Eleições e poderes de baixo. Artigo de Raúl Zibechi

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10 Junho 2017

“A participação eleitoral foi articulada como o primeiro passo da integração nas instituições (de classe) do sistema político (capitalista). Esse processo destruiu a organização popular, fragilizando até o extremo a capacidade dos de baixo em resistir diretamente (não mediante seus representantes) a opressão sistêmica”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi, em artigo publicado por La Jornada, 09-06-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Nas décadas recentes, a cultura política de esquerda tornou as eleições o principal barômetro de seu êxito ou fracasso, de avanços ou retrocessos. Nos fatos, a disputa eleitoral se tornou o eixo da ação política das esquerdas em quase todo o mundo.

Uma realidade política nova, já que em tempos não distante a questão eleitoral ocupava uma parte das energias e era considerada um complemento da tarefa central, que girava em torno da organização dos setores populares.

O certo é que a participação eleitoral foi articulada como o primeiro passo da integração nas instituições (de classe) do sistema político (capitalista). Esse processo destruiu a organização popular, fragilizando até o extremo a capacidade dos de baixo em resistir diretamente (não mediante seus representantes) a opressão sistêmica.

Com os anos, a política de baixo começou a girar em torno do que os dirigentes decidiam e faziam. Um pequeno grupo de deputados e senadores, auxiliados por dezenas de assessores pagos com dinheiro público, foi substituindo a participação dos militantes de base.

Em meu país, a Frente Ampla chegou a ter, antes do golpe de Estado de 1973, mais de 500 comitês de base apenas em Montevidéu. Ali se agrupavam militantes dos diversos partidos que integravam a coalizão, mas também independentes e moradores. Nas primeiras eleições das quais participou (1971), um em cada três ou quatro eleitores estava organizado naqueles comitês.

Hoje, a realidade mostra que quase não existem comitês de base e tudo se decide nas cúpulas, integradas por pessoas que fizeram carreira em instituições estatais. Apenas alguns comitês são reativados durante a campanha eleitoral, para imergir, em seguida, em uma longa letargia até as próximas eleições.

Em paralelo, a institucionalização das esquerdas e dos movimentos populares – somada à centralidade da participação eleitoral – acaba por dispersar os poderes populares que os de baixo haviam construído com tanto empenho e que foram a pedra angular das resistências.

No debate sobre as eleições, acredito que é necessário distinguir três atitudes, ou estratégias, completamente diferentes.

A primeira é a que, há certo tempo, Immanuel Wallerstein defende: os setores populares devem se proteger durante a tormenta sistêmica para conseguir sobreviver. Nesse sentido, concebe que chegar ao governo pela via legal, assim como as políticas sociais progressistas, podem ajudar o campo popular tanto a restringir os danos produto das ofensivas conservadoras, como a evitar que forças de ultradireita se façam com o poder estatal.

Este ponto de vista parece razoável, ainda que não concordo, já que considero as políticas sociais vinculadas ao combate à pobreza como formas de contrainsurgência, com base na experiência que vivemos no Cone Sul do continente. Em paralelo, chegar ao governo quase sempre implica administrar as políticas do FMI e o Banco Mundial. Quem se recorda, hoje, da experiência do grego Syriza? Que consequências tiramos de um governo que prometia o contrário?

É evidente que focar em que tal ou qual dirigente cometeu traição conduz o debate a um beco sem saída, exceto que se acredite que com outros dirigentes as coisas teriam ido por outro caminho. Não se trata apenas de erros; é o sistema.

A segunda atitude é a hegemônica entre as esquerdas globais. A estratégia seria mais ou menos assim: não há bases sociais organizadas, os movimentos são muito frágeis e quase inexistentes, de modo que o único caminho para modificar a chamada relação de forças é tentar chegar ao governo. Esta situação demonstrou ser fatal, inclusive no caso em que as esquerdas conseguiram vencer, como aconteceu na Grécia e na Itália (se é que os demais, no Partido Comunista, podem ser chamados de esquerda).

Diferente é o caso de países como a Venezuela e Bolívia. Quando Evo Morales e Hugo Chávez chegaram ao governo pela via eleitoral, existiam movimentos potentes, organizados e mobilizados, sobretudo no primeiro caso. No entanto, uma vez no governo, decidiram fortalecer o aparato estatal e, portanto, empreenderam ações para fragilizar os movimentos.

Sendo as experiências estatais mais avançadas, hoje não existem, em nenhum dos dois países, movimentos antissistêmicos autônomos que sustentem esses governos. Aqueles que os apoiam, exceto exceções, são organizações sociais cooptadas ou criadas a partir de cima. Neste ponto, proponho distinguir entre movimentos (ancorados na militância de base) e organizações (burocracias financiadas pelos estados).

Uma variante desta atitude são aqueles movimentos que, em certo momento, decidem penetrar no terreno eleitoral. Na maioria das vezes, e acredito que o México oferece uma longa experiência nesta direção, com o passar dos anos, as bases dos movimentos se fragilizam, ao passo que os dirigentes acabam incorporados no aparato estatal.

A terceira orientação é a que impulsiona o Conselho Indígena de Governo [México], que a meu modo de ver consiste em aproveitar a instância eleitoral para se conectar com os setores populares, com o objetivo de estimular sua auto-organização. Disseram: não se trata de votos, menos ainda de cargos, mas de aprofundar os trabalhos para mudar o mundo.

Parece-me evidente que não se trata de um giro eleitoral, nem que o zapatismo tenha realizado uma guinada eleitoreira. É uma proposta – assim a compreendo e posso estar equivocado – que pretende seguir construindo em uma situação de guerra interna, de genocídio contra os de baixo, como a que vive o México há quase uma década.

Trata-se de uma tática que reúne a experiência revolucionária do século XX para enfrentar a tormenta atual, não usando as armas que o sistema nos fornece (as urnas e os votos), mas armas próprias, como a organização dos de baixo.

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