Papa Francisco escreve prefácio de livro de ex-padre, vítima de abusos de um frei capuchinho

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17 Agosto 2017

“Testemunhos como o seu (...) lançam luz sobre uma terrível escuridão da Igreja. (...) Um testemunho, necessário, precioso e corajoso (...) Peço perdão pelos padres pedófilos: um sinal do diabo, seremos muito severos”: são reflexões do Papa Francisco contidas no prefácio escrito para o livro, nas livrarias [italianas] a partir desta quinta-feira, do ex-monge suíço Daniel Pittet, hoje com 57 anos, no qual ele conta uma experiência dolorosa sua, mantida em segredo por muitos anos.

A nota foi publicada no sítio Il Sismografo, 16-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No livro Mon Père, je vous pardonne (“Meu Pai, eu o perdoo”), Ed. Philippe Rey, Pittet conta ter sido vítima de repetidos estupros, dezenas e dezenas, por parte de um frei capuchinho suíço, Pe. Joel Allaz.

O autor do livro, e vítima do caso, diz ter esperado 20 anos antes de comunicar às autoridades eclesiásticas aquilo que tinha sofrido e ter feito isso apenas depois de ter tomado conhecimento de atos semelhantes contra outra vítima do capuchinho.

Daniel Pittet, vítima reconhecida e indenizada pela diocese de Friburgo e pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, conta as diversas fases do processo aberto em 2002 junto ao tribunal eclesiástico de Grenoble (França), para onde Allaz foi transferido, mas encerrado um ano depois “por falta de provas”.

Enquanto isso, o capuchinho, sobre o qual cresciam as suspeitas sobre as suas condutas, era transferido de uma diocese para a outra. Só em 2008 foram abertas novas investigações depois de outras denúncias de 24 vítimas, mas os crimes, cometidos entre 1958 e 1995, prescreveram tanto na Suíça quanto na França.

No fim, em dezembro de 2011, Joel Allaz se salvaria da prisão com suspensão condicional da pena (dois anos). Allaz “nunca foi removido do estado clerical”, assegura Daniel Pittet e acrescenta: hoje, ele tem 76 anos e ainda vive na comunidade, na Suíça.

Daniel Pittet, hoje, em Friburgo, trabalha como bibliotecário e se ocupa da associação fundada por ele, “Rezar e Testemunhar”. Há dois anos, o ex-sacerdote Daniel Pittet, casado e pai de seis filhos, encontrou-se com o pontífice no Vaticano e lhe contou a sua história.

Eis o prefácio do papa.

Para quem foi vítima de um pedófilo, é difícil contar o que sofreu, descrever os traumas que ainda persistem à distância de anos. Por esse motivo, o testemunho de Daniel Pittet é necessário, precioso e corajoso. Eu conheci Daniel no Vaticano, em 2015, por ocasião do Ano da Vida Consagrada. Ele queria difundir em grande escala um livro intitulado “Amar é dar tudo”, que recolhia os testemunhos de religiosos e religiosas, de padres e consagrados. Eu não podia imaginar que esse homem entusiasmado e apaixonado por Cristo tinha sido vítima de abusos por parte de um padre. Porém, foi isso que ele me contou, e o seu sofrimento me tocou muito.

Eu vi mais uma vez os assustadores danos causados pelos abusos sexuais e o longo e doloroso caminho que espera pelas vítimas. Estou feliz de que outras pessoas possam ler hoje o seu testemunho e descobrir a que ponto o mal pode entrar no coração de um servidor da Igreja. Como um padre, a serviço de Cristo e da sua Igreja, poder chegar a causar tanto mal? Como pode ter consagrado a sua vida para levar as crianças a Deus e, em vez disso, acabar devorando-as naquele que eu chamei de “um sacrifício diabólico”, que destrói tanto a vítima quanto a vida da Igreja?

Algumas vítimas chegaram ao suicídio. Essas mortes pesam no meu coração, na minha consciência e na de toda a Igreja. Às suas famílias, eu estendo os meus sentimentos de amor e de dor, e, humildemente, peço perdão. Trata-se de uma monstruosidade absoluta, de um horrendo pecado, radicalmente contrário a tudo o que Cristo nos ensina.

Jesus usa palavras muito severas contra todos aqueles que fazem mal às crianças: “Quem escandalizar um desses pequeninos que acreditam em mim, melhor seria para ele pendurar uma pedra de moinho no pescoço, e ser jogado no fundo do mar”
(Mt 18, 6).

A nossa Igreja, como recordei na carta apostólica Como uma mãe amorosa, de 4 de junho de 2016, deve cuidar e proteger com afeto particular os mais frágeis e os indefesos. Declaramos que é nosso dever dar prova de severidade extrema com os sacerdotes que traem a sua missão e com a sua hierarquia, bispos ou cardeais, que os protejam, como já aconteceu no passado.

Na desgraça, Daniel Pittet também pôde encontrar outra face da Igreja, e isso lhe permitiu não perder a esperança nos homens e em Deus. Ele também nos conta a força da oração que nunca abandonou e que o confortou nas horas mais escuras. Ele optou por se encontrar com o seu algoz 44 anos depois e olhar nos olhos do homem que o feriu nas profundezas da alma. E lhe estendeu a mão.

A criança ferida é, hoje, um homem de pé, frágil, mas de pé. Estou muito tocado com as suas palavras: “Muitas pessoas não conseguem entender que eu não o odeio. Eu o perdoei e construí a minha vida sobre aquele perdão”.

Agradeço a Daniel porque os testemunhos como o seu derrubam o muro de silêncio que sufocava os escândalos e os sofrimentos, lançam luz sobre uma terrível zona de sombra na vida da Igreja. Abrem o caminho para uma justa reparação e para a graça da reconciliação, e também ajudam os pedófilos a tomar consciência das terríveis consequências das suas ações.

Rezo por Daniel e por todos aqueles que, como ele, foram feridos na sua inocência, para que Deus os levante novamente e os cure, e dê a nós todos o seu perdão e a sua misericórdia.

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