Francisco vai ao Egito. Mas nada é “estritamente religioso” atualmente

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27 Abril 2017

“Esta viagem de Francisco ao Egito não é apenas mais um acréscimo à história do diálogo inter-religioso entre a Igreja Católica e o Islã. Ela também é parte do debate mais amplo sobre religião e cidadania no contexto da crise do Estado-nação”, escreve Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por Commonweal, 26-04-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “o Papa Francisco e a Al-Azhar estão tentando articular uma resposta à crise das autoridades políticas e do Estado-nação. A tarefa que religiões mundiais como o catolicismo e o Islã compartilham neste momento é a de apresentar uma resposta contra a tentação de substituir a cidadania entre iguais por um entendimento exclusivo, etnonacionalista e tribal de identidade religiosa”.

Eis o artigo.

O Papa Francisco está prestes a chegar ao Egito para uma visita que incluirá a ida à Universidade de Al-Azhar (a mais prestigiada do Islã sunita, onde terá um momento junto ao Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb); um discurso aos participantes do Congresso Internacional sobre a Paz, evento organizado na citada instituição; a celebração de uma missa num estádio; almoço com os bispos egípcios; e um encontro de oração como o clero, religiosos e religiosas e seminaristas. Apesar das aparências, no entanto, esta visita não tem a ver somente com o diálogo inter-religioso.

A tradição recente diz que as visitas papais a países onde a religião e a política internacional não se separam deveriam se focar ao “estritamente religioso”. Esta tradição pode ser remontada à peregrinação à Terra Santa, em janeiro de 1964, feita por Paulo VI. No Vaticano II, necessitou-se ter o aspecto “estritamente religioso” no concernente ao diálogo entre as religiões porque a oposição dos bispos de países árabes a todo gesto conciliar que pudesse ser interpretado como uma legitimização do Estado de Israel poderia pôr numa situação desconfortável as minorias católicas nos países árabes junto às políticas externas anti-Israel promovidas por seus governos. Essa oposição também teria colocado a teologia embrionária defendida por muitos bispos (não só árabes) do judaísmo numa crise ainda mais profunda da que já estava com o texto puramente religioso de Nostra Aetate, aprovado em outubro de 1965.

Em setembro de 1964, no debate difícil sobre Nostra Aetate, o Cardeal Agostinho Bea, presidente do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, criada por João XXIII, precisou enfatizar que o Vaticano II não discutiria o sionismo ou o Estado de Israel, mas teria um escopo puramente religioso. O Vaticano II e Nostra Aetate marcariam o começo de uma nova relação não só entre o catolicismo e o judaísmo, mas também entre o catolicismo e o Estado de Israel. Mesmo assim, apesar de todo o progresso desde então nas relações entre a Igreja Católica e a Santa Sé, de um lado, e o judaísmo e o Estado de Israel, de outro, o debate teológico ainda não foi abordado no tocante ao “papel” do Estado de Israel.

Na Igreja Católica pós-Bento XVI, um dos principais entraves, tanto teologicamente quanto politicamente, é a relação com o Islã. Entrevistas e declarações antes da ida de Francisco ao Egito trazem a ideia: “Religioso sim, político não”. Na revista America, Thomas Michael (atualmente professor no Pontifício Instituto para Estudos Islâmicos e Árabes em Roma) minimiza o lado político da visita, e a reduz ao escopo inter-religioso: “O Concílio Vaticano II nunca aborda o Islã, nunca emprega a palavra ‘Islã’. Ele sempre diz: a Igreja tem uma grande estima pelos muçulmanos”. A situação política sob o presidente egípcio o Gen. Abdel Fatah Al Sisi é também um fator, sugere Michael. “Penso que o papa irá para a Al-Azhar principalmente por isto: para se encontrar com líderes religiosos, não líderes políticos”.

Porém existe um aspecto teológico-político importante nesta visita. Da mesma forma como o Vaticano abriu as portas para o diálogo com o Estado de Israel e não apenas com o judaísmo, também Francisco está agora abrindo as portas para o Islã – numa época em que uma instituição importante como a Al-Azhar está examinando uma questão política central para as relações entre o cristianismo e o Islã.

Dois meses atrás, a Al-Azhar organizou um encontro sobre “Liberdade, Cidadania, Diversidade e Integração”. O evento atraiu cerca de 200 participantes (muçulmanos sunitas de todo o mundo, incluindo do Nepal e do Paquistão; muçulmanos xiitas; yazidis; protestantes; cristãos ortodoxos; e católicos), mas o mais significativo foi uma declaração final, que continha cinco pontos, lida pelo próprio imã da Al-Azhar. O ponto 2 aborda explicitamente o conceito de cidadania “como um contrato estipulado entre cidadãos, sociedade e o Estado”.

O texto também diz que uma “falta de entendimento do conceito de cidadania e do que ele acarreta leva a falar sobre ‘minorias’ e seus direitos. Tendo isso como um ponto de partida, esta declaração deseja que todos os homens de cultura e intelectuais estejam atentos para os riscos implicados no emprego do termo ‘minorias’. Na verdade, embora reivindique afirmar certos direitos, ele vela um sentido de discriminação e separação. Nos últimos anos, testemunhamos o reaparecimento do termo ‘minorias’, que achávamos que tínhamos superado com o fim do colonialismo. Mas ele recentemente voltou a ser empregado para estabelecer diferenças entre muçulmanos e cristãos, mas também entre os próprios muçulmanos, considerando que ele conduz à dispersão da aliança e favorece interesses estrangeiros”.

