Jovens, Deus, a fé e o insano medo do amor

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14 Agosto 2017

Estamos contentes com nós mesmos, não acreditamos em nada e adoramos apenas alimentos veganos? Não. Não temos nada contra Deus. Somente o medo do amor.

O comentário é do jornalista alemão Hannes Schrader, em artigo publicado no jornal Die Zeit, 09-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Olá, Deus,

Precisamos conversar. Sobre sexo com as cabras. E o que isso tem a ver com o amor por Ti. Na minha geração, ama-se apaixonadamente e também se fala disso: de amor livre, de homens que amam homens, de mulheres que amam mulheres, daqueles que amam a ambos, talvez até mesmo simultaneamente. Amamos passar a noite dançando, amamo-nos de forma espontânea, de forma planejada, por diversão, em relações sem compromisso, amamos o nosso trabalho, a nossa nova casa, os nossos amigos, os nossos colegas de quarto.

E se alguém, à mesa, começasse a contar que, recentemente, fez sexo com as cabras, provavelmente receberia um aceno de apreço e ouviria pelo menos um “interessante” sussurrado.

Só do amor por Ti é que ninguém fala.

É isso que eu gostaria de mudar com este texto. Gostaria de começar com um exemplo e escrever como Tu és importante para mim. E explicar por que eu te amo, publicamente. Gostaria de escrever uma confissão de fé, que fosse um pouco patética, divertida, espirituosa, que desse arrepios e que, no fim, levasse a dizer: que bonito.

Mas não posso.

Porque, nos últimos anos, eu quase nunca pensei em Ti. Tenho 26 anos, sou batizado, crismado, fiz o meu exame de religião na universidade, estava prestes a estudar teologia e creio em Deus. Assim eu pensava. Mas eu nunca falo sobre a minha fé, assim como quatro quintos dos jovens, de acordo com uma pesquisa da Igreja Evangélica. E nem rezo, como quase três quartos dos jovens.

A última vez que eu fui à missa foi na Páscoa. Como a maioria das pessoas da minha idade, eu não tenho nem ideia de como se chama o meu pároco, e eu tive que ir buscar no Google o texto da profissão de fé. Só um quarto da minha geração acredita em Ti. Outro quarto é incerto, como eu. Outro quarto acredita em um poder superior, que, no entanto, não pode ser definido com precisão.

Nas conversas à mesa na Alemanha, Tu apareces somente quando alguém diz orgulhosamente que está cansado de pagar os impostos à Igreja e que, finalmente, a deixou. O que talvez tenha menos a ver contigo do que com a Igreja: 83% dos jovens alemães têm pouca confiança na Igreja ou até mesmo nenhuma confiança. Quase um quinto dos protestantes entre 14 e 29 anos pensam firmemente em abandonar a Igreja. Outro quarto está refletindo sobre isso.

Eu também já estive sentado à mesa enquanto se falava mal da Igreja. Fiquei em silêncio, não disse nada, nada, nem mesmo sobre o meu amor por Ti.

No entanto, uma vez estávamos tão perto, Tu e eu, pouco antes do vestibular, graças ao Sr. S. O Sr. S. era o meu professor de religião, fumava constantemente, tinha longos cabelos grisalhos, não andava de moto, mas tinha o aspecto de alguém que andava. [...] E, quando lhe perguntávamos porque ele acreditava em Ti, ele nos contava uma história, sobre si mesmo, a sua esposa e Tu. Ela queria ir fazer uma caminhada com ele, mas ele odiava a caminhar. Então, ele rezou a Ti: “Senhor, faz com que chova amanhã!”. E depois? “Choveu. E eu louvei a Deus porque não tive que ir caminhar, mas pude ficar com ela no carro.” Esse era o Sr. S., amava a vida e amava a Ti. Essa combinação, então, era nova para mim.

No Ensino Fundamental, eu me lembro de ter pintado a arca de Noé, eu estava em um grupo bíblico para crianças. A lembrança mais viva que eu tenho disso é de como eu atacava a minha mãe, porque eu não tinha nenhuma vontade de ir lá. Para a crisma, eu só fiquei contente porque, finalmente, pude me comprar um iPod, mas, do que significava a fé cristã, eu não entendia nada.

