Resistências antiextrativistas no coração da prática da ecoteologia

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14 Junho 2017

Na América Latina a aposta é pela ecoteologia através da qual representantes da Igreja exercem sua missão libertadora do homem e da terra. Um dos propósitos é mudar de paradigma, localizar o homem como parte da natureza, integrado a ela, em uma nova relação, já não de dominação, mas de codependência.

A reportagem é de Fernanda Sánchez Jaramillo, publicada por Rebelión, 13-06-2017. A tradução é do Cepat.

Na América do Sul e América Central, diferentes comunidades eclesiásticas acompanham comunidades camponesas, afrodescendentes e indígenas, em suas resistências pacíficas contra empresas nacionais e multinacionais, e seus projetos extrativistas.

“A ecoteologia constitui uma nova cosmovisão, com uma inspiração ética e religiosa que questiona o modelo de civilização tecnocientífica imperante e propõe um paradigma que salvaguarde harmonicamente os direitos da natureza e os humanos, pois a atual crise se dá pela civilização hegemônica. O messianismo prometido pela ciência e a tecnologia resultou ser seletivo e discriminatório”, explica Richard Acosta (1).

Em seu livro, Acosta apresenta o desafio da teologia: responder a realidade social e suas novas formas de opressão que avassalam os povos. Acrescenta que se o discurso teológico pretende ser pertinente, requer-se a coerência entre a fé e a práxis, uma prática que responda a esses novos contextos sociais e seus desafios.

“Se a teologia precisa ser impertinente, precisa ser como o exemplo de Jesus, o Cristo, que importunou o status quo e as estruturas alienantes e opressoras de seu contexto”, disse enfático Acosta (2).

No coração dessa práxis está o acompanhamento da Igreja aos processos de resistência pacífica liderados por comunidades indígenas, camponesas e afros que habitam nas entranhas de Nossa América.

Além disso, assumem uma posição de liderança que confronta com os novos modelos de desenvolvimento que promovem o extrativismo como fonte de “progresso” à custa do sacrifício e o rompimento do tecido social, do equilíbrio dos ecossistemas.

Um desequilíbrio que adoeceu a terra, Uma Kiwe, para os Nasa da Colômbia. “O solo, o lugar onde nos encontramos hoje, onde desenvolvemos nossas atividades, é um ser vivo. É a pele da mãe terra, Uma Kiwe, e ali dentro desta camada existem seres espirituais que denominamos tapanos, espíritos que assumem formas diferentes com as folhas das árvores, com os ramos que vão se decompondo e que geram equilíbrio com todo o território”, destaca Luz Mery Pachacué, indígena Nasa que vive no departamento do Caquetá.

Segundo a cultura Nasa, o solo, a pele da terra, desarmoniza-se e adoece quando há queimadas, são aplicados produtos químicos, é destinado a monoculturas como a palma; quando há mineração e desmatamento.

Neste momento de crise planetária, corresponde à teologia cristã saldar uma dívida pendente. Nas palavras de Acosta: “Corresponde à reflexão teológica, inclusive, redimir a cosmovisão cristã herdada e imposta por ela a partir da Modernidade, que distorceu a designação divina do homem como “dominador” e “subjugador”, atribuída no Gênesis, entendendo-a como sinônimo de depredação (3).

Esta “dívida” foi debatida no ano de 1967, em artigo pela Revista Science: The historical roots of our ecological crisis (As raízes históricas de nossa crise ecológica), do estadunidense Lynn White Jr.

Nesse artigo, White concluiu que, especialmente em sua forma ocidental, não há religião mais antropocêntrica que a Cristã e que, inclusive no mito da criação, observava-se que todas as criaturas físicas não têm outra finalidade a não ser servir ao homem, sendo feitas para o seu benefício (4).

Alirio Cáceres, diácono permanente da Arquidiocese de Bogotá e animador ecológico da Igreja do Continente e Bogotá, opina que precisamos ser cautelosos neste ponto.

“Não se pode ser categórico ao dizer que o cristianismo é antropocêntrico e depredador. Gênesis 1,28 fala de um Deus permissivo que concede o mandato, o domínio, e esse domínio foi compreendido como usufruir de todos os serviços da natureza em função do ser humano, que é o que se conhece como antropocentrismo”.

“No entanto, penetrando na mentalidade bíblica, os estudiosos, os hermeneutas, chegaram à conclusão de que esse verbo foi mal traduzido, mal interpretado, porque na realidade o dominar é servir, é cuidar”, acrescenta Cáceres.

