Meditações inéditas do cardeal Martini: o sonho de Deus

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05 Maio 2017

“O biblista Martini, sempre perscrutando a Escritura, apreendeu que o Criador tem um sonho para cada criatura sua. Mas ele não se coloca no registro onírico-freudiano óbvio demais, mas sim no da Palavra que irrompe na existência de cada um e de cada uma que, se se deixar interpelar, pode entrar no magnético e fascinante sonho.”

A análise é de Cristiana Dobner, irmã carmelita descalça e teóloga italiana. Vive no mosteiro de Santa Maria del Monte Carmelo, na localidade de Barzio, na província de Lecco, Itália. O artigo foi publicado no jornal L’Osservatore Romano, 04-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Carlo Maria Martini, já com 80 anos, pôde retornar a Jerusalém, terra onde queria ficar até o fim da sua existência, para se dedicar à oração de intercessão, à Palavra, ao estudo. Em 2007, ele ditou em Kiryat Yearim um curso de Exercícios Espirituais aos padres ambrosianos que festejavam o seu 45º aniversário de ordenação.

As meditações, até agora inéditas, foram transcritas e reunidas em um pequeno volume com um título intrigante: I verbi di Dio. Con riflessioni sui miracoli di Gesù e sul sogno di un’esistenza alternativa [Os verbos de Deus. Com reflexões sobre os milagres de Jesus e sobre o sonho de uma existência alternativa] (Milão: Edizioni Terra Santa, 2017, 144 páginas).

O biblista Martini, sempre perscrutando a Escritura, apreendeu que o Criador tem um sonho para cada criatura sua. Mas ele não se coloca no registro onírico-freudiano óbvio demais, mas sim no da Palavra que irrompe na existência de cada um e de cada uma que, se se deixar interpelar, pode entrar no magnético e fascinante sonho: “O sonho de Deus está lá onde não há medo, não há ansiedade, não há nenhum senso de terror por forças desconhecidas que ameaçam o homem, mas há paz, confiança, abandono”.

Como alcançá-lo? Perscrutando os verbos que indicam o agir divina, e são muitíssimos: “Todos, porém, levam a reconhecer o rosto de um Deus que não está fora e longe do mundo, mas que se envolve concretamente conosco. Toda a espiritualidade judaica, que, depois, se torna a espiritualidade cristã, é espiritualidade do envolvimento, da aliança; e, portanto, também da resposta afetuosa e sincera a essa atenção de Deus por nós”.

Os verbos principais são criar, prometer, libertar, comandar, prover e amar e, ao mesmo tempo, observar os milagres de Jesus.

Martini tem entre as mãos uma edição muito particular do texto hebraico, aquela editada pelos judeus messiânicos que lhe foi dada de presente por eles. Permanecendo no rastro típico dos Exercícios inacianos com o texto bíblico debaixo dos olhos e no coração aberto à escuta, afloram muitas perguntas, e uma capital: Deus tem a ver com a minha existência e na minha existência? É racional, possível fazer-se tal interrogação?

Martini não só a dissolve, mas a demonstra com a sua própria vida: de fato, ele acreditou que “Deus, prometendo, se compromete, torna-se parte da história do homem. Ele podia se contentar, depois de ter criado, em nos deixar seguir em frente por nossa própria conta. Em vez disso, ele arrisca, aposta no homem, liga o seu destino ao do homem. Tudo isso ficará cada vez mais claro com a Encarnação e com o chamado a ser um em Jesus. Mas, desde o início, vemos esse ligar-se de Deus à história humana como uma característica misteriosa e grandiosa dele”.

Deixar-se aferrar por esse mistério significa imprimir em si mesmo uma direção, aceitar um selo, deixar-se exposto à intervenção, grávido de amor, daquele Deus que se joga por nós até o fim.

Martini é um combatente aguerrido, mas de armas pacíficas. No entanto, ousa as “perspectivas revolucionárias” do Evangelho, que “subvertem o modo corrente das pessoas de aplaudir o mais forte, o mais poderoso, quem tem mais dinheiro”.

Desafio e risco que projetam para um horizonte de esperança: “No fundo, os verbos de Deus e os milagres de Jesus representam o sonho de Deus: o sonho de outro mundo, do reino de Deus, de outro modo de ser, no qual nós vivemos a dimensão do já e ainda não”. A provocação é contínua, porque é típico da promessa ser assim.

Esse livro é o último texto dado por Martini antes do regresso à Itália por motivos de saúde, o sinal da sua abertura e disposição pessoais à promessa que é sempre “open ended, isto é, nunca vai se torna realidade: repete-se, repete-se, torna-se realidade, mas não completamente, repete-se... Vai se alargando e se ampliando, mas nunca alcança um ponto em que se possa dizer: agora a promessa se cumpriu, chegamos ao fim! Há sempre uma abertura, a realização será sempre inferior à promessa e deixará espaço para outra promessa”.

Os milagres de Jesus (Pedro que caminha sobre as águas, a tempestade acalmada, a multiplicação dos pães, a ressurreição do filho da viúva de Naim etc.) demonstram como o “sonho” de Deus se realizou, porque é Jesus na sua pessoa que encarna o Reino de amor, e “a Eucaristia é o modo pelo qual Deus nos mostra de modo visível e tangível o seu contínuo cuidado, proximidade, presença, atenção para nos alimentar. E é também o modo pelo qual Deus já torna de algum modo presente, como antecipação, o banquete celestial, isto é, a plenitude da vida eterna, aquela que ele promete”.

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