Uma tarde, o Sr. S. chegou para a aula moderadamente de bom humor e gritou para nós: “Levante as mãos quem crê na ressurreição!”. Quando duas ou três mãos se levantaram titubeantes, como acontece entre os estudantes quando eles não têm certeza de qual é a resposta certa, ele disse: “Se vocês não acreditam na ressurreição, podem ir para casa”. Ficamos todos sentados, embora mais por medo do que por convicção. Então, ele jogou a sua pasta sobre a mesa, sentou-se e nos explicou o que significa ressurreição.

“A ressurreição é o que nos faz cristãos!”, gritou. “Com ela, fica evidente que o Deus de quem Jesus falou existe. Jesus, antes da sua morte, tinha falado de um Deus que não pune, mas que, ao contrário, é misericordioso. De um Deus que ama as pessoas e pede-lhes para viver uma vida no amor, para amar ao próximo como a si mesmos, até mesmo para amar os próprios inimigos. De um Deus que sabia, porém, que era difícil, porque as pessoas são falíveis. E que, apesar disso, perdoa.”

“Os homens – continuou – mataram o Filho de Deus, que pregava vida e amor. E o que esse Deus fez? Ressuscitou Jesus, demonstrou o seu poder sobre a vida e sobre a morte, mostrou que existia. Mas não usou o seu poder para se vingar, embora tivesse todos os motivos para isso. Ao contrário, perdoou os homens, nos perdoou.”

Então, eu compreendi pela primeira vez o que tinham a ver comigo a crucificação de um homem há 2.000 anos e a fé na sua ressurreição: compreendi que, na fé, não se trata de seguir os Dez Mandamentos e, nesse caso, não conseguir se sentir culpado. Mas sim que ser cristão significa reconhecer-se fraco, falível. Saber que, mesmo que eu beba demais, fume, diga mentiras, está tudo bem. Que Tu dizes: “Você não deve beber, mentir, fumar, faltar aula. Mas eu entendo por que você faz isso. Porque você é um homem. Mesmo assim, eu estou perto de ti”.

Isso me libertou. Saber que Tu estás, mesmo que eu faça besteira. Tu me dás regras segundo as quais eu deverei viver, mas não devo temer a tua ira se eu as infrinjo. Posso me arrepender e sei que Tu me perdoas.

Quando eu tive que escolher uma faculdade, graças ao Sr. S. eu refleti sobre a possibilidade de escolher teologia. Imaginava tranquilamente que podia comunicar a Tua mensagem precisamente como o Sr. S. tinha me falado de Ti. Mas, depois, tudo se tornou mais mundano.

Depois do vestibular, saí de casa, para longe da minha cidade. A minha fé em Ti também foi embora. Era superficial, leve, talvez um pouco leve demais. Como uma pena. A tal ponto que nem sequer percebi como ela desapareceu. As coisas iam bem. O estudo, o trabalho, os amigos, a namorada, não faltava nada. No verão, o mar não está longe, no inverno posso me aquecer, vou para o trabalho de metrô. Claro, às vezes, ele chega tarde demais. Mas começar a rezar por causa disso? Imagina! Eu te esqueci, assim como se esquecem velhos amigos, não porque não os amamos mais, mas simplesmente porque não pensamos mais neles.

Algumas vezes, Tu foste convidado para uma festa. Foi bom rever-te. Por ocasião de um nascimento, um casamento, uma morte, Tu também estás entre os convidados. Caso contrário, não. Tu estás porque deve ser assim, porque nos acostumamos com isso, porque, senão, talvez, alguém perguntaria: “Onde ele está? Você sabe quem...”.

Tu és como um parente que é convidado porque sempre foi convidado. Mas, se as coisas não ocorrem da forma esperada, dirigimo-nos a uma amiga, não a Ti.

