A "opinião pessoal" do papa

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24 Mai 2017

“Digo isso como uma opinião pessoal.” É apenas um aparte, no exigente e corajoso discurso de improviso que o Papa Francisco – que já é um conhecido showman das entrevistas “nas alturas”... – proferiu na volta de Fátima com os jornalistas que lhe pediam que dissesse algo sobre outro lugar mariano, Medjugorje.

A opinião é do jornalista e escritor italiano Roberto Beretta, em artigo publicado por Vino Nuovo, 16-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É apenas um inciso dentro de um julgamento bastante severo sobre aquelas supostas aparições, julgamento que fez discutir os comentaristas e certamente contrariou muitos fiéis, merecendo, portanto, mais atenção. Porém, para mim, que prefiro extrapolar as questões metodológicas dos temas da Igreja, teve um grande efeito em si mesmo.

“Digo isso como uma opinião pessoal”: há quanto tempo não ouvíamos uma coisa desse tipo da parte de um papa? Acostumados a considerar qualquer pronunciamento pontifício como um oráculo indiscutível (“Roma locuta, causa finita”...), nem mais acreditávamos que um vigário de Cristo pudesse ter um pensamento pessoal e, portanto, discutível ou até mesmo equivocado.

Talvez eu exagere, mas, na sua simplicidade, esse inciso varre, no sentido comum (é claro, os teólogos sempre fizeram as suas distinções entre ex cathedra ou não: mas as pessoas nunca se preocuparam muito com isso), um século e meio de infalibilidade pontifícia mal-entendida e, mais em geral, um excessivo dogmatismo, um espírito gregário clerical.

E há mais também. A secular sacralização da pessoa do papa levou, ao longo do tempo, a concepções teológicas discutíveis, senão até aberrantes: o que dizer da definição de “doce Cristo na terra”, por exemplo? O do hino militante que proclamava “Pai Branco que, de Roma, és meta, luz e guia” (mutatis mutandis, especialmente sobre a cor das vestes ou da camisa, não se dizia nada de diferente sobre o Duce...). Isto é, o papel tinha absorvido a pessoa, e devemos reconhecer a Bergoglio que, desde os seus primeiríssimos atos, fez muitos esforços para desmontar essa imagem.

“Digo isso como uma opinião pessoal” é, portanto, aos meus olhos, um tapa poderosíssimo no clericalismo, segundo o qual a hierarquia dá a entender que age sempre in persona Christi, mesmo quando trata dos assuntos normais do mundo. É um reconhecimento implícito de pluralismo, em uma Igreja em que a gestão das opiniões ainda está longe de ser livre e definida sobre bases paritárias.

É a admissão de que, até mesmo na fé, existem questões opináveis e que também é possível ser católico pensando de forma diferente, até mesmo quando se trata de aparições marianas (imaginemos do resto!). Em suma, é a aceitação – ressaltamos isso aqui muitas vezes – de um relativismo “bom”, saudável, útil, até mesmo indispensável, em contraste com a exigência de “certezas” pervasivas e tranquilizantes.

Mas, obviamente, eu também “digo isso como uma opinião pessoal”...

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