do Papa Francisco sobre as migrações: o Papa da acolhida ilimitada de todos, sempre e a todo custo.

Mas é verdade que Francisco, a esse respeito, ocasionalmente disse também o contrário. Por exemplo, em uma de suas entrevistas coletivas no avião quando, voltando da Suécia, em 1º de novembro passado, ele elogiou a “prudência” dos governantes que colocam limites à acolhida, porque “não há lugar para todos”.

Assim como também é verdade que o cardeal Bassetti falou com a permissão prévia do Papa – que, por sua vez, acabava de ter um encontro privado com o primeiro-ministro italiano, Paolo Gentilone –, quando, em 10 de agosto passado, apoiou a linha dura do governo de Roma contra “aqueles que exploram de maneira desumana o fenômeno migratório” organizando embarques da Líbia para a Itália.

Mas permanece o fato de que estas correções não comprometeram a imagem de Francisco que se impôs nos meios de comunicação: a de paladino da acolhida indiscriminada. E podemos nos perguntar se isso é apenas obra dos meios de comunicação ou também sua, vista a esmagadora preponderância de seus apelos à “acolhida incondicional e basta”, sobre o exíguo número de elogios à “prudência” de governos em relação ao fenômeno migratório.

* * *

O segundo ponto da pregação do Papa Jorge Mario Bergoglio que acabou sendo alvo das críticas tem a ver com o conjunto da sua visão política global, que é hostil à mundialização, na qual constata a prevalência dos efeitos perversos, como as políticas liberais, que ele qualifica com frequência como “economia que mata”.

Em um editorial publicado no dia 26 de julho no Corriere della Sera, o professor Francesco Giavazzi, um economista de reconhecida autoridade internacional que leciona na Universidade Bocconi de Milão e no Massachusetts Institute of Techonology, identificou precisamente nestas duas hostilidades a raiz das atuais ondas populistas: que elas são de direita quando pensamos que a origem do mal-estar encontra-se na mundialização (Donald Trump nos Estados Unidos, Geert Wilders na Holanda, Marine Le Pen na França...) e de esquerda quando o mal-estar, ao contrário, encontra sua origem nas políticas liberais (Syriza na Grécia, Podemos na Espanha, Bernie Sanders nos Estados Unidos...).

A “tempestade perfeita” dos últimos anos, segundo Giavazzi, é que tanto o populismo de direita como de esquerda se uniram em uma comum “rejeição das elites”, ou seja, das instituições políticas e econômicas.

Giavazzi não escreveu isso, mas esta rejeição é a mesma que anima a visão política global do Papa Francisco, enunciada sobretudo nesses seus “manifestos”, que são os discursos que ele dirige aos “movimentos populares”. Uma rejeição que ele estende sistematicamente ao establishment eclesiástico.

Uma rejeição que, no entanto, não tem nenhum futuro, segundo Giavazzi. Porque tanto os populistas de direita como de esquerda “têm em comum uma mesma falta de ar e uma visão de curto prazo que, quando tudo vai bem, limita-se a adiar os problemas para o dia seguinte, o que faz com que se agravem”. E cita o exemplo da “revolta contra as políticas liberais realizada na Argentina durante a presidência Menem, nos anos 90, que provocou a volta do peronismo ao governo”.

O nome de Bergoglio não foi citado, mas também este foi chamado em causa. Quem sabe, ele tomou nota

* * *

Podemos acrescentar que nestes últimos dias, depois do atentado terrorista em Barcelona, o Papa Francisco foi criticado também por um terceiro motivo: pelo fato de não querer mencionar as raízes islâmicas deste terrorismo, que ele reduziu pela enésima vez a um simples ato de “violência cega”.

Desta vez, no entanto, as críticas foram dirigidas de maneira explícita para ele e seu nome foi citado. Assim como aconteceu, mas por razões diametralmente opostas, contra Bento XVI, que, no memorável discurso de Regensburg, identificou e denunciou as raízes da violência inerentes ao Islã. Fato pelo qual fizeram-no pagar um alto preço.

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