Uma fórmula que corre o risco de ser vazia e impraticável. Contra o gênio feminino

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21 Junho 2017

"Mas a grande gratidão pelo gênio feminino, com o reconhecimento do papel que esse gênio teve na vida cristã, tornou-se uma prisão para manter as mulheres longe de qualquer esfera de tomada de decisão, para que nunca fossem ouvidas nas discussões em que é decidido o futuro da Igreja. Resumindo, para continuar a considerá-las servas gentis e oblativas, passíveis de repreensão caso manifestem pensamentos, propostas, senão mesmo protestos por esse papel". 

O comentário é de Lucetta Scaraffia, jornalista, historiadora e professora da Universidade La Sapienza de Roma, em ensaio publicado por L'Osservatore Romano*, 16 e 17-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Hoje em dia as mulheres católicas, de todas as idades e todos os estados, mesmo as freiras idosas de clausura, ficam irritadas, e não pouco, quando ouvem falar de gênio feminino. Expressão que, ao contrário, muito agrada aos homens da igreja, que a repetem com frequência, com satisfação: parece que querem provar, com isso, que são a favor das mulheres. E, evidentemente, pensam que é suficiente evocar o gênio feminino para acalmar a própria consciência. Este é justamente o problema.

A descoberta do gênio feminino foi obra de João Paulo II, que o tornou tema de sua carta apostólica Mulieris dignitatem, publicada em 1988, como conclusão do sínodo sobre os laicos. Dessa exortação, após tantos anos, sobreviveu na memória geral apenas a seguinte afirmação: "A Igreja agradece todas as manifestações do « gênio » feminino surgidas no curso da história, no meio de todos os povos e Nações; agradece todos os carismas que o Espírito Santo concede às mulheres na história do Povo de Deus, todas as vitórias que deve à fé, à esperança e caridade das mesmas: agradece todos os frutos de santidade feminina". E conclui dizendo que a Igreja reza para que "todas as mulheres encontram neste mistério a si mesmas e a ‘sua suprema vocação’".

O documento permanece o primeiro e único texto oficial do magistério que trata do papel da mulher, e por esta razão, no momento da sua proclamação suscitou certo entusiasmo no mundo católico.

Finalmente abordava-se um assunto que sempre tinha sido ignorado. Além disso, o Papa havia recebido e aceitado uma interpretação do Gênesis, que refletia o trabalho da exegese feminina, de estudiosas que tinham feito uma releitura da narrativa das origens dos seres humanos descobrindo a semente da igualdade entre homens e mulheres que indubitavelmente contemplava. Até mesmo a releitura dos Evangelhos que a carta propõe com inédita atenção para personagens femininas, com o reconhecimento do papel central da mulher samaritana, de Maria Madalena, da adúltera, deve muito ao trabalho exegético de estudiosas mulheres: não se encontra, no entanto, nenhum sinal de seus escritos nas notas bibliográficas, rigorosamente masculinas.

Mesmo assim, no final dos anos 1980, esses pareciam avanços, reconhecimentos tão aguardados que deveriam anunciar uma abertura para as mulheres no âmbito decisório da vida da Igreja.

A Mulieris dignitatem tinha o mérito de introduzir um novo ponto de vista: em um momento histórico em que a emancipação das mulheres acontecia através da assunção de modelos de comportamento masculinos e uma consequente negação do valor da maternidade, a proposta do Papa parecia sugerir que a emancipação deveria e poderia acontecer mantendo viva a especificidade feminina, finalmente reconhecida como um valor, como uma genialidade.

Forneceu, em essência, uma plataforma ideal para um feminismo católico do qual não existia realmente sinal algum naquele momento, mas que a seguir se formou em torno dessa hipótese e, principalmente, frente ao tema da legalização do aborto e as consequências bioéticas que isso comportava, como a inseminação artificial e, mais tarde, a seleção ou manipulação dos embriões. Mas, a diferença do feminismo católico diretamente inspirado no secular, ligado à reivindicação da ordenação de mulheres, tratava-se de um feminismo sem bases autônomas verdadeiras, sem elaborações próprias, mas simplesmente alimentado pela oposição ao modelo predominante de emancipação.

