No Airbnb dos festivais, casas são ao mesmo tempo alojamento e palco

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25 Julho 2017

Premiado pela associação europeia de festivais, evento de artes performáticas realizado em Nápoles adota modelo radical de economia compartilhada. Atores, dançarinos, diretores, técnicos, estudiosos e críticos se tornam hóspedes de napolitanos, que cedem suas casas tanto para alojamento quanto para apresentações.

A reportagem é de Iara Biderman, publicada por Folha de S. Paulo, 23-07-2017.

Quarto compartilhado. Comida compartilhada. Casa e palco, vida e arte compartilhados. O festival Altofest, de Nápoles, situa-se em algum lugar entre um Airbnb e um Uber Pool das artes performáticas.

Criado pelo casal Anna Gesualdi e Giovanni Trono, diretores artísticos do Teatringestazione, grupo de teatro experimental da cidade italiana, o Altofest sobrevive há sete anos com um modelo colaborativo radical.

Atores, dançarinos, diretores, técnicos, estudiosos ou críticos de arte convidados ficam hospedados em casas de cidadãos napolitanos, os "doadores". Eles cedem espaços de suas casas não só para pernoites mas também para a criação e a apresentação dos espetáculos.

Os participantes recebem uma ajuda de custo para a montagem das obras (500 euros, depositados seis meses após o evento), e as passagens são negociadas com embaixadas e instituições de incentivo à cultura.

À diferença dos aplicativos de hospedagem e transporte, o Altofest não embarcou na economia compartilhada em busca de lucro. Funciona essencialmente à base de trocas não monetárias –e tem sido bem-sucedido em seu negócio.

Na última quinta (20), foi escolhido como um dos 26 eventos de maior destaque entre 715 festivais europeus, por indicação da EFA (a associação europeia de festivais).

Compuseram o júri, entre outros, sir Jonathan Mills, ex-diretor do Festival de Edimburgo, Fruzsina Szép, diretora do Lollapalooza Berlim, e Peter Florence, um dos criadores do Hay Festival –realizado na cidade galesa de Hay-on-Wye e considerado inspiração para a Flip. O formato também chamou a atenção de Malta, que em 2018 terá Valletta como capital cultural europeia. Os organizadores dos eventos malteses importarão o sistema napolitano, fazendo algumas adaptações para melhorar a infraestrutura e a logística.

No caso do Altofest deste ano, alojamentos e locais de apresentação nem sempre estavam próximos uns dos outros, e o deslocamento, em geral a pé, ocorria sob um sol de 40 graus numa cidade que tem lá seus aclives.

Os artistas chegam cinco dias antes do festival, neste ano realizado de 5 a 9 de julho, e adaptam suas obras para salas, quartos e até banheiros das casas em que se hospedam. São apartamentos em prédios antigos de Sanità, bairro popular em processo incipiente de gentrificação, a levar em conta o perfil dos doadores de acomodação/palco.

Alguns artistas, observadores convidados e equipes de produção ficam hospedados em outro bairro, na casa dos diretores Gesualdi e Trono, quartel-general do festival.

Lá, no último andar de um edifício no centro histórico, em um apartamento de quatro quartos, dois banheiros e dois terrações, uma população flutuante de 15 a 50 pessoas dorme, trabalha, festeja e consome café em escala industrial (à noite, vinho, na Afterfest).

Apresentações

"Criamos um espaço para a promiscuidade, em que cada um corre o risco de se expor aos outros. O que é privado não é mais seu, torna-se intimidade compartilhada", diz a diretora do Altofest.

Em uma determinada manhã, o terraço é tomado por varais com roupas recém-lavadas dos hóspedes e tecidos tingidos por Federica Terracina, artista italiana radicada em Paris. Ela prepara o figurino para a apresentação do percussionista napolitano Antonino Talamo, que abre o festival tocando na janela de uma loja de produtos orientais, vestido de san Gennaro (são Januário), padroeiro de Nápoles.

"Para mim, a performance de Talamo foi a mais bem-sucedida em termos de envolvimento dos habitantes da cidade. Primeiro, por ser música; depois, por ser apresentada para quem passava na rua. Fiquei impressionado com a interação das pessoas", diz o francês Amar Benbia.

Benbia, diretor de La Foule d'Eau, centro cultural para residências artísticas e "arte participativa" instalado em uma piscina abandonada na periferia de Paris, foi convidado para conhecer o modelo do Altofest e trocar experiências sobre produção cultural.

Além das apresentações, a programação do festival inclui uma conversa com operadores culturais de diversas partes da Itália e de outros países da Europa (neste ano, França, Reino Unido, Espanha, Malta e Eslovênia) e debates diários com críticos e artistas no Observatório Crítico.