Em seu artigo, White também reconheceu o papel “radical” de São Francisco de Assis para superar essa perspectiva de aparente superioridade do homem sobre a natureza.

“A chave para compreender Francisco é sua crença na virtude da humildade, não só para o indivíduo, mas também para o ser humano como uma espécie. Francisco procurou retirar o homem de sua monarquia sobre a criação e instalou uma democracia para todas as criaturas de Deus”, disse Withe.

Na América Latina, a ecoteologia como evolução ou nova perspectiva da teologia da libertação inclui a Terra – Mãe Terra, Pacha Mama, Uma Kiwe, com as diferentes denominações que possa adquirir, sendo outro sujeito a libertar; além do pobre. A terra é também oprimida. Ouve-se seu insistente clamor, seu grito que interpela teólogos e cidadãos, em geral, para protegê-la.

A ecologia tem em Leonardo Boff um de seus grandes expoentes, que em seus escritos como em Grito da terra, Grito dos pobres, a considera um pobre a mais.

Boff fala de uma quarta ecologia que é integral e que a opção pelos pobres implica esse grito da terra, porque a ecologia se entende como a ciência dos pobres, ciência da casa comum, o planeta”, aponta Alirio Cáceres.

A Encíclica Laudato Si’, centrada no cuidado com a casa comum, concebe um teocentrismo – insiste Alirio Cáceres –, em que o centro é Deus. Nós, seres existentes: a fauna, a mata, as flores, viemos dele.

Laudato Si’ foi o cântico que Francisco de Assis entoou ao Deus criador, o projeto humano é que possamos devolver a Deus tudo o que é doado, por sua misericórdia”, enfatiza Cáceres.

Antropocentrismo ou biocentrismo?

Pensar um território comum, uma forma nova de compreender Deus, o ser humano e o cosmos é um desafio para a teologia do Século XXI.

“A presença do ecológico na teologia levou ao questionamento do antropocentrismo que compreende o humano como dono e senhor (lógica imperialista), pois assim o humano pode se tornar biocida e geocida; também se conseguiu dar o passo em favor da compreensão de uma concepção cosmocêntrica da existência, que pretende harmonizar os direitos humanos com os direitos dos demais seres” (5), explica Acosta.

No centro da crise atual, adquire maior importância a discussão sobre o lugar do homem no planeta, sua responsabilidade na crise ecológica atual e o papel que deveria cumprir.

“O antropocentrismo demonstrou seus limites e até se voltou contra o próprio ser humano. Além disso, o enfoque antropocêntrico se descobriu como parte da racionalidade patriarcal colonizadora que está nos levando à destruição da mãe terra. Sem uma formação, não só em direitos humanos, mas mais radicalmente em direitos da terra e da natureza, não é possível viver em paz com nós mesmos, com o Criador”, acrescenta Marco Arana, ex-sacerdote peruano.

Também J. L. Ruiz de la Peña, em seu livro Teología della Creazione, fez uma pergunta semelhante: Cosmocentrismo ou antropocentrismo? A realidade é antropocêntrica?

Ruiz é claro ao afirmar que apesar do homem ser criatura, é tratado quase como um Deus e esse princípio antrópico estabelece uma linha de relação com a doutrina da criação, que atribui à fé cristã sua relutância a que o homem abandone sua posição central no mundo, cristocentrista, antropocentrista.

Não obstante, este autor sugere que a ilusão de se crer em uma posição central, como indivíduo e como espécie, foi reavaliada em razão da grandeza do cosmos, da via láctea e, nela, a pequenez do homem.

“A teologia da libertação e o discurso ecológico tem algo em comum: partem de duas feridas sangrentas. A primeira, a ferida da pobreza e da miséria, que rompe o tecido social dos milhares e milhares de pobres no mundo inteiro. A segunda a agressão sistemática à terra, que desestrutura o equilíbrio do planeta ameaçado pela depredação feita a partir do modelo de desenvolvimento concebido pelas sociedades contemporâneas e mundializadas”, afirma Juan José Tamayo, em seu livro (6).

Ambos, diz-nos Boff, tem como objetivo a libertação, dos pobres feita por eles próprios, sem um salvador, a não ser como sujeitos políticos, e a segunda, a Terra, Gaia, Uma Kiwe, Pacha Mama, estabelecendo uma relação entre o ser humano e ela, na qual não há o ser dominante, em um modelo de desenvolvimento que torne a vida sustentável para todas as espécies, sem a primazia de nenhuma.

