Sudão do Sul. Eu e a refugiada Gladys numa viagem pela solidariedade

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26 Julho 2017

Olhando para Gladys, uma jovem refugiada do Sudão do Sul, enquanto folheia um gasto álbum de antigas fotos de família, o pensamento me leva de volta para os anos de minha juventude. Em 1983, quando eu frequentava o segundo grau, as minhas responsabilidades incluíam o estudo, a manutenção do meu velho Dodge e a limpeza do quarto que dividia com meus irmãos. A minha maior aspiração era poder um dia ver Springsteen ao vivo.

A reportagem é de Khaled Hosseini, publicada por Repubblica, 23-07-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Aos dezoito anos Gladys é praticamente mãe de sete filhos. A guerra no Sudão do Sul a obrigou a tomar conta de uma ninhada de irmãos e primos mais jovens. O fato de que ela mesma só deixou recentemente para trás a infância é algo que sua família parece ignorar, e que também ela irremediavelmente esqueceu. O seu trabalho é garantir que as crianças estudem, apesar da distância que separa campo de refugiados de Imvepi da escola exige quatro horas de caminho entre ida e volta. Gladys passa seus dias buscando água em um poço, coletando lenha para queimar, preparando as refeições e arrumando o interior do abrigo de madeira e lona que ACNUR, a agência da ONU para refugiados, colocou à disposição de sua jovem família, logo que ela chegou ao norte de Uganda em 2016.

Gladys vira as páginas do álbum. Vejo imagens de famílias e casas que não existem mais. Rostos sorridentes emergem do passado; um banquete preparado no jardim; uma antiga festa de aniversário; as celebrações por um diploma; piqueniques, casamentos, crianças brincando na grama. Uma foto mostra Gladys em companhia de sua mãe. Nem sua mãe existe mais.

Sentamo-nos na borda de uma cama onde Gladys nunca dorme. À noite, coloca ali quatro dos seus irmãos mais novos, para então ajeitar os outros três em um colchão aos pés da cama. Ela deita-se entre a cama e o colchão, sobre a terra nua e dura, entre os irmãos, as irmãs e os primos. Ao folhar as páginas do álbum Gladys mantém uma compostura que poderia fazer esquecer como, em sua pouca idade, já tenha experimentado o pior lado do ser humano. Ela me conta que foi arrastada para fora de um ônibus que tinha sido incendiado, entre os gritos de algumas mulheres que ainda permaneciam dentro do veículo. Foi forçada a assistir à morte de pessoas que ela conhecia, cortadas em pedaços, uma por uma na frente de seus olhos. Gladys sacode os ombros suavemente, e afirma que não entende porque lhe foi concedido permanecer viva.

Nós nos levantamos para nos despedir. Quando me abaixo para colocar os sapatos novamente, ela sorri; ao receber-me tinha me garantido que não era necessário que os tirasse, e havia acompanhado suas palavras com um gesto tímido que aludia à modéstia de sua habitação. O seu refúgio trai a cotidianidade de uma vida descarrilada, onde cada elemento é um simulacro de normalidade: o precioso álbum de fotos, alguns livros escolares, uma Bíblia gasta pelo uso, uma manta de crochê, um urso de pelúcia.

Olhando ao meu redor, observo alguns objetos que durante as minhas viagens anteriores com ACNUR aprendi a reconhecer: os "kits de emergência", itens de cozinha, recipientes para a água, uma lâmpada a energia solar - que à noite permite que as crianças façam o tema de casa - rações de alimentos não perecíveis, um kit de higiene que contempla sabonete e absorventes higiênicos, outro kit de itens de primeiras necessidades. Os elementos básicos para reconstruir uma existência. O refúgio é espartano, mas para Gladys é casa; o lugar onde ela e as crianças dormem, comem, riem, contam histórias e segredos, brigam e fazem as pazes. Sob esse teto encontraram estabilidade e uma sensação de segurança.

Do lado de fora, antes da despedida, pergunto a Gladys qual é a sua maior aspiração, lembrando o meu sonho de ver "The Boss". Ela espera encontrar um emprego "para poder cuidar dos meus irmãos e minhas irmãs, e garantir que no futuro possam receber uma boa educação". Ela ri timidamente. "O trabalho perfeito seria de contadora".

De volta à estrada esburacada que me leva de Imvepi em direção a Adjumani, na margem oposta do Nilo Branco, eu não posso me abster de sentir uma sensação de admiração. Por Gladys e sua determinação. E por todas as outras Gladys que diariamente atravessam a fronteira para chegar à Uganda. Mais de setenta e cinco mil crianças chegaram aqui do Sul do Sudão, desacompanhadas ou sem as famílias. Um número chocante. Em todos os postos fronteiriços, os centros de acolhimento e campos de refugiados que eu visitei aqui na Uganda, encontrei algumas áreas especialmente designadas para elas: as crianças não acompanhadas e separadas das famílias. Os mais vulneráveis dos vulneráveis.