Antoine Courban, professor da Saint Joseph University em Beirute, instituição jesuíta, esteve no encontro realizado na Al-Azhar. Como explicou em artigo no sítio eletrônico Vatican Insider, a declaração especifica que na nova “umma” (comunidade), descrita pela Al-Azhar, todos os cidadãos estão sujeitos a uma constituição que não está escrita pelos teólogos: “O conceito de nação, palavra que no árabe não existia até o século XIX, foi interpretado em termos étnicos e religiosos. Agora a instituição sunita mais importante, a Al-Azhar, reinterpreta-o em termos geográficos, como a terra natal comum, onde viver juntos, como iguais, sem maiorias ou minorias legais étnica ou religiosamente definidas”.

É importante compreender a declaração da Al-Azhar, uma de um conjunto de declarações parecidas que ela vem emitindo desde a revolução de 2011, numa série de contextos: o Egito como um todo; os ataques aos cristãos e muçulmanos no Egito; e a queda do presidente islâmico eleito do país, Mohamed Morsi, em 2013. O documento deveria, portanto, ser tomado como parte do esforço contínuo da Universidade de Al-Azhar de alinhar-se, como diz um relatório do [think tank] Carnegie Endowment for International Peace, “firmemente com os planos pós-Morsi, e afirmar a sua liderança da vida religiosa em todo o Egito”.

E, de um ponto de vista católico, esta declaração é interessante por dois motivos. O primeiro é que a mudança no conceito de cidadania – do teológico para o constitucional – é semelhante àquela que o catolicismo produziu no século XX e no Vaticano II. Especialmente na declaração sobre a liberdade religiosa, Dignitatis Humanae (um dos últimos documentos que o Vaticano II aprovou, em 07-12-1965), os padres conciliares exigiam que o “poder público seja delimitado juridicamente, a fim de que a honesta liberdade das pessoas e das associações não seja restringida mais do que é devido”. As palavras “constituição” e “ordem constitucional” são empregadas oito vezes nos quinze curtos parágrafos da declaração, depois de uma longa história de desprezo católico à ideia de uma constituição como algo que encarna a soberania popular à custa do direito divino dos governantes. Isso demonstra a ligação entre os desdobramentos teológicos em eclesiologia (no caso da Al-Azhar: a ideia de “umma”) e o desdobramento no papel político dos católicos no Estado-nação (no caso da Al-Azhar: o papel dos muçulmanos sunitas).

O segundo motivo é que a declaração da Al-Azhar pode também ser lida à luz do debate nos Estados Unidos sobre a relação entre religião e cidadania na América contemporânea. O receio de um “país pós-cristão” está no centro do apoio à opção Bento XVI e da resposta favorável a ela de importantes prelados católicos americanos, como o arcebispo da Filadélfia Dom Charles Chaput e Dom Robert Barron. Verdade seja dita: não é fácil dizer qual o impacto, se é que existe algum, que a opção Bento XVI pode ter nos católicos não americanos, especialmente onde os cristãos formam uma pequena minoria. Seria também um exagero dizer que a declaração da Al-Azhar promove a proposta de um Estado pós-muçulmano, laico. Entretanto, a ênfase na cidadania igualitária baseada sobre uma constituição é, certamente, um passo em direção à preferência dos cristãos do Oriente Médio por um Estado secular ou religiosamente neutro.

Um dos paradoxos interessantes da relação entre o cristianismo americano e o Oriente Médio é que o primeiro busca no segundo aquilo que rejeita para si: uma constituição mais secular. Em parte, a eleição de Donald Trump reflete, um desejo de restaurar um país com maioria e minoria, onde a maioria (pelo menos por enquanto) permanece branca e cristã. Este foi também o subtexto da luta dos bispos americanos contra o governo Obama no caso do Affordable Care Act, que foi construído mais sobre um argumento jurídico-constitucional do que sobre um argumento teológico. Apesar do entendimento não teológico, e mais constitucional, da liberdade religiosa que os bispos mantêm, eles parecem relutantes a conceder este mesmo entendimento quando se trata da liberdade religiosa aos muçulmanos. Dom Joseph Vasquez, presidente da Comissão para a Migração, respondeu à ordem executiva proibitiva de Trump emitida em janeiro com uma declaração de apoio aos “yazidis e aos muçulmanos xiitas da Síria, aos rohingyas de Birmânia e outras minorias religiosas”, acrescentando que “precisamos proteger todos os nossos irmãos e irmãs de todas os credos, incluindo os muçulmanos, que perderam a família, a casa e o país”. No entanto, quando os presidentes da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA Timothy Dolan, William Lori, Frank Dewane e Charles Chaput saudaram a proposta de ordem executiva do presidente sobre a liberdade religiosa em 16 de fevereiro, não fizeram menção alguma sobre o enquadramento especial dos muçulmanos por parte do governo Trump.

Esta viagem de Francisco ao Egito não é apenas mais um acréscimo à história do diálogo inter-religioso entre a Igreja Católica e o Islã. Ela também é parte do debate mais amplo sobre religião e cidadania no contexto da crise do Estado-nação. A opção Bento XVI como uma reação à nação pós-cristã expressa uma ilusão sobre a possibilidade de se retirar do mundo exterior para recriar, do lado de dentro e em comunidades menores, um complexo majoritário. Trata-se de uma proposta que não pode escapar do desafio de uma nova ideia de cidadania em um mundo multirreligioso e multicultural. De diferentes modos e a partir de diferentes circunstâncias, o Papa Francisco e a Al-Azhar estão tentando articular uma resposta à crise das autoridades políticas e do Estado-nação. A tarefa que religiões mundiais como o catolicismo e o Islã compartilham neste momento é a de apresentar uma resposta contra a tentação de substituir a cidadania entre iguais por um entendimento exclusivo, etnonacionalista e tribal de identidade religiosa.

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