Adam Smith estava errado porque as redes sociais precedem a economia. Somos filhos da dádiva, não da troca

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18 Julho 2017

"Na cultura samoana as dádivas, principalmente as esteiras, simbolizam a capacidade do ser humano de 'alimentar', proteger e dar vida. A economia das dádivas expressa a dimensão relacional do ser humano, a centralidade do laço social que vai além da dimensão do existente, porque une os vivos com os seus antepassados e com aqueles que estão para nascer", escreve Adriano Favole, publicado por Corriere della Sera, 18-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

A dádiva (o dom) assemelha-se a um daqueles corpos celestes que teoricamente deveriam existir, temos sinais de sua presença, mas resulta impossível vê-los com certeza. Guy Nicolas (Alfredo Salsano, Il dono perduto e ritrovato, Manifestolibri, 1994) chamou-a de lado escuro da modernidade: se a busca dos interesses, o cálculo, o lucro, ou seja, a economia de mercado, tem um caráter evidente, linear e mensurável, a dádiva – que inclusive apoia e estrutura as relações sociais - é , no mínimo, evasiva. Não são poucas as publicações atuais que evocam as economias da dádiva, mas para entender o quê?

A dádiva é um gesto altruísta e generoso, o anônimo que contribui para uma campanha de angariação de fundos para os pobres, ou é o princípio da reciprocidade movido pela tripla lei do dar-receber-retribuir, como dizia Marcel Mauss (no Brasil, Ensaio sobre a dádiva, Edusp, 1974), que não exclui, na realidade, a busca dos interesses e a ostentação do doar? Uma troca de objetos, serviços, favores é uma dádiva e não é mercado quando não há nenhuma garantia de retorno ou, melhor, quando é confiada ao vínculo social e não a um contrato; é dádiva quando não há uma medição objetiva do valor. A dádiva, nesse caso, é reciprocidade, mas tudo isso tem pouco a ver com a dádiva "pura" e desinteressada.

Vários livros recentes tentam desvendar o planeta escondido da dívida, em um mundo contemporâneo dominado pelo paradigma economicista. Cosimo Marco Mazzoni, por exemplo, considera a dádiva ambivalente, obscura, contraditória e a define um "drama" (Il dono è il dramma, Bompiani, 2016). A gratuidade de fato induz suspeita: "Se é grátis, há engano", costumamos pensar; ela esconde muitas vezes dinâmicas de poder pelas quais o ato de doar, aparentemente liberal, esmaga quem recebe. A beneficência é um produto da sociedade da desigualdade, em que primeiro acumula-se a riqueza em poucas mãos que, depois, apresentam-se como generosas (Jean Starobinski, Largesse, Seuil, 1994). Habitante estrangeiro de um continente dominado pelo mercado, a dádiva apresenta muitos lados obscuros. Mas, Mazzoni. ajuda a explicar a sua força e persistência na modernidade: a dádiva permite o reconhecimento e o re-conhecer (recíproco). Principalmente na figura maussiana do doar, receber, retribuir, doadores e recebedores reconhecem-se mutuamente, reafirmam através da circulação de objetos a sua "presença" na ciência social. A dádiva, nesse sentido - e é um velho tema da antropologia econômica – fundamenta a pessoa relacional.

Também o livro de Matteo Aria I doni di Mauss (‘As dádivas de Mauss, em tradução livre, CISU, 2016), que reconstrói pontualmente os debates que acompanharam a dádiva na história da antropologia cultural, mostra suas ambiguidades e contradições. Desde o Ensaio de Mauss, a dádiva oscila entre interesse e gratuidade, entre reciprocidade e ausência de restituição. Os críticos da dádiva a consideram uma espécie de "camuflagem" da lógica de mercado, como um aríete de um capitalismo tardio adoçado e disfarçado. Ao doar, os seres humanos estariam perseguindo seus próprios interesses com outra modalidade. Os entusiastas da dádiva, reunidos em um movimento que leva o acrônimo M.A.U.S.S. (Mouvement anti-utilitariste dans les sciences sociales), ao contrário, vêem nessa a última forma de resistência contra a propagação da espécie invasora homo oeconomicus, que se tornou uma máquina calculadora e destruidora de ambientes e relações sociais.