Depois de duas horas e uma chuva pesada, estamos na balsa que leva a Adjumani. O pôr do sol no Nilo Branco é deslumbrante. A tempestade passou e os últimos raios do sol deixam a água cintilante. Ao longe podemos ver a silhueta de um hipopótamo. Mas na margem oposta, no Sul do Sudão, a barbárie da guerra volta a emergir.

Um comboio da ACNUR direto ao campo da Palorinya aguarda para atravessar a fronteira. Dentro do ônibus estão sentados centenas de prófugos. Acabaram de escapar de uma nova onda de violência que atingiu a cidade de Pajok. Vejo-os sair dos ônibus: são crianças que ainda estão vestindo seus uniformes escolares, mães exaustas, homens atordoados. Em um silêncio atônito se reúnem na praça perto das docas onde atracam as balsas, esperando para embarcar.

Um dos homens me conta que os soldados abriram fogo nas ruas, nos hospitais e nas escolas de Pajok. As pessoas deixaram tudo e fugiram. E aqueles que não conseguiram - os idosos e os doentes - foram mortos. As famílias encontraram abrigo no mato, acrescenta ele, e em poucas horas a cidade foi esvaziada. A sua família ficou por três dias sem comida, subsistindo da coleta de raízes selvagens antes de alcançar a fronteira a pé. Olhando à minha volta, percebo que os refugiados praticamente não trouxeram quase nada com eles. Muitos deles estão com os pés descalços.

Uma jovem mulher amamenta o seu bebê, que tem apenas uma semana. Nos rostos das crianças que descem dos ônibus para se espalhar na rua, vejo as expressões emblemáticas da crise dos refugiados do Sul do Sudão, a maior e que mais cresce de toda a África. Mais de 1,8 milhões de refugiados encontraram abrigo nos países vizinhos, e quase um milhão deles chegou à Uganda. Na maioria dos casos – sessenta e dois por cento – trata-se de crianças. Estão assustadas, confusas e desesperadamente necessitadas de refúgio e de proteção.

Observo os meus colegas que interagem com os refugiados recém-chegados de Pajok. Eles fazem suas perguntas e tentam tranquilizá-los, explicando que uma vez que chegarem ao centro de acolhimento poderão encontrar comida, abrigo, água, abrigo e cuidados médicos. Eu admiro o trabalho que está sendo feito aqui, na linha de frente. Embora no momento o trabalho feito pela ACNUR para a emergência no Sudão do Sul receba apenas um financiamento de quatorze por cento. Um dado que assombra e deprime. Esses ônibus de refugiados são a prova do quanto seja urgente e necessário receber novos fundos. Também porque aqui, na Uganda, a resposta à crise dos refugiados é baseada em um modelo ambicioso e visionário que merece o apoio.

Essa viagem à Uganda é diferente de minhas visitas anteriores aos campos de refugiados em outros países. A diferença que mais se destaca é a ausência de cercas. Aqui, graças a uma considerável demonstração de generosidade e solidariedade, até mesmo os cidadãos particulares e os proprietários de terras, além do governo, doam terra aos refugiados. Olhando para os rostos exaustos dos refugiados que chegam de Pajok, sinto uma faísca de esperança em saber que dentro de alguns dias será entregue a eles um lote de terra sobre a qual construir uma casa provisória e cultivar o necessário para se emancipar, pelo menos em parte, das ajudas externas. Os refugiados que chegam à Uganda são livres para se deslocar, têm acesso aos mesmos cuidados de saúde e ao mesmo sistema escolar dos moradores locais e podem trabalhar e abrir atividades próprias.

A Uganda tem um passado doloroso, e bem sabe que uma guerra que se prolonga ao longo do tempo obriga os refugiados a viver no exílio durante anos, muitas vezes décadas. Aprendeu que a integração dos refugiados, que não são só considerados como um problema humanitário, representa uma vantagem para todos. Além de ser progressista e compassiva, a política da Uganda também é inteligente, porque contribui para melhorar a vida dos seus cidadãos.