Por isso, há duas histórias que são contadas sobre nós, jovens. Uma é a história da Igreja antiquada, que precisa de missas-rock e de pelo menos uma referência à série de TV House of Cards no sermão, enfim, algo como WhatsApp e WLAN na missa, para nos atrair às igrejas.

A outra é a história da geração contente consigo mesma, que adora comida vegana e que, às 10h do domingo, talvez faça ioga, mas certamente não está na missa.

Eu acho que ambas as histórias não correspondem à verdade. É claro, são muito poucos os jovens que vão à missa. Mas não é porque ela comece cedo ou porque seja chata. A ioga também não é um show de rock, e, na universidade, conseguimos chegar até antes das 10h. Contentes com nós mesmos: alguém acha isso a sério? A geração que está em busca de sentido até mesmo no bebedouro, no escritório open space, que gostaria de comer, viver e até transar (somos aqueles que usam camisinhas veganas e o comércio justo) conscientemente e de forma ecossustentável, embora todos zombem de nós por causa disso? Fala sério!

Não te amamos porque temos um medo insano do amor. Não só do amor por ti, mas em geral. Tu és a primeira vítima. Porque amar-te significa vincular-se, realmente, ao máximo. Não se trata só de clicar em “curtir”, não, é preciso realmente fazer o que se diz. Não se brinca com Deus, Tu és muito grande para isso. E é disso que temos medo.

Porque pensávamos que tínhamos libertado o amor, mas só aqui e agora, para beijos de madrugada banhados em suor e sobre os quais poderíamos rir relaxados, “foi bom”, “sim, muito”. Sobre o amor do Eterno, fazemos silêncio.

Porque o amor por Ti não é precisamente um “vamos ver se funciona”, não é cômodo, não é relaxado, nem mesmo sexy ou lascivo. É íntimo demais para ser assim. Como em um contato, às vezes tudo vibra, e se sente tudo tão profundamente, debaixo da pele... e sabemos que não pode ser a aventura de uma noite. Porque aí há muita coisa em jogo. Porque é preciso se abrir. E ser vulnerável. E esperar. É assim contigo.

E, como isso nos dá medo, preferimos a ioga ou as noites de dança, porque lá não devemos nos culpar de nada; se nos desculpamos por não poder ir, os outros também tinham outra coisa para fazer, não importa, fica para a semana que vem. Somos aqueles do botão “talvez” para a vida depois da morte, porque temos muito medo de nos envolver em algo que poderia ser para sempre.

Acho errado que se repreendam as gerações atuais por algo com aquele “ah, os jovens de hoje...”. Eu não quero me justificar diante de Ti, busco apenas entender como estão as coisas para mim, para nós, o que produz em nós a grande liberdade.

Analisa-se criticamente, tanto quanto possível, pode-se fazer, andar, correr, mas a liberdade sem nada ao redor, em certo sentido, é vazia, tudo é frouxo. Nós a tornamos malditamente simples. Quem não espera não pode ficar decepcionado.

Mas, por mais que sejamos livres, continuamos tendo medos. Vou me dar bem no trabalho como eu tinha imaginado? No fundo, o que queremos da vida? Qual é a situação com a morte? Devo telefonar mais vezes para a minha mãe ou para os meus avós que fizeram tanto por mim? Como será quando eles não estiverem mais? Apaixonamo-nos infelizes, quebramos corações, decepcionamos amigos, perdemos parentes, choramos como fontes.

Acho que há muitos como nós: jovens cristãos que são batizados, mas que não sabem se as suas dúvidas e os seus medos são banais demais, insignificantes demais diante de toda a dor do mundo, se há lugar perto de Ti para as suas dores de amor. Se é certo estar perto de Ti. Que não sabem bem por onde começar, em que devem acreditam, o que devem aprender sobre Ti.

O que devemos fazer, nem eu sei. Mas falar a respeito é um grande começo. Também com aqueles que têm problemas contigo, com aqueles que falam mal de Ti à mesa, com os ateus, os agnósticos. Com aqueles que te chamam de Javé ou que te chamam de Alá. Sobre a fé, a esperança, a dúvida. Sobre a vida, a morte, o amor. Sobre Ti e sobre nós.

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