Nesta aposta, estão inscritas as propostas de teólogos, sacerdotes e não sacerdotes que defendem um modelo de desenvolvimento distinto e que promova o respeito à terra.

“Um modelo de desenvolvimento que não esteja amparado no extrativismo, nem no neoextrativismo “progressista”, no qual a América Latina é fundamental como reserva para gerar riqueza, com base na exploração da natureza”, afirma John Caraballo (7).

É tão importante o papel cumprido pela América Latina que se pretendeu internacionalizar a Amazônia para favorecer os interesses de transnacionais que veem nela uma grande pilhagem.

Em meio a esta disputa pelos recursos da América Latina, surgiram propostas para promover essa nova relação entre o ser humano e a natureza, uma relação horizontal e não de domínio sobre os ecossistemas e o restante das criaturas.

Uma perspectiva que é preciso dizer, não é nova, pois foi fundamental para os povos originários e, por isso, sustentam uma relação de respeito pelas demais criaturas e pelos ciclos da terra, que conhecem e compreendem à perfeição.

Na América Latina, surgiram diversas iniciativas que correspondem à interpelação que se faz do modelo econômico e de desenvolvimento, nesta fase neoliberal do capitalismo, e que promovem modelos diferentes, que tem como centro a questão ecológica. Além disso, fomentam a solidariedade entre os povos, as diferentes organizações e se comprometem com lutas e resistências nos territórios para frear os danos contra a terra.

Encontramos, então, a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), o Observatório de conflitos mineiros (Ocmal), Organização Ambiental Peruana (Grufides), Equipe Nacional de Pastoral Aborígene (Endepa), Movimento Católico Mundial pelo Clima, Franciscans International, Missionários Combonianos, a Comissão Intereclesial de Justiça e Paz e a Rede Justiça nos trilhos, entre outras.

Outra iniciativa importante é a Rede Igrejas e Mineração, espaço ecumênico formado por comunidades cristãs, equipes pastorais, congregações religiosas, grupos de reflexão teológica, leigas, leigos, bispos e pastores, criada para responder aos impactos e violações dos direitos socioambientais causados pela mineração, conforme explicam em sua página web.

Acompanhamento a resistências pacíficas

Alguns expoentes deste trabalho que acolheram os pressupostos da teologia da libertação e da ecoteologia na América Latina, encontramos na Colômbia, Brasil, Peru, Honduras e em outros países da América Central e do Sul.

Na Colômbia, no departamento de Chocó, dom Juan Carlos Barreto, bispo da Diocese de Quibdó, afirma que a diocese apoia os Conselhos Comunitários Maiores e locais, também as Reservas indígenas e suas autoridades em defesa de seu território e na exploração legítima e responsável dos recursos naturais.

“A Diocese de Quibdó apoia a mineração tradicional e em pequena escala, mas rejeita a mineração irresponsável realizada com dragas e retroescavadeiras, pois causam enormes estragos ambientais pela destruição da mata, rios e córregos. Além disso, esta mineração utiliza o mercúrio, produto químico poluidor”.

“A diocese igualmente rechaça a concessão de títulos mineiros a empresários nacionais e às multinacionais, sem levar em conta processos de consulta prévia e desconhecendo a riqueza da biodiversidade do território”, acrescenta Barreto.

O bispo também acrescenta que uma das opções pastorais da diocese é a defesa do meio ambiente. Por isso, denunciam atividades madeireiras de exploração irracional, os cultivos declarados de uso ilícito e a mineração irresponsável.

De igual maneira, oferecem oportunidades de formação às comunidades, promovendo campanhas para melhorar as práticas ecológicas nas comunidades paroquiais e apoiando e promovendo ações jurídicas tão importantes com as dos rios Quito e Atrato, este último reconhecido como sujeito de direitos pela Sentença T-622, de 2016, com a apresentação de uma petição formal ao Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (MADS), solicitando a proteção da mata úmida tropical da Costa Pacífica.

“Estas ações são feitas a partir da perspectiva da fé crista católica, que bebeu das contribuições da teologia da libertação, mas não tem nela sua única e principal fonte, pois a reflexão teológica do magistério da Igreja é abundante, fundamenta-se na revelação bíblica e teve um grande desdobramento no ensino dos bispos da América Latina”. “Uma contribuição fundamental e sintética foi realizada, ultimamente, pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, que constitui uma carta de navegação atualizada, que conjuga teologia e ciência”, enfatiza Juan Carlos Barreto.

