"Não me arrependo de ter expulso o embaixador dos EUA". Entrevista com Evo Morales

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10 Julho 2017

Em uma conversa que será transmitida hoje à noite, às 22 horas, pelo canal América 24, Morales conta como as nacionalizações foram decididas, as relações conflitantes com os EUA, o que é ser de esquerda hoje e os desafios que a região enfrenta.

A reportagem é de Nicolás Trotta, reitor de UMET, publicada por Página/12, 09-07-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Viajamos aos 3.600 metros de La Paz para poder conversar com o presidente Evo Morales e acompanhá-lo em uma maratona de viagens por diferentes cidades. Os dias do primeiro presidente de origem indígena são eternos. Começam às 4 da manhã e terminam à meia-noite. São famosas as anedotas de funcionários que se rendem ao cansaço e dormem sentados em reuniões de gabinete. A reunião é no Palácio Quemado, às 7 da manhã, depois de uma reunião entre o Presidente e o Estado-Maior das Forças Armadas. Todos devem se adequar à sua incansável cultura de trabalho. Em uma extensa conversa, Morales é assertivo e não evita nenhuma definição.

Eis a entrevista.

O que significa ser de esquerda no século XXI?

Primeiro, identificar os inimigos internos e externos. O inimigo interno que há em cada Estado é a direita e ela é um instrumento do império. Se falamos do Império, falamos sobre do saque de recursos naturais que existe em todo o mundo, desde que a história da humanidade começou. Ser esquerdista neste século, neste milênio, é orientar as novas gerações para que elas estejam convencidas de que seu pior inimigo é o capitalismo. Se não identificarmos os inimigos internos e externos, não garantiremos esperança para as gerações futuras, e internamente, como um governo, devemos apresentar resultados na administração pública.

A integração de toda a Bolívia, não apenas territorial, mas de todas as nações que a compõem, é um feito inédito em nossa América Latina, é um processo que deveria ser conhecido em todo o continente.

Eu digo que unimos a Bolívia de leste à oeste, do campo à cidade. Em 1959, os Estados Unidos proporam que Bolívia desaparecesse, e que algumas pessoas fossem a Argentina, outras ao Chile, ao Paraguai, ao Brasil. Que não haja mais a Bolívia.

Quero ressaltar a importância de não termos um embaixador dos Estados Unidos. Um mineiro exilado, expulso da Bolívia, me disse: "presidente Evo, é preciso ter cuidado com a Embaixada". Perguntei a ele por que e ele me respondeu que só não havia golpe nos Estados Unidos porque não haviam embaixadores norte-americanos nos Estados Unidos.

A sabedoria popular.

Não me arrependo de ter expulsado o embaixador dos Estados Unidos.

Por que foi ele um dos principais incentivadores da tentativa de golpe de Estado, em 2008.

Sim, exatamente.

Como a América Latina do futuro sonha?

Compartilhamos ideias com presidentes como Raúl [Castro], Correa, Maduro, e com alguns ex-presidentes também, e gostaríamos que o nosso continente, através da América Latina e do Caribe, fosse um modelo de continente. Veja o problema das FARC, na Colômbia, que deve ser finalizado através do diálogo. Devemos ser um continente de paz, mas com justiça social, uma paz com dignidade e igualdade de direitos. A América Latina tem muitos recursos naturais que estão em nossas mãos, por isso eu sonho que a América Latina deva ser um modelo de continente para outros continentes.

Quais são seus temores?

As agressões econômicas, políticas e militares dos Estados Unidos. E para enfrentar isso é muito importante a unidade dos povos e a unidade dos movimentos sociais.

Como se chegou a este presente processo de transformação ao qual se encontra o seu país?

