"O objetivo do império é eliminar as lideranças progressistas"

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15 Mai 2017

Com 78 anos, o homem que é a referência brasileira da Teologia da Libertação continua mais do que ativo e entusiasmado pelas ideias do Papa Francisco. Este texto apresenta sua perspectiva sobre a situação na Argentina e no Brasil, onde pretende-se levar o projeto neoliberal às suas últimas consequências.

A reportagem é de Washington Uranga, publicada por Página/12, 14-05-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

"A crise é tão global que torna-se difícil fazer uma análise", afirma este homem grisalho e de barba branca que fala pausadamente em espanhol, incapaz de esconder o seu sotaque abrasileirado. Ele pode ser caracterizado como um filósofo muito crítico e perspicaz da sociedade contemporânea. Continua a considerar-se um teólogo, porque essa era a sua formação básica como religioso franciscano, apesar ter se afastado do sacerdócio católico em 1992, discutindo as divergências com a instituição eclesiástica. Foi um dos iniciadores latino-americanos da Teologia da Libertação. Hoje é um dos maiores pregadores da luta pelo meio ambiente e pela sustentabilidade. Também é um forte defensor do Papa Francisco, a quem considera, juntamente a Dalai Lama, um dos mais importantes líderes mundiais, "em um mundo em que carecemos de lideranças políticas e populares".

Leonardo Boff, este é o seu nome. Esteve em Buenos Aires para apresentar uma série de palestras em distintos âmbitos, mas também para escutar, dialogar, encontrar-se com seus amigos políticos, líderes comunitários, religiosos. Também houve um momento para dialogar com o Página/12. Aos 78 anos, Boff mantém uma enorme vitalidade, esbanja entusiasmo em cada afirmação, mas deixa transparecer uma enorme preocupação pelo momento que a humanidade está passando.

"Há quarenta pontos de guerra no mundo, é uma guerra mundial balcanizada", diz ele. "Não sabemos para onde estamos indo, ninguém sabe. Tenho a impressão de que estamos em um voo cego, de um avião sem piloto", ressalta.

Para Boff, "estamos imersos em uma grande crise sistêmica, que põe em dúvida um modo de vida". Ele retorna a falar sobre o que, em sua opinião, é uma questão central: a ecologia. "A crise ecológica é tão grande que não podemos dimensionar o dano que está sendo causado e tampouco vislumbrar a gravidade da crise que estamos enfrentando", diz ele. E repete, de distintas maneiras, o que também escreveu em seu livro "Sustentabilidade: o que é - o que não é" (Editora Vozes, 2012): "A estratégia dos poderosos consiste em salvar o sistema financeiro, não em salvar a nossa civilização e garantir a vitalidade da Terra".

As referências ao papa e à sua encíclica Laudato Si são constantes durante toda a conversa. A menção pode ser surpreendente, vinda de um homem que abandonou o ministério sacerdotal na Igreja Católica, como consequência da perseguição à qual foi submetido pela instituição, que o impediu de se expressar, ensinar e exercer sua condição de teólogo. Jozef Ratzinger, antes de ser Bento XVI, quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), foi um dos seus perseguidores mais implacáveis. O livro intitulado "Igreja: Carisma e Poder" (Record, 1981) contém uma das mais duras críticas à Igreja Católica como instituição que já se conheceu. Em 1985, ele foi condenado por Ratzinger a um ano de silêncio. Em 1991, foi-lhe imposta uma censura eclesiástica prévia a seus escritos e, nesse mesmo ano, Boff renunciou a direção da revista teológica Vozes (Petrópolis, Brasil), uma tribuna da teologia da libertação.

Hoje, Leonardo Boff destaca a figura do papa e os seus ensinamentos. Admite que tem uma relação fluída com Francisco, a quem enviou, assim que ele foi eleito, uma série de ideias sobre ecologia e meio ambiente. Ele menciona também que naquela oportunidade ele recebeu respostas de Bergoglio através de um amigo em comum: o então embaixador argentino frente a Santa Sé, Eduardo Valdés.

Boff não diz, mas aqueles que conhecem seus escritos e que também se aprofundaram na leitura do documento papal sobre ecologia sabem que muitas das ideias expressas por Francisco já estavam no pensamento deste homem formado nas noções de Francisco de Assis. "A encíclica Laudato Si para o médium não direciona-se aos cristãos, mas à humanidade, e sua ordem é a de salvar a terra. É uma resposta ecológica integral, que abrange todas as esferas da vida. Não é uma ecologia boba, tola. Com este documento, o Papa colocou-se na vanguarda", diz ele.

Não evita respostas políticas. "Não é possível analisar a Argentina ou o Brasil apenas a partir daqui. Precisamos olhar nossas realidades no contexto da crise da globalização e da planetarização". E reforça a ideia, destacando que "dependemos uns dos outros, e cada país não pode se salvar por si só, descobrir sua própria saída".

Ao se referir ao Brasil, acredita na ideia de "golpe parlamentar" e, com inquietação, argumenta que "não vemos nenhuma saída" porque os atuais governantes "querem levar o projeto neoliberal às suas últimas consequências".

A crise, real ou presumida, dos chamados "governos progressistas" da região também se incorpora ao diálogo. "O objetivo do império é eliminar as lideranças progressistas e de esquerda das raízes populares", diz ele. "A estratégia para fazer isso é usar a repressão, por um lado, utilizar a Justiça (o poder Judiciário) com esse propósito e deslegitimar a mobilização popular como luta política". Sintetiza: "Não existem leis, mas poderes em disputa".

"A estratégia do império é: um mundo, um império; cobrir todos os espaços e desestabilizar todos os governos de base popular, já não mais através da força militar, mas utilizando dos parlamentares. É o que eles fizeram na América Latina".

Seu argumento continua: "O Atlântico Sul estava aberto. É uma zona com muitos recursos que era governada por democracias de base popular. Era preciso intervir para ocupar os espaços e, além disso, para colocar limites na presença chinesa na região, uma vez que a China está entrando cada vez mais na América do Sul. Os Estados Unidos precisam conter a China. É um jogo de geopolítica".

"Por isso digo que o problema da Argentina, do Brasil e de outros países sul-americanos não será resolvido só a partir daqui". Como dado curioso, ele acrescenta que "os recursos hídricos e de petróleo no Brasil estão entre os maiores do mundo e estão privatizando-os a preços insignificantes".

Nesta altura do diálogo, Boff coloca mais e mais ênfase em cada afirmação. "Tudo isso torna muito difícil fazer uma história com solidariedade... Temos democracias de muito baixa intensidade". Retorna novamente a falar sobre política: "Pretende-se desprestigiar a política, apresentando-a como um mundo sujo, onde todos são corruptos". Qual é a alternativa? "Os gestores, os gerentes que atuam por fora da política. Isso é muito perigoso, porque, penso eu, não se resolve nada sem passar pelo mundo da política".

"Ninguém sabe para onde estamos indo", ele reitera. E, como anedota, ele se refere a conversas que manteve com militares brasileiros. "Alguns querem que os militares voltem, mas eles mesmos não querem enfrentar a situação, porque percebem a gravidade da crise", diz, enquanto sorri maliciosamente.

Ele coloca sua esperança nos movimentos populares e em sua capacidade de mobilização. "Os movimentos sociais estão despertando e tomando as ruas", assinala. Mas torna a advertir que "não há líderes e isso dificulta a construção de alternativas. Talvez a crise facilite o surgimento de novas pessoas que assumam esses lugares de liderança".

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