Biógrafo, vaticanista e ex-assessor analisam a visita do Papa ao Chile

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27 Junho 2017

Na segunda-feira, 19 de junho, o Vaticano confirmou a visita do Papa Francisco ao Chile entre os dias 15 e 18 de janeiro de 2018. Uma viagem que incluirá o Peru, mas que deixou de fora a sua Argentina natal. Três conhecedores do Pontífice analisam o momento em que faz o giro e abordam as razões por trás dos destinos escolhidos.

As entrevistas são de Fernando Fuentes e Juan Paulo Iglesias, publicadas por La Tercera, 25-06-2017. A tradução é de André Langer.

Eis as entrevistas.

Austen Ivereigh, biógrafo do Papa e fundador de Voces Católicas: “Atualmente, a oposição ao Papa é mais forte e mais barulhenta”

O Vaticano confirmou na segunda-feira, 19 de junho, a visita do Papa ao Chile. Essa será a quarta viagem à América do Sul (se incluirmos a viagem à Colômbia, em setembro próximo). No entanto, Francisco segue sem ir à sua Argentina natal. Por que acredita que está adiando tanto essa viagem?

Será, de fato, o sétimo país a ser visitado da América Latina: ele foi ao Equador, Bolívia e Paraguai em julho de 2015; Cuba em setembro do mesmo ano; México em fevereiro de 2016, pisando Cuba novamente no caminho, e Colômbia em setembro. A primeira viagem foi de seis dias esgotantes, México foram cinco dias, Colômbia cinco dias, e esta viagem – ao Chile e ao Peru – será de seis dias. Daí se desprende que não houve tempo para incluir a Argentina, e a visitará junto com o Uruguai em outra oportunidade. Seis dias é o máximo normal para este Papa.

No Chile, visitará a região da Araucania (irá a Temuco) e Iquique, além de Santiago. Por que acha que o Papa escolheu essas cidades?

Vejo que a escolha se encaixa nas viagens anteriores em dois sentidos. Um, ele quer ir para onde São João Paulo II não foi. Segundo, ele quer visitar as periferias geográficas, além de sociais. Temuco, por sua presença indígena e as tensões sociais em torno da terra, Iquique porque é um lugar de imigração e perto da fronteira. Sei que não se deve comparar, mas isso me lembra um pouco a visita que fez a Chiapas, na fronteira sul do México, e Ciudad Juárez, na fronteira norte, lugar de migração.

Atualmente, é possível ouvir críticas mais abertas contra o Papa por parte de setores conservadores. A figura de Francisco continua a ter o nível de popularidade que teve no início ou acredita que perdeu parte dessa atração inicial?

Eu vejo da seguinte maneira. Muitos daqueles que no começo do pontificado estavam preocupados, agora estão em uma oposição aberta e descarada. Neste sentido, a resistência ao pontificado é mais forte e mais barulhenta. Mas segue sendo uma pequena minoria, embora poderosa em recursos e capacidade de erguer a voz. Penso que, de modo geral, os bispos e cardeais estão muito firmes no seu apoio ao pontificado e em sua admiração pelo Papa. Um punhado de bispos dos Estados Unidos, muitos bispos do leste europeu e alguns da África estão abertamente contra. Mas a esmagadora maioria dos bispos da Europa Ocidental, da América Latina e da Ásia está feliz.

O fator do bispo Juan Barros, de Osorno, foi posto na época como um problema que poderia adiar a viagem do Papa. Até que ponto você acredita que essa questão influenciou e como pensa que o Papa a enfrentará em sua visita?

Quer queira ou não, será uma questão, porque os leigos e os sacerdotes de Osorno estão muito mobilizados e sabem articular muito bem seu descontentamento. O que eu não sei é como Francisco irá abordar a questão. O que poderia fazer é pedir aos fiéis de Osorno, em uma reunião privada, misericórdia e clemência com seu bispo e fidelidade e obediência ao Papa, porque não há maneira de mudar sua decisão. Mas se se aconselha que tal pedido seria infrutífero e que aprofundaria ainda mais as feridas e distâncias, irá preferir não se reunir com eles. Outra questão interessante é saber se irá abordar a questão do abuso sexual. No México, não fez referência, apesar do legado pesado de Maciel. Mas penso que a situação eclesial no Chile é diferente e irá querer dizer algo sobre o tema. E, possivelmente, encontrar-se com as vítimas, como fez na Filadélfia.

Andrés Beltramo, vaticanista argentino e autor do livro A reforma em andamento: “O adiamento da viagem à Argentina é o grande mistério do papado”

Surpreendeu o fato de que o Papa decidisse ir ao Chile e ao Peru e novamente deixasse de fora a Argentina. Por que acredita que postergou tanto a viagem ao seu país natal?

É um grande mistério deste pontificado. É uma decisão do Papa. Na Argentina, todos se perguntam a mesma coisa, mas nem em termos extra-oficiais nem oficiais posso dar-lhes uma opinião, porque o Papa não falou nada. Posso dizer mil coisas, porque se diz que é um assunto pessoal. Mas também não foi no governo anterior. Neste ponto, qualquer prudência é pouca, porque ele mesmo veio desmentindo todo tipo de especulações. A razão só o Papa sabe.

Inicialmente, tinha sido proposto que o Papa repetiria o itinerário de João Paulo II em 1987, ou seja, iria ao Uruguai, Argentina e Chile. Também não existe nenhuma explicação sobre as razões dessa mudança de itinerário?