Foi uma longa reflexão. Lembro-me perfeitamente, na ocasião do 500º aniversário da resistência indígena popular, referindo-me à invasão europeia de 1492 a 1992: os líderes indígenas decidiram trocar o seu posicionamento de resistência, de estado colonial, de modelo neoliberal, da dominação imperial, para então tomar o poder. Sinto que, em alguns países, mas especialmente na Bolívia, temos cumprido esse mandato de profundas reflexões após os 500 anos da invasão. Nós mesmos dissemos que precisávamos nos governar. Se formos recordar o passado daqui, éramos governados por pessoas de fala inglesa, incluindo no Palácio Presidencial Quemado. No gabinete, havia a participação ativa do Fundo Monetário Internacional, e no Palácio, da CIA. No Banco Central da Bolívia estava o escritório do FMI. Éramos praticamente dominados e submetidos aos organismos internacionais e, por esse motivo que surgiu essa motivação para que nós mesmos nos governássemos. Para isso também nos perguntamos por que motivos com o poder sindical, com o poder social, não poderíamos aprovar leis e decretos e, então, tivemos que pular de uma luta sindical, de uma luta social, para uma luta eleitoral, com princípios, com valores, com ideologia, com programas feitos pelos bolivianos, inspirados pelos movimentos sociais.

Quais foram os eixos desse programa eleitoral?

Decidimos três coisas: no terreno político, a refundação da Bolívia, no econômico, a nacionalização, e no social, a redistribuição da riqueza. Este é o modelo econômico do país. E nossa experiência mostra o quão importante tem sido acompanhar a libertação política através de uma libertação econômica, a libertação política com a refundação da Bolívia. Deixar o Estado colonial. De um Estado colonial passar a um Estado plurinacional onde todos tenhamos direitos, obrigações e deveres, pois somos seres humanos. Somos tão diversos e não apenas em uma diversidade geográfica, econômica, fisionômica. Isso é respeitado, embora esta etapa tenha sido difícil. A questão da nacionalização e da parte econômica foi mais fácil. Além disso, quero confessar-lhe que, como é a primeira vez que um dirigente sindical que também é do movimento indígena chega a presidência, as pessoas me dizem que "se eu administrar mal a Bolívia, nunca mais o povo boliviano irá confiar em outro dirigente sindical de origem indígena".

Ascender à presidência implicava a tomada formal do poder, mas não necessariamente o exercício. A influência dos EUA tem sido historicamente muito forte, da mesma forma que a do establishment tradicional da Bolívia da Lua Crescente. Um dos primeiros passos de seu governo foi a nacionalização dos recursos de hidrocarbonetos. Como foi esse processo?

Em 2006 nacionalizamos os hidrocarbonetos e nesse caso não havia de consultar o povo, pois foi uma decisão política. Após a nacionalização recordo que as empresas disseram que não investiriam na Bolívia. [Néstor] Kirchner me disse: "Evo, me ligue, vou investir na Bolívia através de nossa empresa". Após a nacionalização, que tive o apoio de Kirchner, Hugo Chávez veio visitar-me para fortalecer e garantir esta nacionalização. Isto foi muito importante, pois essas políticas têm sido bem recebidas pelo povo boliviano.

Quais foram talvez os equívocos que seu governo cometeu em 11 anos de transformações?

Talvez alguns erros passageiros, mas não estruturais. Tentei levantar o subsídio aos combustíveis e acabamos retrocedendo. Depois, buscamos outra maneira de eliminar os subsídios, porque uma subvenção exagerada implica em uma instabilidade econômica. Erros estruturais nunca ocorreram e, por isso, quando alguém nunca erra em seus princípios, depois o acompanham, pois pode haver alguma demanda não atendida, alguns problemas de caráter regionais ou municipais, mas o importante é não errar, como presidente e como governo.

Quais são os principais desafios da Bolívia para a próxima década?

Temos o Plano do Bicentenário: em 1825 a Bolívia foi fundada e em 2025 serão 200 anos. Temos um plano que é muito ambicioso, que é melhor do que a agenda da ONU de 2030. Queremos ter zero de pobreza extrema, 100% de serviços básicos, a energia elétrica já estamos acima de 90%, mas o mais atrasado mesmo é o tema do saneamento básico. A água já não é mais um problema como antes, avançamos bastante nas telecomunicações graças aos satélites Tupac Katari, e na infraestrutura estamos em plena construção para unir o leste e o oeste do país. É um grande plano, um plano de libertação, e o sonho que eu tenho é que a Bolívia possa se tornar um modelo.

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