"Em crimes contra a humanidade, o papa diz que a lei deve ser aplicada de maneira absoluta", afirma bispo argentino, assessor teológico de Francisco

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11 Mai 2017

"Francisco já falou várias vezes sobre questões relacionadas com a ditadura. Ele sempre insiste que a impunidade deve ser questionada e que, especialmente em crimes contra a humanidade, a lei deve ser aplicada de maneira absoluta". A definição do Arcebispo Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica Argentina (UCA) e um dos bispos que melhor expressa o pensamento do pontífice, torna clara a posição da Igreja sobre a decisão da Suprema Corte de aplicar o critério de "dois por um". "Foi inoportuno e inconveniente", resumiu, ao qualificar a declaração.

A entrevista é de Mariano De Vedia, publicada por La Nacion, 10-05-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Fernández se pergunta, inclusive, se no cenário político conturbado que permeia esta temática, a Igreja deve continuar falando de reconciliação. "A palavra reconciliação já está muito carregada de preconceitos, e inclusive da ideia de impunidade, pela qual convém buscar outras expressões para manifestar seu conteúdo válido". E afirma que "a reconciliação não pode ser imposta ou forçada pelo que é externo: deve brotar lentamente do coração da sociedade".

Eis a entrevista.

É possível uma reconciliação?

Para que haja uma verdadeira reconciliação é necessário que quem tenha cometido uma erro reconheça e manifeste arrependimento. Isso não acontece em muitos casos.

Nestes casos o arrependimento basta?

Quando uma pessoa torturou e matou pessoas, não pode exigir vida fácil, que os outros lhe proporcionem uma vida normal. Embora o que tenha sido feito não pode ser reparado, pelo menos essas pessoas devem fornecer informações para que os familiares conheçam toda a verdade sobre as vítimas. Uma coisa é dizer que também houve crimes atrozes por parte da guerrilha. Mas é inaceitável colocar isso no mesmo nível de crimes cometidos pelo aparelho de estado.
Como esse compartilhamento de informações deveria se concretizar?

Deveria ser uma iniciativa daqueles que as possuem. É lamentável que ainda sejam fragmentadas as informações sobre o que ocorreu com as vítimas e as crianças sequestradas.

Você está de acordo com a decisão da Corte?

O "Dois por um" me pareceu não apenas inapropriado, mas inconveniente. Não acredito que contribua com algo bom para a sociedade e me parece difícil de entender as razões para tal decisão.

O restante dos bispos compartilha das críticas ao "dois por um"?

Que eu saiba, vários deles, sim. Mas não falei com todos eles. Poderia acontecer de alguém ter algum motivo para pensar de maneira diferente. Alguns bispos se preocuparam com prisioneiros muito idosos que não tenham cuidados médicos suficientes. Tenho certeza que isso não implica em justificar o que eles tenham feito ou pedir privilégios para assassinos.

Como o Episcopado recebeu as críticas à convocação para ouvir os depoimentos pela violência dos anos 70?

O que foi discutido na última assembleia da Conferência Episcopal é um espaço de sinceridade interna, entre nós. O gatilho foi o depoimento de três pessoas que foram vítimas de maneiras distintas. Mas, na minha opinião, o erro estava em tornar isso público.

O que se destaca destes depoimentos?

Que umas das pessoas nos pediu por gentileza que fossemos mais claros e específicos no reconhecimento dos nossos próprios erros e no pedido de perdão. Outra pessoa pediu para que não pretendêssemos curar feridas que só se curam com o tempo, ou melhor, que nos dediquemos mais à verdadeira lacuna, que são os milhões de pobres que sofrem na Argentina.

Vocês falaram com Francisco sobre o tema ou ele conseguiu emitir alguma opinião ou orientação?

Não. O papa considera que as conferências episcopais têm autonomia para resolver problemas locais. Ele sempre pede prudência e insiste em tudo o que tem a ver com justiça, equidade social, a defesa dos descartáveis da sociedade. Mas essas são as orientações amplas que ele ministra aos bispos de todo o mundo. Por outro lado, Francisco já falou várias vezes sobre questões relacionadas com a ditadura. Sempre insiste que aqui não se trata de questionar a impunidade e que especialmente em crimes contra a humanidade, a lei deve ser aplicada de maneira absoluta.

Houve alguma conversação com membros da Corte? Isso acontecerá em breve?

Não acredito que isso ocorra. Uma coisa é expressar a própria opinião e outra é a pretensão de tornar-se um fator de pressão política.

Olivera também criticou a decisão

O aguerrido bispo, Dom Santiago Olivera, também questionou a decisão da Suprema Corte. "Além das questões técnicas da lei, não gosto da lei do 2 x 1, não apenas pelos crimes contra a humanidade, mas em geral porque não gosto que ela seja usada para nenhum crime e muito menos para os crimes graves", disse o prelado, em diálogo com a FM Blue. "A Igreja reconheceu que tenha agido mal durante a ditadura. É possível que tenha feito isso de uma forma muito tímida, mas também fez isso no jubileu dos anos 2000 ", disse ele.

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