Tomemos o caso de Bidi Bidi: uma pequena aldeia no norte de Uganda que no espaço de apenas nove meses tornou-se um dos maiores campos de refugiados no mundo, com mais de 272.000 ocupantes. Antes da chegada dos refugiados aqui não existiam escolas, nem centros de saúde ou estradas facilmente transitáveis. Sento à sombra de uma árvore na companhia de um agricultor de Uganda. Chama-se Yahaya, e me conta que no passado os seus filhos mais jovens não recebiam qualquer tipo de instrução, porque a escola primária mais próxima ficava a uma distância excessiva. Demorava dias para levar as colheitas ao mercado e voltar para casa, acrescenta. Mas hoje, graças às novas estradas, bastam apenas algumas horas. Yahaya doou terras, tanto através da iniciativa do governo como diretamente aos refugiados que o solicitavam. Nessa coexistência funcional, tornada possível pela política da Uganda sobre os refugiados, consigo identificar a eficácia de uma generosidade pragmática.

Antes de sair de Bidibidi, também tive a oportunidade de testemunhar o poder da generosidade humana. Aisha tem grandes olhos gentis e um corpo esbelto. Tem vinte e nove anos. Seu marido a abandonou, deixando-a com dois meninos de treze e cinco anos. Junto com eles e dois jovens sobrinhos, em agosto último fugiu do Sudão do Sul.

Em um posto de controle, ela me conta – enquanto sua voz assume um imperceptível tom de indignação - foi obrigada a se ajoelhar. Alguns soldados encostaram o cano de uma arma em sua cabeça, enquanto ela abraçava o seu filho mais novo. A morte estava apenas a um triz dela. Tiraram dela o dinheiro e quase tudo o que tinha, e ela e as crianças chegaram ao norte de Uganda com quase nada. Após ter recebido da ACNUR um abrigo emergencial, Aisha começou a construir uma moradia mais permanente, preparando sozinha tijolos de barro e um telhado feito com as ervas colhidas na mata próxima, uma cesta por dia. Foi um trabalho duro, relata, mas ela queria garantir que as crianças tivessem um abrigo, comida, roupas e frequentassem a escola.

Mais tarde Aisha concordou em aceitar outra criança em adoção, e os seus meninos ficaram felizes com a ideia de um novo companheiro de brincadeiras. Porém, quando encontrou pela primeira vez a criança, percebeu que ela tinha a parte direita do corpo completamente paralisada e era incontinente. Sua mãe a tinha abandonado. Explicaram para ela que a criança não tinha condições de comer sozinha, de sentar-se ou falar, e exigia cuidados e atenção constantes. Depois de passar a noite inteira em oração, Aisha tomou sua decisão. "Agora eu a amo como uma filha. Mas a sua condição não é fácil", explica. "Não é fácil que alguém a aceite. Mas eu não posso me dar por vencida. Alguém tinha que dar a ela uma casa e um lugar seguro para viver". Em dúvida entre três nomes - Gloria, Mercy e Grace - Aisha decidiu chamar a pequena de Mercy, "misericórdia". Uma escolha poética e comovente, que ela explica acompanhando suas palavras com um sorriso.

Mesmo assim, por mais gratidão que sinta por Uganda, se tivesse a oportunidade Aisha preferia voltar para casa. Gladys me confidenciou a mesma coisa. E o mesmo fez David, um ex-diretor de escola do Sudão do Sul, que agora ensina aos refugiados e crianças ugandesas na escola primária de Nyumanzi.

Encontro-me com ele em um intervalo, na frente de uma sala de aula vazia. E enquanto estamos falando sobre a escola, ele pára e seus olhos se enchem de lágrimas. "Às vezes me pergunto por que Deus fez de mim um refugiado", afirma com um sussurro. "Por quanto tempo precisarei viver como um refugiado? Quando poderei voltar para casa e ajudar o meu povo?".

Todos os refugiados que conheci - em Uganda, no Chade, na Jordânia, no Iraque e mesmo no Afeganistão, onde nasci - expressaram o mesmo desejo. Nada pode substituir o profundo vínculo que nos une ao lugar onde nascemos. Mas quando retornar ao próprio país não é possível, o lugar onde encontramos um sentimento de pertença, onde as pessoas não dizem quando nos olham "você não é daqui", torna-se a nossa casa. Hoje, no mundo, muitas vozes dizem os refugiados que não são bem-vindos.

Penso novamente em um momento belíssimo que todos os dias se repete no centro de acolhimento de Koluba, onde os refugiados, depois de receber uma refeição quente, passam por um exame médico e recebem um lote de terra. Todas as manhãs um representante do primeiro-ministro ugandês pega um microfone e se dirige a eles com um sorriso sincero. "Você chegaram aqui para garantir a segurança dos seus filhos", ele declara. "Eles representam a esperança e o futuro. Queremos que aqui, em sua nova casa, vocês possam realizar os sonhos e as aspirações de seus filhos. Bem-vindos à Uganda".

Para mais informações ou para apoiar a obra de Khaled no ACNUR, visite o site:

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