"Deus nos ajude a não ignorar novamente os profetas como padre Mazzolari"

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21 Junho 2017

"O Senhor, que sempre despertou na Santa Madre Igreja pastores e profetas segundo o seu coração, ajude-nos hoje a não ignorá-los novamente. Porque eles veem longe, e segui-los teria nos poupado sofrimento e humilhação". Francisco falou na paróquia de São Pedro, em Bozzolo (Mantova), depois de rezar diante do túmulo de padre Primo Mazzolari, um dos dois modelos que o Papa pretende mostrar à Igreja com a homenagem, deste dia 20, e logo em seguida seguiu para Barbiana para saudar a memória de padre Lorenzo Milani.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 20-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

O discurso de Bergoglio foi ponderado e longo – no início confidenciou aos fiéis que o aconselharam a encurtá-lo, mas não conseguiu - e parece ser dirigido a toda a Igreja italiana, e não apenas a italiana. "Padre Mazzolari – falou o Papa - não fugiu às exigências da vida, do sofrimento de seu povo. Não foi alguém que lamentava a Igreja do passado, mas procurou mudar a Igreja e o mundo através do amor apaixonado e da dedicação incondicional". E seu "olhar misericordioso e evangélico sobre a humanidade levou-o a dar valor também à necessária gradualidade: o sacerdote não é aquele que exige perfeição, mas que ajuda cada um a dar o seu melhor".

Na chegada, pouco antes das 9 horas no campo esportivo do Bozzolo, Francisco foi recebido pelo bispo de Cremona, em cuja diocese está localizada Bozzolo (a província é Mantova) e pelo prefeito. Pouco depois foi recepcionado pelo pároco na paróquia de São Pedro: ele cumprimentou as crianças presentes ao longo do percurso, e então parou para orar em silêncio diante do túmulo de padre Mazzolari. Após o cumprimento do bispo, Francisco pronunciou seu discurso na igreja.

"Hoje eu sou um peregrino aqui em Bozzolo e depois em Barbiana, seguindo os passos de dois párocos que deixaram um rastro luminoso, embora ‘incômodo’, no seu serviço a Deus e ao povo de Deus. Eu disse muitas vezes que os párocos são a força da Igreja na Itália. Quando são os rostos de um clero não-clerical, eles dão vida a um verdadeiro e próprio ‘magistério dos párocos’, que faz muito bem a todos". O Papa recordou as raízes de padre Primo, as da tradição cristã "desta terra padana", e reiterou que considera esse sacerdote "o pároco da Itália".

Bergoglio focou na atualidade de sua mensagem, acompanhando-a com três imagens, do rio Pó, de uma chácara e da planície. Ele explicou que o rio é símbolo "da primazia e do poder da graça de Deus que flui incessantemente para o mundo". A palavra de padre Primo "pela pregação ou pela escrita, extraia clareza de pensamento e força persuasiva da fonte da Palavra do Deus vivo, no Evangelho meditado e rezado, encontrado no Crucifixo e nos homens, celebrado nos atos sacramentais jamais reduzidos a mero ritual. Padre Mazzolari, pároco de Cicognara e Bozzolo, não fugiu às exigências da vida, do sofrimento de seu povo, que o moldou como pastor franco e exigente, primeiramente consigo mesmo".

A profecia de Dom Primo "realizava-se no amar o próprio tempo, na ligação com a vida das pessoas que ele conhecia, em aproveitar cada oportunidade para proclamar a misericórdia de Deus. Padre Mazzolari não foi alguém que lamentava a Igreja do passado, mas tentou mudar a Igreja e o mundo através do amor apaixonado e da dedicação incondicional".

Bergoglio, referindo-se a um texto do pároco de Bozzolo intitulado "A paróquia", em seguida, falou de três riscos "três caminhos que não conduzem na direção evangélica", todos muito presentes na situação da Igreja atual.

O primeiro deles é o caminho do "deixa-estar", aquele "de quem está na janela e assiste sem sujar as mãos. Basta-lhe criticar, "descrever com amarga e arrogante complacência os erros" do mundo ao redor. Esta atitude deixa a consciência limpa, mas não tem nada de cristão, pois leva a ficar de fora, com espírito de juízo, às vezes áspero. Carece de uma abordagem proativa, uma abordagem construtiva para a resolução de problemas".

O segundo método errado é o do ''ativismo separatista". "Há um grande empenho em criar instituições católicas (bancos, cooperativas, clubes, sindicatos, escolas). Assim, a fé se torna mais ativa, mas – como advertia Mazzolari - pode criar uma comunidade cristã elitista. São favorecidos os interesses e as clientelas com o rótulo católico. E, sem querer, constroem-se barreiras que são susceptíveis de se tornarem intransponível ao emergir a demanda de fé. Tende-se a afirmar o que divide em detrimento do que une. É um método que não facilita a evangelização, fecha portas e gera desconfiança".

O terceiro erro é o "sobrenaturalismo desumanizante". "Refugia-se - continuou o Papa - no religioso para contornar as dificuldades e as decepções que são encontradas. Isola-se do mundo, verdadeiro campo de apostolado, e prefere as devoções. É a tentação do espiritualismo. O resultado é um ministério fraco, sem amor". Dom Primo escrevia: "Quem está longe não fica interessado com uma oração que não se torna caridade, com uma procissão que não ajuda a carregar as cruzes da época".

Citando a imagem do sítio, que para padre Mazzolari era uma 'família de famílias' o Papa recordou que o pároco “pensava de uma Igreja que sai, quando meditava pelos sacerdotes com estas palavras: ‘Para caminhar é preciso sair de casa e da Igreja, quando o povo de Deus não a frequenta mais; e é preciso também se ocupar e preocupar daquelas necessidades que, apesar de não serem espirituais, são necessidades humanas e, da mesma forma que podem perder o homem, também podem salvá-lo. O cristão afastou-se do homem, e nosso discurso não pode ser compreendido se antes não o introduzirmos por esse caminho, que embora pareça o mais longo é o mais seguro. Para fazer muito, é preciso amar muito'".

A paróquia, acrescentou Francisco, "é o lugar onde cada homem se sente esperado, um lar que não conhece ausências”. Padre Mazzolari foi um pároco convencido de que ‘os destinos do mundo amadurecem nas periferias’, e fez de sua própria humanidade um instrumento da misericórdia de Deus, na mesma forma do pai da parábola do Evangelho, tão bem descrita no livro ‘A mais bela aventura’. Ele foi justamente chamado o ‘pastor dos distantes’, porque sempre amou e procurou por eles, preocupou-se em não definir no escritório um método de apostolado válido para todos e para sempre, mas de propor o discernimento como maneira de interpretar a alma de cada homem".

Esse olhar misericordioso e evangélico sobre a humanidade levou padre Primo "também a dar valor à necessária gradualidade: o sacerdote não é aquele que exige a perfeição, mas aquele que ajuda cada um a dar o seu melhor. ‘Sejamos satisfeitos pelo que nossas populações podem dar. Tenhamos bom senso! Não podemos massacrar os ombros da nossa gente'".

Francisco parou e repetiu marcando bem as palavras e direcionando-as a todos os padres italianos e a todos os sacerdotes do mundo: "Não podemos massacrar os ombros da nossa gente!". Em seguida, continuou: "E se, por estas aberturas, padre Primo era chamado à obediência, ficava de pé, como adulto, e ao mesmo tempo de joelhos, beijando a mão do seu bispo, que jamais deixou de amar".

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