Não, oficialmente não há nenhuma explicação. Isso sempre foi uma hipótese. Estamos discutindo sobre um fato que nunca foi confirmado. Ele disse isso, mas como uma ideia, como uma possibilidade.

Também se argumentou que entre as causas estaria a suposta falta de sintonia com o Presidente Mauricio Macri.

Eu penso que uma viagem apostólica não tem a ver com sintonias ou falta de sintonias políticas. Há muitos outros elementos por trás de uma viagem apostólica. O Papa visitou líderes de todo tipo de pensamento político. Então não vejo por que isso não deveria ser aplicado na Argentina. Penso que restringir toda a questão da viagem do Papa somente a um aspecto político ou que o Papa esteja de acordo com este ou aquele projeto político é reduzir o que é uma viagem apostólica. Seria como dizer que, devido à posição do governo chileno, sobre o aborto, o Papa não deveria ir ao Chile; mas vai do mesmo jeito.

Em que momento o Papa vem ao Chile? No último ano, ouviu-se críticas de setores conservadores que questionaram sua última exortação apostólica, a Amoris Laetitia. O Papa é hoje mais questionado do que quando chegou ao pontificado ou continua tendo apoio?

No nível popular sim, continua tendo apoio. Basta ver as viagens apostólicas, e verão novamente no Chile a força que o Papa consegue transmitir. Também se vê aqui na Praça de São Pedro, no corpo a corpo. Esse é seu âmbito, seu lugar, o espaço onde mora o Papa e isso se manifesta nos seus gestos e surpresas. Mas o Papa também é um homem de governo. Uma coisa são os primeiros anos que, por um lado, são de apresentação do Papa, do estabelecimento de uma ideia que o Papa tem e o que quer de seu papado e as novidades que propõe. E outra coisa é quando se está no quarto ano do pontificado, indo para o quinto, quando muitas coisas que o Papa está implementando provocam críticas, discussões. Não há nenhum Papa deste século, ou do século passado, que não tenha sido criticado. Bento XVI, João Paulo II... se vamos para trás a maioria dos papas foi criticada. Se isso depois desgasta sua força, é relativo. Certamente, tem um impacto e abre discussão, mas eu ainda o vejo com uma grande força e enfrentando desafios.

Federico Wals, ex-assessor de imprensa da Arquidiocese de Buenos Aires: “É possível que faça um pronunciamento sobre a questão do mar”

Uma vez que foi divulgado o itinerário do novo giro do Papa Francisco pela América do Sul, vários analistas argentinos concordam em dizer que não havia expectativa de que visitasse seu país natal em 2018. Acredita nisso?

Eu não concordo com essa análise, porque a agenda do Papa para 2018 está em construção e ele em nenhum momento confirmou o contrário sobre a Argentina, em nenhum momento disse que em 2018 não visitaria a Argentina. De fato, no dia 16 de maio (a presidenta das Mães da Praça de Maio), Hebe de Bonafini recebeu uma carta do Papa Francisco em que ela lhe diz que está compungida porque não vem ao país. E ao responder, lhe diz justamente que ainda não há nada decidido sobre sua viagem à Argentina. Isso, para mim, deixa aberta a porta (para uma visita em 2018). É verdade que a agenda do ano que vem é bastante complicada, mas também é verdade que o Papa é um homem que joga com o fator surpresa. Eu penso que vai anunciar (a viagem) com muito menos antecedência, sobretudo tratando-se da Argentina, onde se especula sobre o uso da sua imagem, o uso político da sua visita.

Você acha que esse uso político de que fala pesou na decisão do Papa de adiar sua visita à Argentina?

Até não muitos meses atrás, vimos um desfile incessante de argentinos em Roma, na Praça de São Pedro, tirando fotos: figuras políticas, sociais, sindicais, funcionários, detratores, de tudo. Ele colocou um freio nessa coisa de estar com o Papa, tirar uma foto com ele. Mas também ele está visitando países que realmente estão precisando ou aos quais quer levar sua palavra de pai e de pastor. Ele esteve conosco na Argentina até 2013, foi nosso bispo e nosso cardeal, embora não fosse valorizado. Não foi profeta em sua terra.

Que paralelos faz entre a visita de João Paulo II ao Chile em 1987 e a do Papa Francisco em 2018?

Uma coincidência é levar uma mensagem de paz e de encontro, não porque o país se encontre em uma situação de desencontro. Mostrar que a Igreja está com os que mais sofrem e com os que mais necessitam dela. Estar com os migrantes, com os pobres, os indígenas. Creio que devemos estar atentos aos gestos, como visitar um hospital ou uma prisão. Ele vai se encontrar com as pessoas, com as histórias que estão por trás desses rostos. Além de voltar, porque na sua juventude já esteve no Chile. Retorna a um país que conhece.

O que se pode esperar da mensagem do Papa sobre o conflito mapuche?

Respeitando a política interna e sem fazer um juízo de valor sobre o que está sendo trabalhado neste momento, seguramente vai convocar para a continuidade do diálogo, a respeitar os povos originários. Ele vai continuar a insistir na mediação da Igreja. Vai oferecer, como costuma fazer, toda a sua predisposição para resolver este conflito.

E você acha que o Papa pode pronunciar-se sobre a demanda marítima da Bolívia?

É possível que haja um pronunciamento no Chile, assim como fez na Bolívia (em 2015). E como um pronunciamento para resolver estas questões num contexto de diálogo.

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