Estes últimos sempre ocorrem após o almoço, na cozinha de um centro comunitário para mulheres de baixa renda de Sanità. A sonolência pós-prandial e a falta de ar-condicionado não contribuem para o desenvolvimento das discussões.

Os diretores do Altofest valorizam mais a práxis e a intersecção vida e arte, mas alguns participantes buscam retorno teórico –fato que chama a atenção de Philip Hadcroft, consultor de negócios e especialista em marketing.

"Muitos artistas estão envolvidos com os princípios ideológicos do festival, mas outros querem um olhar crítico sobre seu trabalho, ou trocar experiências sobre processos criativos e sobre formas de monetizar sua arte. Isso poderia ser feito, por exemplo, em um dia de conferências no fim do evento", diz.

Propostas

De dupla nacionalidade (australiana e britânica) e morador de Malta, Hadcroft integrou a comitiva envolvida na preparação dos eventos culturais para 2018.

"Os participantes do Altofest parecem estar conectados mais profundamente com o tecido social do meio onde atuam do que os artistas que se apresentam em teatros convencionais. Eles mostram enorme solidariedade com áreas de baixa condição socioeconômica, exibem identificação total com uma das principais propostas do festival, que é a regeneração urbana e humana", afirma Hadcroft.

A regeneração urbana também é um dos resultados esperados em cidades nomeadas pela União Europeia como capitais culturais.

Durante o Altofest, esses resultados são alvos de micropolíticas: com estranhos (artistas, donos das casas e público) espremidos no mesmo espaço, espera-se um insight coletivo. "As pessoas reconhecem o espaço privado como algo diferente, onde podem escrever e ler algo novo", diz Gesualdi.

Como a maioria das performances ocorre nas casas onde os artistas estão hospedados, as apresentações são para poucos –com boa vontade, um público de 20 pessoas. É preciso reservar com antecedência, como em restaurantes pequenos e exclusivos de chefs famosos.

Mas algumas apresentações envolvem de fato o espaço público. Javier Cuevas e Sara Serrano, do projeto espanhol-norueguês Spanish Matchbox, fizeram os espectadores darem voltas e voltas em torno do prédio de arquitetura fascista da administração metropolitana de Nápoles antes de entrarem no edifício. Dentro, levaram audiência e funcionários municipais a entoar a palavra "baracca" (barraco, em italiano) na melodia do hino da Itália.

Outro grupo espanhol, Societat Doctor Alonso, após apresentar nas ruínas de um aqueduto romano um espetáculo inspirado no filme "Andrei Rublev", de Tarkóvski, conduziu o público em procissão pelas ruas de Sanità, onde fica o sítio histórico. "É protesto ou enterro?", perguntou um morador sentado à soleira da porta.

Interação

Como 80% do público das apresentações é formado pelos próprios artistas, organizadores e doadores de acomodação, não fica claro até que ponto a população local se envolve e se transforma por causa do evento.

"O mecanismo de doadores de espaço é uma das forças do festival. Mobilizar tanta gente para hospedar pessoas e criações artísticas é um verdadeiro sucesso, nada melhor para criar uma comunidade. O problema é ser uma comunidade um pouco fechada em si mesma. Todos ali já estão envolvidos com esse tipo de manifestação artística. Falta interação com os habitantes da cidade", diz Benbia.

O mapa das apresentações se divide em duas áreas: Sanità e centro histórico. O público se desloca a pé entre os "palcos", que incluem, além das casas particulares, uma loja de roupas indianas, o aqueduto romano, uma igreja, um estacionamento dentro de uma gruta de pedra e galerias de arte. O percurso mais longo se traduz numa caminhada de cerca de 40 minutos.

Anna Gesualdi diz que, ao lado da doação e da intimidade, o sacrifício é um motor do evento. "Adoramos falar que o festival é uma armadilha na qual se escolhe cair."

Apesar do entusiasmo, Hadcroft sugere algumas mudanças. "É importante distinguir a parte cultural e criativa da infraestrutura e das operações necessárias para as performances. Se as apresentações são distantes umas das outras, é preciso pensar no transporte. Condições climáticas afetam a capacidade de o público se concentrar no espetáculo. Por isso, é bom pensar em formas de dar mais conforto."

São aspectos que podem ser contornados, mesmo sem muito dinheiro, segundo ele. Mais difícil é conciliar essas adaptações com o projeto estético-ideológico do festival, baseado na premissa de que a arte, hoje mais do que nunca, só acontece e só é eficaz quando tira as pessoas de sua zona de conforto, como afirma Gesualdi.

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