Um tesouro escondido feito de voluntariado, colaboração informal, relações intergeracionais que governa a vida das sociedades do pós-welfare state, onde é graças às relações de reciprocidade que é compensada a ausência do Estado, mãe que toma(va) conta dos filhos. Para dispersar as dúvidas, Aria diferencia a dádiva do ‘compartilhamento’, noção mais adequada para expressar aquelas situações caracterizadas pelo "estar" e "fazer" juntos, que pode inclusive prescindir da troca. Revelam-se assim quatro lógicas diferentes do agir econômico: o compartilhamento, a reciprocidade (ou dádiva), a troca de mercado e a redistribuição garantida pelo Estado, ou por um centro político.

Uma maneira de abordar o planeta da dádiva pode consistir no retornar às comunidades oceânicas originais que inspiraram Mauss. Serge Tcherkézoff, antropólogo francês, um dos mais importantes especialistas europeus na Oceania, publicou recentemente Mauss à Samoa (Pacífic-Credo, 2016). Os samoanos, ainda hoje, fazem a troca de alimentos, tecidos de casca e, principalmente, finas esteiras obtidas tecendo folhas de pândano, especialmente durante os ritos de passagem (nascimento, primeira tatuagem, casamento, acesso à função de "chefe da aldeia", funeral). O termo samoano mais próximo da ideia de "dádiva" é sau. Em Samoa, relata Tcherkézoff, sau significa "a felicidade de doar e a capacidade de criar vida". Como sintetizou um chefe de alto escalão para Tcherkézoff, no início dos anos 1980: "A noção de sau está vinculada com a pessoa. Nós dizemos o sau da vida. Isso significa: a tua chegada, a tua presença aqui é o sau da minha vida", por isso, na chegada de alguém, ou de um estrangeiro, é oferecido um dom.

Na cultura samoana as dádivas, principalmente as esteiras, simbolizam a capacidade do ser humano de 'alimentar', proteger e dar vida. A economia das dádivas expressa a dimensão relacional do ser humano, a centralidade do laço social que vai além da dimensão do existente, porque une os vivos com os seus antepassados e com aqueles que estão para nascer. Poder-se-ia dizer que, se o dinheiro não se leva para a sepultura, as dádivas, no final das contas, sim! E assim, hoje, a diáspora de Samoa para a Nova Zelândia, o Reino Unido e costa do Pacífico dos EUA, é acompanhada pela difusão de esteiras de pândano que simbolizam a profundidade genealógica dos grupos e da rede horizontal que liga entre si as famílias samoanas.

Até aqui, antropólogos, juristas e sociólogos: mas o que acham os economistas da dádiva? Qual o espaço que lhe reservam em seus estudos? No recente Economics as social science (Routledge, 2016), Roberto Marchionatti e Mario Cedrini derrubam a tese de Adam Smith: "A descoberta de Mauss - escrevem - é a mão invisível da troca de dádivas, ou seja, a fundamentação sócio-política das sociedades, da qual depende a sua dimensão econômica (e racional)".

O erro de Adam Smith, repetido incessantemente por seus descendentes, foi de colocar na origem das economias humanas a troca, concebida como uma forma arcaica de lógica de mercado que demonstraria a universal (e imutável) natureza humana, ou seja, a busca do lucro e do interesse individual. Na realidade, como já foi claramente argumentado por David Graeber (A Dívida, Três Estrelas, 2016), na origem estavam a dádiva e a dívida, não a troca. A economia é incorporada nas redes sociais e não vice-versa. Sair do imperialismo da ciência econômica que há muito se encerrou em uma ilha isolada das outras ciências sociais significa, em suma, colocar no centro noções como as da dádiva, compartilhamento e redistribuição, cuja complexidade responde por um ser que "ainda não se tornou uma máquina de calcular", como escrevia Mauss.

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