De igual maneira, no Peru, o ex-sacerdote Marco Antonio Arana iniciou sua participação na resistência pacífica contra a megamineração depredadora no ano de 1993, em Cajamarca, e em outros povoados tais como Tambogrande, Ayabaca e Huancabamba, em Piura e Del Valle del Tambo, em Arequipa, no sul do Peru.

“Em minha opção espiritual, cheguei a estas lutas a partir da teologia da libertação, que em minha trajetória pastoral desembocou na ecoteologia libertadora. Embora possa haver uma perspectiva de Teologia da Libertação que seja neoextrativista, a partir de minha experiência, considero que não é possível afirmar a Teologia da Libertação, sem que esta seja ao mesmo tempo profundamente ecoteológica.

“A afirmação conservadora ou racional científica de uma perspectiva ecológica não basta, para ser transformadora necessita afirmar sua dimensão ecopolítica libertadora. É necessário não só libertar o ser humano das cadeias da opressão social, mas a mãe terra inteira da opressão e da injustiça ambiental que a depreda e a ameaça com a destruição de nossa própria espécie”, explica Arana.

No Peru, a principal estratégia de resistência pacífica utilizada, segundo Arana, foram os processos de consulta cidadã prévia e a mobilização pacífica que transcendeu o espaço local como a grande Marcha Nacional da Água, no ano de 2012, que percorreu mais de 1.000 km.

Desde julho do ano passado, Arana assumiu seu trabalho como congressista da República pela região de Cajamarca. Foi eleito na lista de representantes da Frente Ampla, como parte do Movimento Terra e Liberdade. “Meu trabalho atual é parlamentar, não se restringe a uma comunidade em específico, ainda que continue priorizando o apoio às comunidades de Cajamarca. Como membro das comissões agrária e de energia e minas, asseguro-me que sejam as próprias comunidades afetadas as que possam expressar sua voz e que não seja ignorada”, acrescenta.

Enquanto isso, no Brasil, o sacerdote italiano Dario Bossi, que vive em Açailândia, Maranhão, tem apoiado a resistência das comunidades que moram ao longo do corredor de Carajás, nos estados brasileiros do Pará e Maranhão, frente aos grandes projetos de mineração e siderurgia.

Nessa região está a maior mina de ferro do mundo (Mina de Carajás), administrada pela Vale S. A., empresa estatal privatizada em 1997 e uma das três maiores companhias mineiras do mundo.

No corredor de Carajás vivem comunidades indígenas, afrodescendentes, camponesas, de periferias urbanas, de pescadores e a maioria delas vêm denunciando violações de direitos por causa das operações mineiras.

Ao redor da mina, ao longo da ferrovia de 900 km para a exportação do mineral, há polos de siderurgia com muita contaminação e nenhum controle ambiental, ao redor do porto, cuja expansão ameaça a vida das comunidades tradicionais. “Os maiores impactos são desmatamento, poluição do ar e água, acidentes de trabalho por causa das operações do trem, os rios que se secam pelas operações da mina e da infraestrutura de transporte do minério, rachaduras nas paredes das casas por conta das vibrações do trem quando passa, contaminação sonora, etc.”, explica o padre Darío.

Que papel tem o padre e a Igreja neste processo?

Principalmente, o de reforçar as conexões de rede e resistências entre comunidades impactadas pelos mesmos danos e prejudicadas pelos mesmos atores (as empresas e também o Estado, que é cúmplice desse modelo neoextrativista).

“Trabalhamos com assessoria jurídica, educação popular, denúncia multissecular das violações (nível local, estatal, nacional e internacional), incidência política, comunicação para a transformação, propostas de alternativas para o cuidado do território, a participação política e a autodeterminação das comunidades”, acrescenta Darío.

Como aplicam a teologia da libertação e a ecoteologia nas causas ambientais?

O padre Darío faz parte da Rede Igrejas e Mineração e da Rede Eclesial Pan-Amazônica, o que reforça as ações locais, graças a essas alianças eclesiais e espirituais.

“A mística que sustenta a luta das comunidades e dos movimentos sociais se encontra com a espiritualidade cristã e as visões holísticas das espiritualidades dos povos originários e afrodescendentes. Não há resistência sem essas motivações profundas e o amor ao território como fonte, raiz, princípio de nossa vida e casa, que nos ampara e recebe, ao fim, nosso caminhar”, acrescenta o padre Darío.

