Filipinas. “Em Mindanao não há conflito entre cristãos e muçulmanos”. Entrevista com o cardeal Luis Antonio Tagle

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09 Agosto 2017

A luta contra o terrorismo e contra os militantes do chamado Estado Islâmico no sul das Filipinas não tem nada a ver com um conflito religioso ou com uma guerra entre cristãos e muçulmanos. Disso está firmemente convencido o cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, que fala sobre o seu país e sobre a crise de Marawi (cidade ocupada pelos jihadistas) em uma entrevista concedida ao Vatican Insider durante a Jornada da Juventude Asiática, que acaba de acontecer em Yogyakarta, na Indonésia.

As Filipinas são governadas desde o ano passado pelo presidente Rodrigo Duterte, líder fortemente polêmico em nível internacional por seus métodos de pouco respeito pelos direitos humanos e que também tem uma relação controversa com a Igreja católica. Com ele “vamos continuar a ter uma atitude de colaboração crítica”, destaca o cardeal. Na recente assembleia plenária, os bispos filipinos escolheram como presidente da sua Conferência Episcopal o arcebispo Fernando Capalla, que dirige a comunidade de Davao, cidade da qual o presidente Duterte foi prefeito durante 20 anos. A decisão é considerada como uma possível maneira de procurar estreitar novamente os laços do diálogo entre a Igreja e o governo.

A entrevista é de Paolo Affatato, publicada por Vatican Insider, 08-08-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Há mais de dois meses há em Marawi combates e mortes. Qual é a sua opinião sobre a violência que se está vivendo e o que espera a esse respeito?

Estamos muito preocupados com a violência e a guerra. Deve-se dizer que Marawi é uma cidade majoritariamente muçulmana. E os territórios que se dizem leais ao Estado Islâmico atacaram cidadãos principalmente muçulmanos. Sempre é triste quando a vida humana é atacada. Muito mais quando aqueles que usam a violência são pessoas que deveriam ser irmãos e irmãs na fé. Há quem tente descrever o atual conflito como uma guerra dos cristãos contra o islã: essa é uma perspectiva completamente errada, quando se pensa que em Marawi os cristãos são uma minoria muito pequena e as vítimas são principalmente muçulmanos. Além disso, os cristãos e os muçulmanos se ajudam e protegem mutuamente. A graça de Deus opera também nas situações de violência: fiéis islâmicos salvaram cristãos, e agora as organizações cristãs estão demonstrando grande solidariedade, enviando ajuda humanitária às famílias muçulmanas que fugiram de Marawi. Esperamos que a violência acabe em breve e que as sementes do diálogo e do bem, semeadas hoje, deem frutos também depois do fim do conflito.

Você acredita que a crise atual terá um impacto negativo no processo de paz nas Filipinas meridionais?

Eu penso que o processo de paz deve ser enfrentado em diferentes níveis: o nível oficial das negociações, o nível militar, mas também “de baixo para cima”, ao nível da sensibilização das consciências. Agora as atividades do diálogo prosseguem, também graças às contribuições que chegam do exterior, para curar as feridas. Isso nos dá esperança.

Nas Filipinas, país de maioria católica, o diálogo inter-religioso está ameaçado pelo radicalismo islâmico, que chegou a todo o sudeste asiático, inclusive a Indonésia, país de maioria muçulmana. O que se pode aprender sobre esse país?

A história da Indonésia é muito significativa para toda a Ásia, porque os pais fundadores da Indonésia quiseram construir um país multicultural e multi-religioso, onde a liberdade de consciência e de religião fosse totalmente garantida para todos. Até agora, graças a Deus e graças ao espírito de convivência que existe neste país, a ideia funcionou. É justo apresentar a Indonésia como um modelo de diálogo e de convivência. E, na Ilha de Mindanao, no sul das Filipinas, onde está ocorrendo a crise de Marawi, também há líderes e fiéis muçulmanos de boa vontade, oriundos da Indonésia e que dão suas contribuições para o governo filipino e a população de Mindanao com o objetivo de construir uma convivência pacífica.

Uma questão muito delicada atualmente é a relação entre a Igreja católica e o presidente Duterte. Em que pé estão as coisas?

A Igreja filipina, independentemente do presidente que estiver no poder, sempre seguiu (e continuará a fazê-lo) o critério da “colaboração crítica” com o governo. Não somos inimigos, mas colaboradores no serviço e pelo bem comum da nação. O critério norteador é o Evangelho: não somos contra nenhuma administração, mas vemos e julgamos os fatos. Duterte sabe que a Igreja segue princípios e valores de caráter universal, e ele reconhece a sua validade, mas depois ele defende que na política deve usar outros. Eu procuro estabelecer uma relação pessoal com ele: fui encontrá-lo depois da eleição e depois lhe enviei diretamente mensagens e comentários. Creio que este é o caminho que devemos seguir. Não se pode falar pelos meios de comunicação de massa; do contrário, o diálogo pode ser interrompido. E haverá um conflito, que será sentido pelo serviço que todos somos chamados a prestar ao país. Percebo que ultimamente os comentários negativos se atenuaram: penso que se pode e se deve trabalhar em conjunto.

Duterte recebeu muitas críticas, especialmente pela campanha de execuções extrajudiciais. O que pode nos dizer sobre isso?

O fenômeno das execuções extrajudiciais de viciados e de traficantes de drogas é muito alarmante. Não há dúvida de que alguns homicídios foram praticados por sujeitos que não pertencem às Forças Armadas e que se aproveitam da situação por vinganças transversais. A Igreja sempre recorda o valor supremo da vida e que cada vida, mesmo a do pecador ou a do criminoso, sempre é sagrada. Mas hoje já não basta falar: o problema da propagação das drogas no país é real e nos interpela a agir. Em Manila, por exemplo, como comunidade católica, lançamos um programa de recuperação para viciados com a finalidade de salvar vidas, especialmente das crianças.

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