Esse posicionamento, de fato, não conheceu um verdadeiro trabalho de aprofundamento por parte das mulheres que o defendiam, geralmente limitadas a uma atitude de obediência às palavras do magistério. Em suma, uma grande oportunidade perdida pelas mulheres católicas e pela Igreja, da qual nos apercebemos somente hoje. Porque, nessas últimas décadas, num momento em que o feminismo está em forte crise e muitas são as mulheres - especialmente jovens - que olham criticamente os resultados obtidos, um discurso verdadeiro e profundo de análise crítica seria certamente ouvido. Mas não existe, não foi elaborado, e vemos filósofas e escritoras laicas que redescobrem o valor da maternidade, jovens mulheres que recusam a pílula para seguir métodos contraceptivos naturais, totalmente desconhecedoras de que a Igreja Católica tinha antecipado tais posicionamentos. Um encontro perdido com a história. (...)

Refletindo sobre essas frases, cabe pensar que essa vocação ao amor oblativo constitui não tanto o destino da mulher, como o núcleo da identidade cristã e, portanto, que deveria valer para todos os cristãos, homens e mulheres. E, em especial, para os sacerdotes, é claro, orientados a "servir", a viver para os outros, como Cristo ensinou.

Ao contrário, quando João Paulo II considera incontestável que esse seja o ponto central da vocação feminina, parece não perceber que, desta forma, parece propor apenas às mulheres para serem cristãs, para imitar a Cristo. Justamente apenas às mulheres. O modelo vocacional proposto aos homens, embora não indicado com a mesma precisão, no entanto, parece ser diferente, para garantir a complementaridade.

Então, ao analisar cuidadosamente, é como se o comportamento cristão ensinado por Jesus - serviço, amor ao próximo, dedicação - seja prerrogativa exclusiva das mulheres.

Talvez esta evidente contradição tenha sido percebida, porque no segundo documento sobre a questão feminina, publicado sete anos depois, em 1995, isto é, a Carta às Mulheres, João Paulo II fala de ajuda não unilateral, mas recíproca, entre homens e mulheres, e reconhece que no horizonte "de serviço", "o homem - desta vez entendido como gênero humano - não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo". (...)

Mas a grande gratidão pelo gênio feminino, com o reconhecimento do papel que esse gênio teve na vida cristã, tornou-se uma prisão para manter as mulheres longe de qualquer esfera de tomada de decisão, para que nunca fossem ouvidas nas discussões em que é decidido o futuro da Igreja. Resumindo, para continuar a considerá-las servas gentis e oblativas, passíveis de repreensão caso manifestem pensamentos, propostas, senão mesmo protestos por esse papel.

Frente a esse resultado, não podemos certamente considerar os dois documentos como avanços significativos para a saída da marginalização das mulheres na Igreja. Tiveram um impacto mais incisivo Papas que não se limitaram ao retórico reconhecimento do "gênio feminino", mas adotaram medidas concretas: a nomeação, pela primeira vez, de duas mulheres como ‘Doutora da Igreja’ por parte de Paulo VI, por exemplo, abriu a porta para outros reconhecimentos similares, bem como à promoção litúrgica da festa de Maria Madalena, considerada no mesmo nível dos apóstolos pelo Papa Francisco.

E, olhando mais de perto, também a Humanae vitae, que continha implicitamente uma defesa da maternidade e de sua importância. De fato, em seguida, como temia Paulo VI, da contracepção química passou-se ao aborto, e o embrião sem a proteção do ventre materno tornou-se objeto de pesquisa científica, de manipulação, e foi aberto o caminho para a maternidade por substituição. (...)

Mas, mesmo que de forma limitada e confinada essencialmente a uma definição da vocação muito questionável, não podemos esquecer que, ao ligar o gênio feminino à maternidade, há alguma verdade: existe a semente para uma reflexão mais ampla. E há denúncia da aporia mais grave da ideologia feminista predominante: a de ver a liberdade da mulher possível apenas em contraposição à maternidade.