Para ele, assim como para outros sacerdotes, teólogos e leigos, a Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, renova suas forças e fortalece a luta social e ambiental em diálogo com os valores cristãos.

Por sua parte, na Guatemala, o padre César Espinoza, cmf., da Congregação Religiosa dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, mais conhecidos como Missionários Claretianos luta pelas mesmas causas.

Ingressou em sua comunidade aos 17 anos e seu primeiro destino como missionário foi Costa Abajo, Colón (Panamá), onde serviu durante quatro anos, até o ano de 2017.

Por causa de seu trabalho ao lado da comunidade e contra a Empresa Mineira Petaquilla, o bispo Audilio Aguilar, atendendo às reclamações da empresa e do presidente da República, que tinha investimentos na mesma – explica o padre –, pediu à Congregação para entregar a Missão, após 80 anos de acompanhamento às comunidades camponesas da região.

No entanto, isso não impediu que perseverasse. No ano de 2008, foi destinado à Paróquia Nossa Senhora do Pilar, no município de Arizona, Departamento de Atlántida, ao norte de Honduras. Atlántida tem uma beleza natural incomparável, com 12 áreas protegidas como parques nacionais, que representam 40% de seu território.

No ano de 2009, em Honduras houve o Golpe de Estado que favoreceu a flexibilização das leis em favor das empresas multinacionais, entre elas as que se dedicam à atividade mineira. Além das companhias com projetos hidrelétricos, segundo também destacou o relatório publicado pelo Movimento Mundial pelos Direitos Humanos (FIDH), que no dia 31 de maio advertiu sobre a concessão de licenças ambientais para hidrelétricas em áreas protegidas (8).

Em Honduras, o padre César se comprometeu com essa causa, apesar das ameaças de morte, no ano de 2013, por seu acompanhamento da defesa legítima por parte das comunidades de seu território, no qual não queriam mineração a céu aberto. A comunidade claretiana publicou, então, diversos comunicados rechaçando as ameaças e responsabilizando, naquele momento, um empresário pelo que ocorria com o padre César.

Entretanto, alimentado pela coragem que o caracteriza, a mesma que caracterizou Berta Cáceres, sua amiga e companheira de luta, seguiu adiante, porque seu compromisso era maior.

“Compreendo a ecoteologia como a visão do universo e tudo o que este contém, a partir de uma visão de fé. Minha compreensão desta tem a influência da tradição cristã a qual pertenço (...). Nesta visão, aprendi a contemplar a beleza, a bondade e a genialidade de cada espécie e de cada realidade, visível e invisível, e as múltiplas relações e codependências entre todas.

“Certamente, influenciou também a teologia da libertação, que tive a oportunidade de aprofundar em meus quatro anos em El Salvador. E a pastoral libertadora que conheci em minha primeira experiência de Missão no Panamá. A leitura dos evangelhos e da Bíblia em geral, a partir da chave de compromisso pela justiça, paz e liberdade foram fundamentais para orientar meu ministério”, ressalta o padre César.

Dário, César, Marco, Juan Carlos, Richard e Alirio são só alguns dos muitos sacerdotes, diáconos, teólogos e leigos comprometidos com a práxis da teologia da libertação e a ecoteologia nas resistências contra os projetos extrativistas.

Suas vozes, seu trabalho e sua obra impactam nos territórios onde chegaram para caminhar ao lado das comunidades que exercem seu direito em defesa da natureza da qual se sentem parte, nem inferiores, nem superiores a ela, apenas parte da Gaia, Mãe Terra, Pacha Mama, Uma Kiwe...

Notas

(1) Acosta, Richard. Livro “Dios, hombre creación, hacia una ecoteología bíblica”. San Pablo editorial. 2015. Página 31.

(2) Ibidem.

(3) Ibidem. Página 26.

(4) Tomado de http://science.sciencemag.org/content/155/3767/1203

(5) Acosta, Richard. Livro “Dios, hombre creación, hacia una ecoteología bíblica”. San Pablo editorial. 2015. Página 29.

(6) Tamayo, Juan José. Leonardo Boff, ecologia, mística y libertação. Editorial Desclée de Brouwer. 1999. Página 55.

(7) Caraballo, John Fredy. “Responsables de la casa común. Reflexiones sobre la Encíclica Laudato Sí”. Centro Editorial Uniminuto, 2015.

(8) http://www.fidh.org/spip.php?page=spipdf&spipdf=spipdf_article&id_article=21465&nom_fichier=article_21465

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