O pensamento filosófico e o estudo psicanalítico que nas últimas décadas abordaram o tema da maternidade, que se desenvolveu em um contexto que tendia a apagar sua importância, investigaram o sentido profundo em direções que realmente confirmam e enriquecem o vínculo entre feminino e transcendente que a Mulieris dignitatem propõe. Ou seja, revelaram o sentido de abertura que a maternidade realiza em direção ao transcendente, para o "mundo infinito", para usar as palavras de Clotilde Leguil, que escreve que o reconhecimento de que o corpo feminino é radicalmente diferente daquele masculino "implica a passagem do mundo fechado ao universo infinito". Leguil cita a propósito os versos do poeta Antoine Tudal, muito apreciado por Lacan: "Entre o homem e amor, existe a mulher; entre o homem e a mulher, existe o mundo; entre o homem e o mundo, existe um muro".

Também o filósofo de origem judaica Lévinas desenvolveu tal interpretação, por sua vez aprofundada por Catherine Chalier: “O outro por excelência, é o feminino pelo qual um mundo escondido prolonga o mundo”. E isso acontece precisamente através do mistério da maternidade, que Chalier não interpreta como constrição, prisão, mas como eleição: a mulher ao aceitar a maternidade "responde a uma chamada que não escolheu, mas que a elegeu".

A mulher torna-se assim "o não-ainda, ou seja, o infinitamente futuro que é o gerar". Chalier nos leva dessa forma a ler a fecundidade como transcendência total, como experiência que "revela uma separação rebelde a toda totalidade, porque o Infinito se recusa a ser fechado". Porque, continua Chalier, "o filho estabelece uma relação com o tempo infinito. A fecundidade retira de si mesmo e leva alhures".

Reencontrado dessa forma o valor da maternidade, reaparece o cerne da questão colocada por Lévinas: se a mulher representa o outro do homem, ela também é símbolo de transcendência, alteridade por excelência.

A diferença entre os sexos, portanto, abre à relação com a transcendência, com a presença de Deus ao lado de seres humanos, através do mistério aberto da maternidade. Disso decorre a insistência da Igreja em defender a polaridade sexual, não só por estar em consonância ao projeto divino, mas também por garantir a presença de Deus nas vidas humanas. Da mesma forma que o papel central da maternidade, fortemente enfatizado pelas duas cartas, é crucial não só por definir a vocação da mulher, mas, sobretudo, por garantir a abertura ao transcendente em todos, mulheres e homens. De certa forma, esse problema já havia sido percebido por Paulo VI, que em Humanae Vitae afirma que apenas a abertura à procriação, que os vê interagir com a vontade divina, pode trazer Deus no vínculo matrimonial.

Isso afeta não só as mulheres, mas todo o gênero humano. Mas não confirma o projeto de João Paulo II, isto é, o de resolver o problema da relação entre os gêneros com a complementaridade. A complementaridade de fato implica a confluência numa relação fechada de dois sujeitos necessariamente diferentes: um processo que não só não deixa espaço para as semelhanças, que são certamente mais numerosas do que as diferenças, mas impede, de fato, a abertura para o transcendente.

Porque a simetria, certamente mais reconfortante, cria um espaço desprovido de diferença, um espaço que é compactado em um todo homogêneo e fechado. Como Chalier escreve, "no cancelamento de toda alteridade, em um espaço sem diferença, nenhum desvio evita o fechamento em si mesmos".

Mas se considerarmos a diferença entre os sexos como irredutível, como assimétrica e, portanto, dinâmica e vital, teremos uma porta aberta ao transcendente na vida humana.

Aberta a mulheres e homens, em igual medida, sem recorrer ao gênio feminino. Mas reconhecendo à mulher um papel tão importante que não é mais possível negar-lhe o acesso ao exercício do discernimento na Igreja.

Nota: 

[*] Publicamos trechos de um ensaio publicado em "Etudes. Revue de culture contemporaine" a revista dos jesuítas franceses (o n. 5 de maio passado) e reproduzido na Itália pela "La Rivista del clero"( no n. 5 deste ano).

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